quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
A NUDEZ PARA AS ETNIAS INDÍGENAS -BRASIL
O corpo é um dos meios que definem a nossa individualidade social e étnica. Por isso, o corpo através de vestimentas, adornos, tatuagens, comunicam mensagens, falam.
Os índios encontrados pelos portugueses à luz do descobrimento estavam nus. Este nativo brasileiro, no seu estado de pureza, desconhecia o pudor, tomada esta palavra na pura acepção adotada pelo homem branco.
Precisando viver identificado com a selva, sente que o estado de nudez o tornava mais saudável, evidentemente mais forte, apto para subsistir e vencer os obstáculos naturais. A ausência de vestes, emprestava ao indígena a grande fortaleza física que o acompanhava sempre. O corpo nu, recebe melhor a ação dos raios solares e deles absorvem elementos que se considera essenciais a vida.
Vivendo sempre nus, os índios brasileiros, quando acontecia de usarem tangas, coberturas, seja entre a região do peito ou do joelhos, seja da cintura as coxas ou ainda, no espaço pubiano, o que se verificava, particularmente, entre as mulheres, o faziam por imitação direta ou das tribos que já se vestiam por terem convivido com o branco. Mas, não era o pudor instintivo que os obrigava e vestirem-se.
Algumas tribos cujas mulheres adquiriram o hábito de vestir-se, parcialmente ou por inteiro, o faziam por pura vaidade, como as índias "caudieu", da tribo "guaicurú-caudieu", que se habituaram a enrolar parte do corpo com faixas de algodão, comprimindo os seios como se vestissem uma túnica.
Dos tupiniquins, os primeiros índios avistados pelas naus de Cabral, ficou a descrição de Caminha:" A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bom rosto e bons narizes, bem feitos. Andavam nus, sem cobertura alguma. Nem faziam caso de encobrir suas vergonhas do que mostrar a cara". Jean de Lery, pouco depois, escreveria sobre os tupinambás e goitacás:"Tanto os homens como as mulheres se apresentavam nus como quando saíram do ventre materno".
O homem e a mulher indígena, viviam nus na sã exibição da forma em que foram moldados, sem que o estado de nudez provocassem neles sentimentos impuros. A força de atração que a índia exercia sobre o índio, naquela época, não dependia da quantidade de panos que lhe podiam ocultar o corpo.
Embora andassem nus, os índios pintavam seus corpos, que funcionavam como um verdadeiro código social, pois cada uma delas indicava uma situação ou estado de espírito: guerra, nascimento de filhos, luto, ritos etc. Para todo aquele que conhecia tais códigos, eles diziam mais do que qualquer outra vestimenta. Igualmente, facilitava a comunicação entre tribos que não falavam a mesma língua.
Em alguns costumes indígenas, os cintos, colares, penas, tangas e outros acessórios que o índio usava, agiam como elemento de sedução, de atração, nada a ver com pudor, propriamente dito, qualquer que seja a região anatômica sobre que esses enfeites repousem. Quando o índio encobria a glande ou todo o órgão de reprodução, ele estava se enfeitando para melhor despertar o curiosidade, o desejo da companheira. A mulher, igualmente, desde que não obedeça a imposições rituais, cobre-se para se fazer desejada. No âmbito da sedução e do domínio do corpo, este nexo social também era evidente nas pinturas usadas pelos jovens indígenas em seus bailes noturnos de caráter orgiástico e lúdico.
Em relação as práticas bélicas o corpo apontava diversos objetivos. Assim, os guerreiros escarificavam o peito, os braços e as pernas para transmitir atributos de animais cujos os ossos eram usados como escarificadores. Entre estes se preferia a de avestruz, por sua força e velocidade. A escarificação, portanto, implicava na apropriação das características dos animais, potencializando a capacidade bélica. O corpo se constitui deste modo, um veículo de transformação de poderes e for'ças naturais em humanas.
A guerra envolvia também a prática do "scalp" (corte do couro cabeludo) e a apropriação de crânios. Os couros cabeludos eram guardados como troféus pelo guerreiro, que demonstravam seu valor e habilidade. Da cabeça só se conservava a calota, que era usada para beber em cerimônias religiosos. Estas ações permitiam que o guerreiro incorporasse o poder do oponente, neutralizando a possibilidade de vingança do morto.
Do exposto se deduz, que o corpo pode ser, mesmo nu, radicalmente transformado e conecta o indivíduo não só com outros humanos, mas também com seres míticos, convertendo-se em receptáculo de poder.
Na nudez o índio exprimia a castidade sem malícia, da qual se afastaria, gradualmente, na convivência com o homem branco. Pois, sabe-se que o pudor não é instinto, vem de fora para dentro e, é coisa adquirida, ensinada, aprendida. Já dizia um velho sábio, que nascemos puros e originais, mas morremos cópias do meio-ambiente e de nosso aprendizado. O nu será sempre moral e nós é o que desvirtuamos emprestando sentimentos impuros à obra da natureza. Em nossa civilização seria um absurdo combater o uso de roupas, até porque seria um atentado ao pudor, punido criminalmente, mas para os índios daquela época era um erro forçá-los a adotá-la. A crônica e relato de etnólogos contam episódios de índios e índias que, afastados da aldeia e seduzidos pela vida da cidade, nela cresceram e educaram-se, adotando o uso de vestes, até que a saudade ou o destino os devolvia novamente, no limiar da selva. Neste dia, em que a sedução e a voz da Grande Mãe Terra se fazia ouvir mais forte, abandonavam os atrativos da civilização. Então, arrancavam toda a indumentária representativa do pudor, dela se despedindo sem saudades, pois para retornar ao seio da natureza, o índio deveria se apresentar no esplendor da nudez que nela viveu. Antes de possuí-la novamente, o índio faz o ato de renúncia e regressa à amplidão da selva nu como dela partiu.
Hoje os índios usam roupas, possuem carros, portam celulares e falam fluentemente português. Perfeitamente adaptados a vida urbana são universitários, professores, jogadores de futebol entre tantas outras profissões. Mas o que é mais importante: continuam sendo índios, não perderam sua individualidade. Mesmo utilizando toda a tecnologia moderna e não vivendo mais em selvas, não deixaram de ser o que verdadeiramente são: bravos guerreiros índios, que buscam o resgate de sua própria identidade. Ao restante da sociedade, cabe o discernimento de reconhecer nos povos indígenas atuais, não como remanescentes de um valoroso passado, mas sim como um povo merecedor de nossa admiração e respeito.
A sua luta, é nossa luta, somos todos filhos da mesma terra, portanto, empunhamos a mesma bandeira, assim como nossos corações-irmãos pulsam uníssonos.
Texto pesquisado e desenvolvido por
Rosane Volpatto
FONTE : http://www.rosanevolpatto.trd.br/lendalinguagemdocorpo.html
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
IVAN ILLICH - "ANTES QUE O MUNDO OU A HUMANIDADE ACABE" CONHEÇA ILLICH (MULTIMANIFESTO)

janeiro 2003
A resistência
segundo Ivan Illich
O famoso teórico Ivan Illich acaba de falecer, aos 76 anos de idade, em Bremen, onde lecionava na universidade. Publicava regularmente e fazia conferências no mundo inteiro. Sua obra, ardente, não podia ser resumida a slogans espetaculares
Thierry Paquot
b ten
A obra de Illich é abundante, perturbadora, difícil de ser classificada, à imagem de seu auto, que raramente estava onde se esperava que estivesse
Na segunda-feira, 2 de dezembro, Ivan Illich esticou sua sesta a ponto de partir para a eternidade. Agora está morto. Escrevo “agora” porque, já há muitos anos, quando mencionava seu nome, invariavelmente meus interlocutores me perguntavam sobre a data de seu falecimento. Ele morreu e, proximamente, sua obra completa será reeditada1, permitindo que alguns a descubram e que outros a revisitem. Uma obra exigente, abundante, perturbadora, difícil de ser classificada, à imagem de seu autor que raramente está onde se espera que esteja.
Bastante alto, magro, com um olhar envolvente, um sorriso caloroso e um perfil fino, exceto do lado da protuberância impressionante que o desfigurava, Ivan Illich sabia deixar as pessoas à vontade. Depois, feitas as primeiras trocas de palavras sobre as coisas banais de cada dia, seu pensamento se acelerava, se engrenava com sua elocução e nos encantava com sua inteligência. Falava dos “humores” de um médico alemão do século XVIII, recuava até Aristóteles, fazia um desvio passando por Diderot e Lavoisier, evocava Claude Bernard, se detinha em Balint, voltava ao médico alemão e se perguntava, em voz alta, sobre o diagnóstico, a consulta, a espoliação de si por um outro - o médico -, a recusa da dor e descrevia, com precisão, a máquina hospitalar atual, atropelando de passagem algumas de suas próprias análises já antigas e que se encontram em Némèsis médicale.
Vice-reitor aos 30 anos
Ivan Illisch era dono de um incrível enciclopedismo, apoiado na grande facilidade em manejar muitas línguas (mais de dez!) e numa curiosidade sem fim
Num outro dia, a palavra errante tomava outro rumo, demonstrava que o silêncio pode ser uma arma de contestação como a não-violência, expunha a reflexão filosófica de Max Picard, comparando-a com a de Emmanuel Lévinas, aproveitava a oportunidade para contar uma discussão com Michel de Certeau sobre o “uso da palavra” e o silêncio, falava dos padres da Igreja e da vida eremita, lembrava vários happenings silenciosos de que participara, recolocava a palavra numa sociedade da escrita, depois na sociedade da imagem e se entusiasmava com o século XII, seu século predileto. Essas duas histórias, de que sou a modesta testemunha, estão bem de acordo com os relatos com que outros comensais - impacientes ou maravilhados - enriquecem a respeito desse incrível enciclopedismo que se apóia numa grande facilidade em manejar muitas línguas (mais de dez!) e, ao mesmo tempo, numa curiosidade sem fim.
Realmente, o jovem Ivan, nascido em Viena, filho de pai dálmata e católico e de mãe alemã e judia, não tem só uma língua materna e, sim, várias - o francês, o italiano e o alemão - antes de aprender, a partir dos oito anos, o serbo-croata, língua de seus avós. Na seqüência, estudaria grego e latim - o que lhe facilitaria a abordagem etimológica das palavras e dos conceitos -, o espanhol, o português, o hindi etc. Matriculou-se em Cristalografia em Florença, em Filosofia e Teologia em Roma, em História Medieval em Salzburgo, foi ordenado padre, partiu para Nova York em 1951, reivindicou uma paróquia porto-riquenha, tornou-se vice-reitor da Universidade Católica de Porto Rico em 1956 - aos trinta anos! -, contestou cada vez mais o sistema escolar e as posições reacionárias do clero, criou seminários paralelos e diversos grupos de trabalho.
As preocupações do Vaticano
Aos 30 anos, vice-reitor da Universidade Católica de Porto Rico, contestou cada vez mais o sistema escolar e as posições reacionárias do clero
Três anos mais tarde, atravessou de ônibus e a pé toda a América Latina, opôs-se à concepção norte-americana de desenvolvimento, instalou-se em Cuernavaca, no México, e abriu o Centro Internacional de Documentação Cultural (Cidoc). Freqüentado inicialmente por “voluntários” norte-americanos - do programa “Aliança para o Progresso”, lançado por Kennedy - que para lá se dirigiram para aprender o espanhol e a civilização do país para onde iriam, o Cidoc tornou-se conhecido principalmente pelo trabalho crítico sobre a sociedade capitalista que numerosos intelectuais, de todas as nacionalidades, ali iriam desenvolver sob a orientação de seu fundador.
O Centro funcionaria de 1966 a 1976 e, a partir de 1967, Ivan Illich rompeu com Roma, que o convocou devido a um relatório da CIA – mas que se preocupava, sobretudo, com a audiência de alguns textos publicados em Libérer l’avenir (ed. Seuil, 1971), como “Disparition de l’ecclésiastique” (1959). Ele mencionou pressões sobre o Cidoc e até violência física que teria sofrido, sem, contudo, insistir... A passagem por Cuernavaca tornou-se, para uma certa esquerda radical e terceiro-mundista, um desvio obrigatório. A seriedade dos estudos convivia de perto com encontros festivos - duas atividades marcadas pelo cristianismo. Além do mais, mesmo assumindo o estado leigo, Ivan Illich continuou convencido de que “a maioria das idéias-chave, que fazem do mundo contemporâneo esta realidade particular, é de origem cristã2”.
A libertação da singularidade individual
Atravessou de ônibus e a pé toda a América Latina, instalou-se em Cuernavaca, no México, e criou o Centro Internacional de Documentação Cultural (Cidoc)
É com Une société sans école e La convivialité que se firma a fama de Ivan Illich: ainda não havia chegado aos cinqüenta anos e suas idéias já eram discutidas no mundo inteiro3. Seus primeiros livros visam a demonstrar que os “instrumentos” (entenda-se: as “instituições” e as grandes “máquinas” sociais, como a Igreja, a Escola, o Hospital, os Transportes etc.), depois de um certo patamar, tornam-se contraproducentes - de uma “contraprodutividade paradoxal”, esclarece ele, porque não desejada por seus idealizadores. Quanto mais avança um sistema técnico, mais aumenta a parte de heteronomia do indivíduo médio e mais diminui sua parte de autonomia, deixando-o cada vez mais dependente daquilo que não pode dominar: a energia nuclear, a rodovia, a quimioterapia, as manipulações genéticas etc.
Por trás de constatações demasiado simplificadas pelos seus seguidores - como, por exemplo, a “escola desescoloriza”, o “hospital torna doente”, o “carro emperra o tráfego” - encontra-se uma crítica extraordinária do “progresso” e daquilo que o legitima: a satisfação das supostas “necessidades4”. Ivan Illich recusa o ponto de vista do ataque dos membros do Clube de Roma que, em 1972, convidaram os líderes políticos a deterem o crescimento para se postergar a escassez de matérias-primas e para se reduzir o desperdício das reservas energéticas. Ele não acreditava de modo algum numa medíocre “proteção da natureza” e denunciava o desenvolvimento inconseqüente das técnicas, bem como a economia política do desenvolvimento, que alguns autores como René Passet e Serge Latouche retomariam e aprofundariam. Esses livros devem ser lidos juntos, de tal modo pertencem ao mesmo projeto: a libertação total da singularidade de cada indivíduo - quaisquer que sejam sua cultura, sua renda, sua posição no sistema produtivo etc.
Irritando o “esquerdismo” e o feminismo
A partir de 1967, Illich rompeu com Roma, que o convocou devido a um relatório da CIA, mas, na verdade, se preocupava com a audiência de seus textos
Esta libertação do sujeito - palavras que não pertencem a seu vocabulário - baseia-se no domínio de seu próprio corpo e de suas próprias necessidades, independentemente das técnicas disponíveis. Ivan Illich conta a história de uma estudante a quem ele oferece um copo de sidra e que lhe responde: “Não, obrigada, minhas necessidades de açúcar já foram satisfeitas para o dia todo.” Suas necessidades foram confiscadas pelos calculadores de calorias e pelos normatizadores... Partilhar uma bebida durante uma reunião não cabe nesse tipo de medida, e se situa na esfera de um ritual que, justamente, faz com que uma necessidade seja sempre cultural e histórica. O estudo da invenção das necessidades padronizadas e válidas para todos ocuparia Ivan Illich durante vários anos, obrigando-o, durante a trajetória, a estabelecer outras genealogias, como a de “ser humano”, “vida”, “pessoa”, “gênero”, “saúde” 5 etc., donde uma retomada da história do Ocidente.
Em que momento, em que circunstâncias e para quê, por exemplo, o trabalho se torna o principal tempo da existência individual e coletiva? Le Travail fantôme e Le Genre vernaculaire completam os primeiros ensaios e os elucidam, insistindo na linguagem como principal enraizamento existencial de cada um, a sexualização da sociedade como discriminação entre os gêneros e a crença errônea no homo œconomicus como modelo de comportamento etc. Essas obras, lidas depressa demais, irritam os terceiro-mundistas, para os quais o “trabalho fantasma” não valoriza os “pobres” tributários do “setor informal”, e as feministas, que recusam a diferença de gêneros de Illich e militam por uma igualdade jurídica e econômica homem/mulher. Quanto a suas últimas pesquisas sobre o oral, o escrito e a imagem, elas passarão despercebidas.
Originalidade vs. perplexidade
Por trás de constatações “simplistas” encontra-se uma crítica extraordinária do “progresso” e do que o legitima: a satisfação das supostas “necessidades”
Bajulado pelos adeptos da “segunda esquerda” francesa ao longo da década de 70, Ivan Illich pareceu-lhes demasiado pessimista quando eles assumiram responsabilidades políticas com a eleição de François Mitterrand, em 1981. Os terceiro-mundistas procuravam reagir ao fim da guerra fria e à globalização das economias e das telecomunicações: não encontram mais em Illich motivos para reagir a seus questionamentos. Os ambientalistas não gostam de sua crítica ao princípio da responsabilidade, iniciado por Hans Jonas, e não aderem à sua crítica da técnica, inspirada por Jacques Ellul, Lewis Mumford e alguns outros.
Em resumo, havia uma interrupção no circuito entre um pensador de uma originalidade desconcertante e uma intelligentsia desnorteada. Fora da França, as redes implantadas por Illich seguiram divulgando suas pesquisas e se engajaram nos caminhos abertos por ele, e sua influência - difícil de ser apreendida - é certa, como demonstram a popularidade de seus conceitos e sua presença nas citações bibliográficas. De Vancouver (“Habitat I”, em 1976) ao Rio (“Cúpula da Terra”, 1992), dos comitês de bairros por um orçamento participativo às associações por uma alternativa à globalização neoliberal, as idéias de Ivan Illich não parecem esquecidas, ao contrário.
(Trad.: Iraci D. Poleti)
1 - Pela editora Fayard, em 2003.
2 - Cf. David Cayley, Entretiens avec Ivan Illich, tradução francesa, Bellarmin, Saint-Laurent, Québec, 1996, p. 146.
3 - Cf. Jean-Marie Domenach põe a revista Esprit, que ele dirige, a serviço do pensamento de Illich, publicando vários de seus artigos em 1970 e 1971 e dedicando-lhe dois números: “Illich en débat”, n°3, de março de 1972, e “Avancer avec Illich”, n°7-8, de julho-agosto de 1973. Nos fragmentos escolhidos de seu Journal 1944-1977 e Beaucoup de gueule et peu d’or, ed. Seuil, 2001, Domenach dedica-lhe apenas algumas linhas, p. 291, ao passo que, em nossas conversas, me confirmou a importância, para ele, de sua leitura de Illich (ler sua crônica em L’Express de 21 de setembro de 1990). Illich está no índice da revista Les Temps Modernes em 1969 e 1970, e Herbert Gintis redige uma “Critique de l’illichisme” no n° 314-315, setembro-outubro de 1972. Ler n° 109, de dezembro de 1972, da revista Les Cahiers Pédagogiques e o n° 62 da revista L’ARC, em 1975, ambos inteiramente dedicados a Illich. Em Le Nouvel Observateur, Michel Bosquet (pseudônimo de André Gorz) vulgariza, discute e populariza as teses de Illich, construindo sua obra original.
4 - Cf. “Needs”, de Ivan Illich, The Development Dictionary, publicado por Wolfgang Sachs, ed. Zed Books, Londres, 1992, p. 88 e s.
5 - Cf. “L’obsession de la pensée parfaite”, Le Monde Diplomatqiue, março de 1999, p. 28.
FONTE : http://diplo.uol.com.br/2003-01,a531.
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
EM 1999 COLÓQUIO CELEBROU OS 50 ANOS DE "O SEGUNDO SEXO" LIVRO DE SIMONE DE BEAUVOIR
(publicado em 23/01/1999)
MARIANA SGARIONI
De Paris
Começou na última terça-feira, em Paris, um colóquio internacional para celebrar os 50 anos do livro "O Segundo Sexo", obra da romancista e ensaísta francesa Simone de Beauvoir sobre a condição das mulheres na sociedade. O trabalho provocou polêmica quando foi lançado, em 1949.
O colóquio, que deve reunir até hoje cerca de 130 intelectuais e estudantes de todo o mundo, é organizado pela socióloga Christine Delphy e pela historiadora Sylvie Chaperon, especialista no conjunto da obra da ensaísta francesa.
"O Segundo Sexo" foi uma das principais bases para o feminismo contemporâneo, movimento do qual Beauvoir participou intensamente. A frase "Nós não nascemos mulher, e sim nos tornamos mulher" inspirou as gerações de mulheres que lutaram pela igualdade com os homens nos anos 70.
"Beauvoir ousou descrever sem eufemismo a sexualidade das mulheres. Ela falava em clitóris, vagina, menstruação e prazer feminino em plenos anos pós-Guerra", disse a historiadora Michelle Perrot ao jornal francês "Libération".
O ensaio, que mostrava de maneira filosófica a opressão das mulheres pelos homens partindo da sexualidade, acabou acarretando uma curiosa união: direita e esquerda francesa se aliaram para tentar demolir a obra.
Considerado por alguns um texto revolucionário e a bíblia do feminismo e, para outros, um livro abominável e degradante, não há dúvidas de que, até hoje, muitas mulheres tomam "O Segundo Sexo" como referência.
Simone de Beauvoir morreu em 1986 e tinha acabado de completar 40 anos de idade quando lançou o ensaio. Ela já tinha escrito dois outros romances de destaque: "O Convidado" (1943) e "O Sangue dos Outros" (1945).
A ensaísta foi companheira de Jean-Paul Sartre desde 1929 e suas obras expressam a filosofia existencialista que os dois partilhavam. Sua união com o intelectual fazia dela um personagem que despertava ou admiração, ou violentos ataques.
http://biblioteca.folha.com.br/1/23/1999012301.html.
A invenção do clitóris - "O ANATOMISTA" livro
A invenção do clitóris
'O Anatomista' narra como Mateo Colombo descobriu o pequeno órgão feminino
Se você tiver o projeto de ler só um livro neste inverno, leia, então, "O Anatomista", de Federico Andahazi (Ed. Relume-Dumará, excelente tradução de P. Wacht e A. Roitman). Gostou de "O Nome da Rosa", de Umberto Eco? Adorará "O Anatomista". Acha "O Nome da Rosa" um pouco devagar, comprido demais e prefere o filme? Melhor ainda: "O Anatomista" é leve, rápido, ágil.
O livro chega ao Brasil já famoso, ajudado por um escândalo. Ganhou na Argentina o prêmio Fortabat. A senhora Fortabat não gostou da decisão do júri, pagou o prêmio, mas recusou-se a associar seu nome ao romance. Certo, o texto tem momentos eróticos, e supõe um papa, no século 16, satisfeito em recuperar a saúde graças ao sangue de meninas degoladas. De qualquer forma, a reação fortabatiana produziu um eco da própria história contada no romance, no qual o anatomista lida com censura e inquisição. Andahazi virou, assim, matéria do "New York Times", pulou para a lista dos mais vendidos na Argentina e seu livro foi comprado pela editora Doubleday por US$ 200 mil _recorde para uma obra sul-americana de autor estreante. O cinema já se interessa.
Mas, enfim, qual é a história? Trata-se de Mateo Realdo Colombo, anatomista italiano da Renascença que publicou em Veneza, em 1559 _ano presumido de sua morte_, um tratado de anatomia: "De Re Anatomica" (como informação: em todas as bibliografias, ele aparece como Realdo e não Mateo). O livro teve numerosas edições e foi influente. Colombo (que não era parente do navegador) entrou para história por uma intuição sobre a circulação do sangue e pela descoberta do clitóris: "O órgão que governa o amor nas mulheres". Armado dos poucos dados biográficos, Andahazi inventa e conta esta extraordinária aventura do anatomista italiano.
Antes de mais nada, a própria idéia de que haja uma descoberta do clitóris pode parecer estranha: como é possível que ela seja tão recente? Ou mesmo que venha a ser uma descoberta? Será que as próprias mulheres não conheceriam desde sempre seu corpo?
(...)
LEIA NA ÍNTEGRA EM :
http://contardocalligaris.blogspot.com/1997/07/inveno-do-clitris.html.
sábado, 13 de dezembro de 2008
AINDA DA WIKIPÉDIA - CLITÓRIS
Origem do clitóris
Pesquisadores têm se dedicado a estudar as origens ontogenéticas dos órgãos sexuais masculinos e femininos, observando seu desenvolvimento desde o embrião até à puberdade. Os estudos apontaram uma homologia, ou seja, uma origem comum entre pênis e clitóris.
No início do desenvolvimento do embrião, suas células ainda indiferenciadas são influenciadas pelos hormônios maternos, direcionando o desenvolvimento do corpo dos embriões masculinos e femininos para uma forma feminina. Num estágio imediatamente anterior à diferenciação sexual, a região que se tornara a genitália externa apresenta os grandes lábios e a saída da uretra e o falo, ainda neste estado não há a entrada do canal vaginal, assim como o próprio canal vaginal. Somente quando as gônadas masculinas são formadas e começam a produzir testosterona é que o falo começa a se desenvolver e ocorre o processo de criação da uretra para dar origem ao órgão sexual masculino e os grandes lábios se fusionam para dar origem ao saco escrotal. Ou seja, é basicamente pela influência de um hormônio que existe diferenciação sexual entre homens e mulheres no início de seu desenvolvimento. Quando ocorre a diferenciação em gônadas femininas o falo não se desenvolve e há a criação do canal vaginal.(...)
LEIA NA ÍNTEGRA E VEJA ILUSTRAÇÕES EM:
O CLITÓRIS OU CLÍTORIS - DA WIKIPÉDIA
"MULTIMANIFESTO : ANTES QUE O MUNDO ACABE"
Inclusive este manifesto que aqui inicio, já encontrou outras manifestações com o mesmo nome!
Mas relevando os plágios,as cópias que abundam neste nosso novo mundo virtual que pode sim salvar o outro mundo!!... quero dizer que este multimanifesto foi eclodido por causa de um GRITO MUDO! http://criscro.blogspot.com/ LEIAM ESTE BLOG!! é formidável! como diria meu querido e falecido pai!
Declaro aqui,que por um não determinado tempo,este multimanifesto estará a se expandir por todos os blogs que mantenho,sem qualquer regra ou planejamento prévio e também qualquer prazo pré determinado, como o nome do multimanifesto diz : "ANTES QUE O MUNDO ACABE"
... sendo totalmente possível que nunca o mundo se acabe! este multimanifesto também poderá nunca se acabar! ou talvez ele custe mais a se acabar do que o próprio homem na face da terra!
pois como muitos cientistas já disseram, a humanidade se acabará e então o nosso planeta, que já não será mais nosso respirará aliviado e enfim poderá se regenerar das barbaridades cometidas por nós!
Meu inconsciente, nestes últimos tempos buscava uma forma de unir de maneira inteligente, o ecológico, o ciberespaço e minhas inquietações de alguma forma milaborante! Com a trombada que tive agora com o GRITO MUDO de Cristóvão, ALGUM MONSTRO TOSCO DE UM FILME B.. tive um clique, um clique boomerang,daqueles que nos atordoam e a gente corre pro teclado pra ver se encontra um remédio qualquer pra sair da pancada de uma forma virtuosa e digna!
E aqui está lançado o remédio para todos os males da humanidade! pelo menos da minha!
se a farinha é pouca, meu pirão primeiro!? então leiam primeiro o meu pirão! e aí joguem aqui
seus manifestos! seus nabos cozidos! além de seus besteróis, lógico!
Mas agora, falando sério! ANTES QUE O MUNDO ACABE!
Manifesto
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Na literatura, define-se Manifesto como um texto de natureza dissertativa e persuasiva, uma declaração pública de princípios e intenções, que objetiva alertar um problema ou fazer a denúncia pública de um problema que está ocorrendo, normalmente de cunho político. O manifesto destina-se a declarar um ponto de vista, denúnciar um problema ou conclamar uma comunidade para uma determinada ação. Estrutura relativamente livre, mas com alguns elementos indispensáveis: título, identificação e análise do problema, argumentos que fundamentam o ponto de vista do(s) autor(es) do manifesto, local, data, assinaturas dos autores e simpatizantes da causa.
LEIA MAIS EM:
Boa tarde! preciso ir refletir sobre a qualidade de meus besteróis! Sobre como escrever coisas tão vitais para mim! Nestas horas sempre lembro de um grande artista curitibano Hélio Leite,que sendo artista plástico,optou em ser um brincante também,e estar sempre em contato com o povo nas praças e feiras livres, para ganhar seu pão de cada dia! Um quase palhaço! um quase louco! UM GRANDE ARTISTA!!
WIKIPÉDIA E NADIA STABILE - 13/12/08
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
A Psicotopologia da Vida Cotidiana - PARTE DO CAPÍTULO TRES DO LIVRO TAZ - ZONA AUTONOMA TEMPORÁRIA DE HAKIM BEY
O CONCEITO DA TAZ surge inicialmente de uma crítica à revolução, e de uma análise do levante. A revolução classifica o levante como um "fracasso". Mas, para nós, um levante representa uma possibilidade muito mais interessante, do ponto de vista de uma psicologia de libertação, do que as "bem-sucedidas" revoluções burguesas, comunistas, fascistas etc.
Um outro elemento gerador do conceito da TAZ surge de um processo histórico que eu chamo de "fechamento do mapa". O último pedaço da Terra não reivindicado por uma nação-Estado foi devorado em 1899. O nosso século é o primeiro sem terra incógnita, sem fronteiras. Nacionalidade é o princípio mais importante do conceito de "governo" - nenhuma ponta de rocha no Mar do Sul pode ficar em aberto, nem um vale remoto, sequer a lua ou os planetas. Essa é a apoteose do "gangsterismo territorial". Nenhum centímetro quadrado da Terra está livre da polícia ou dos impostos... em teoria.
O "mapa" é uma malha política abstrata, uma proibição gigantesca imposta pela cenoura/cacetete condicionante do Estado "Especializado", até que para a maioria de nós o mapa se torne o território - não mais a "Ilha da Tartaruga (4)", mas os "Estados Unidos". E ainda assim o mapa continua sendo uma abstração, porque não pode cobrir a Terra com a precisão 1:1. Dentro das complexidades fractais da geografia atual, o mapa pode detectar apenas malhas dimensionais. Imensidões embutidas e escondidas escapam da fita métrica. O mapa não é exato, o mapa não pode ser exato.
A Revolução fechou-se, mas a possibilidade do levante está aberta. Por ora, concentramos nossas forças em "irrupções" temporárias, evitando enredamentos com "soluções permanentes".
O mapa está fechado, mas a zona autônoma está aberta. Metaforicamente, ela se desdobra por dentro das dimensões fractais invisíveis à cartografia do Controle. E aqui podemos apresentar o conceito de psicotopologia (e psicotopografia) como uma "ciência" alternativa àquela da pesquisa e criação de mapas e "imperialismo psíquico" do Estado. Apenas a psicotopografia é capaz de desenhar mapas da realidade em escala 1:1, porque apenas a mente humana tem a complexidade suficiente para modelar o real. Mas um mapa 1:1 não pode "controlar" seu território, porque é completamente idêntico a esse território. Ele pode ser usado apenas para sugerir ou, de certo modo, indicar através de gestos algumas características. Estamos à procura de "espaços" (geográficos, sociais, culturais, imaginários) com potencial de florescer como zonas autônomas - dos momentos em que estejam relativamente abertos, seja por negligência do Estado ou pelo fato de terem passado despercebidos pelos cartógrafos, ou por qualquer outra razão. A psicotopologia é a arte de submergir em busca de potenciais TAZs.
O fim da Revolução e o fechamento do mapa são, no entanto, apenas as fontes negativas da TAZ: ainda há muito a dizer sobre as suas inspirações positivas. Reação somente não pode gerar a energia necessária para "manifestar" uma TAZ. Um levante também precisa ser a favor de alguma coisa.
1. Em primeiro lugar, podemos falar de uma antropologia natural da TAZ. A família nuclear é a unidade base da sociedade de consenso, mas não da TAZ. ("Famílias! Os avaros do amor! Como eu as odeio!" - Gide.) A família nuclear, com suas consequentes "dores edipianas", parece ter sido uma invenção neolítica, uma resposta à "revolução agrícola" com sua escassez e hierarquia impostas. O modelo paleolítico é mais primário e mais radical: o bando. O típico bando nômade ou semi-nômade de caçadores/coletores é formado por cerca de cinquenta pessoas. Em sociedades tribais mais populosas, a estrutura de bando é mantida por clãs dentro da tribo, ou por confrarias como sociedades secretas ou iniciáticas, sociedades de caça ou de guerra, associações de gênero, as "repúblicas de crianças" e por aí adiante. Se a família nuclear é gerada pela escassez (e resulta em avareza), o bando é gerado pela abundância (e produz prodigalidade). A família é fechada, geneticamente, pela posse masculina sobre as mulheres e crianças, pela totalidade hierárquica da sociedade agrícola/industrial. Por outro lado, o bando é aberto - não para todos, é claro, mas para um grupo que divide afinidades, os iniciados que juram sobre um laço de amor. O bando não pertence a uma hierarquia maior, ele é parte de um padrão horizontalizado de costumes, parentescos, contratos e alianças, afinidades espirituais etc. (A sociedade dos índios norte-americanos preserva até hoje certos aspectos dessa estrutura.)
Muitas forças estão trabalhando - de forma invisível - para dissolver a família nuclear e resgatar o bando em nossa própria sociedade da Simulação pós-Espetacular. Rupturas na estrutura do trabalho refletem a "estabilidade" estilhaçada da unidade-lar e da unidade-família. Hoje em dia, o "bando" de alguém inclui amigos, ex-esposos e amantes, pessoas conhecidas em diferentes empregos e encontros, grupos de afinidade, redes de pessoas com interesses específicos, listas de discussão etc. Cada vez mais fica evidente que a família nuclear se torna uma armadilha, um ralo cultural, uma secreta implosão neurótica de átomos rompidos. E a contra-estratégia óbvia emerge de forma espontânea na quase inconsciente redescoberta da possibilidade - mais arcaica e, no entanto, mais pós-industrial - do bando.(...)
LEIA O LIVRO TODO EM:
http://www.rizoma.net/interna.php?id=193&secao=intervencao
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Novembro 12, 2008
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Trechos retirados de: LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Tradução Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34.
DAS MULTIDÕES
“Como dar às multidões ilegítimas uma representação, uma linhagem, um estado civil? Como explorar esta terra incógnita que, entretanto, nos é tão familiar? Como ir do mundo dos objetos ou dos sujeitos àquilo que chamei de quase-objeto ou quase-sujeitos? Como passar da natureza transcendente/imanente a esta natureza, igualmente real, mas extraída do laboratório e depois transformada em realidade exterior? Como deslizar da sociedade imanente/transcendente rumo aos coletivos humanos e de não-humanos? (…) Como atingir as redes, estes seres de topologia tão curiosa e de ontologia ainda mais estranha, nos quais residem as capacidades de conectar e de separar, ou seja, de produzir o espaço e o tempo? Como pensar o Império do Centro? Já disse, precisamos traçar ao mesmo tempo a dimensão moderna e a dimensão não moderna, desdobrar a latitude e a longitude que irão permitir o traçado de mapas adaptados ao trabalho de mediação e purificação.” [página 76].
“Ocorre, com as grandes massas da natureza e da sociedade, o mesmo que ocorre com os continentes resfriados na tectônica das placas. Se desejamos compreender seu movimento, precisamos descer nessas fendas em chamas onde o magma irrompe e a partir do qual serão produzidas, muito mais tarde e mais longe, por resfriamento e empilhamento progressivo, as duas placas continentais sobre as quais nossos pés estão firmemente fixados. Nós também devemos descer e aproximar-nos desses lugares onde são criados os mistos que irão tornar-se, muito mais tarde, coisas naturais ou sociais.” [página 86]
DO IMPÉRIO DO MEIO
“Se estamos tentando desdobrar o Império do Meio em si, somos obrigados a inverter a forma geral das explicações. O ponto de clivagem e encontro torna-se o ponto de partida. As explicações não partem mais das formas puras em direção aos fenômenos, mas sim do centro em direção aos extremos. Estes últimos não são mais o ponto de apoio da realidade, mas sim resultados provisórios e parciais. As camadas dos intermediários são substituídas por cadeias de mediadores, de acordo com o modelo proposto por Antoine Hennion, que serve como base para este ensaio (Hennion, 1991). (…) O que mostra o quanto o sentido da palavra mediação difere do sentido de intermediário ou de mediador - definido como aquilo que difunde ou desloca um trabalho de produção ou de criação que dele escaparia (Debray, 1991).” [página 77].
“(…) este deslizamento dos extremos rumo ao centro e para baixo, que faz girar tanto o objeto quanto o sujeito em torno da prática dos quase-objetos e dos mediadores. Não precisamos apoiar nossas explicações nestas duas formas puras, o objeto ou o sujeito-sociedade, já que elas são, ao contrário, resultados parciais e purificados da prática central, a única que nos interessa. São produto do craking purificador, e não sua matéria-prima. A natureza gira, de fato, mas não ao redor do sujeito-sociedade. Ela gira em torno do coletivo produtor de coisas e de homens. O sujeito gira, de fato, mas não em torno da natureza. Ele é obtido a partir do coletivo produtor de homens e de coisas. O Império do Centro se encontra, enfim, representado. As naturezas e sociedades são os seus satélites.” [página 78].
“Natureza e sociedade não são mais os termos explicativos, mas sim aquilo que requer uma explicação conjunta Latour (1989).
SOBRE MODERNIDADE
“Os modernos desenvolveram quatro repertórios diferentes, que acreditavam ser incompatíveis, para acomodar a proliferação dos quase-objetos. O primeiro repertório trata da realidade exterior de uma natureza da qual não somos mestres, que existe fora de nós e que não conta nem com nossas paixões nem com nosso desejo, ainda que sejamos capazes de mobilizá-la e de construí-la. O segundo repertório trata do laço social, daquilo que liga os humanos entre si, das paixões e desejos que nos agitam, das forças personificadas que estruturam a sociedade - a qual nos ultrapassa, ainda que seja construída por nós. O terceiro trata da significação e do sentido, dos actantes que compõem as histórias que contamos uns aos outros, das provas que eles enfrentam, das aventuras que atravessam, dos tropos e dos gêneros que os organizam, das grandes narrativas que nos dominam infinitamente, ainda que sejam simultaneamente texto e discurso. O quarto, enfim, fala do ‘Ser’, e desconstrói aquilo de que nos esquecemos quando nos preocupamos apenas com o entre, ainda que a diferença do Ser esteja distribuída pelos entes, co-extensivos à sua própria existência.
Estes recursos só são incompatíveis na versão oficial da Constituição. Na prática, é difícil distinguir os quatro. Misturamos, sem o menor pudor, nossos desejos com as coisas, o sentido com o social, o coletivo com as narrativas. A partir do momento em que seguimos de perto qualquer quase-objeto, este nos parece algumas vezes como coisa, outras como narrativa, outras ainda como laço social, sem nunca reduzir-se a um simples ente.” [página 87].
“Nada prova que estes recursos continuem a ser incompatíveis quando passamos das essências aos acontecimentos, da purificação à mediação, da dimensão moderna à dimensão não moderna, da revolução à contra-revolução copernicana. Vamos dizer apenas que os quase-objetos quase-sujeitos traçam redes. São reais, bem reais, e nós humanos não os criamos. Mas são coletivos, uma vez que nos ligam uns aos outros, que circulam por nossas mãos e nos definem por sua própria circulação. São discursivos, portanto, narrados, históricos, dotados de sentimento e povoados de actantes com formas autônomas. São instáveis e arriscados, existenciais e portadores de ser. Esta ligação dos quatro repertórios nos permite construir uma morada vasta o bastante para que nela abriguemos o Império do Centro, a verdadeira morada comum do mundo não moderno e, ao mesmo tempo, de sua Constituição. [página 88].
DOS INTERMEDIÁRIOS AOS MEDIADORES
“Em seguida, através da multiplicação dos intermediários, deveríamos aproximar aquilo que separamos. Verbos revelar, representar, materializar, compreensão, interpretação, aceitação…
“A sociedade sempre foi composta pelos mesmos recursos, mesmos interesses, mesmas paixões. Na perspectiva moderna, a natureza e a sociedade permitam a explicação porque elas, em si, não precisam ser explicadas. Existem, é claro, os intermediários cujo papel é justamente o de criar uma ligação entre as duas, mas estes só podem criar as ligações porque, justamente, não possuem qualquer dignidade ontológica. Nada fazem além de transportar, veicular, deslocar a potência dos dois únicos seres reais, natureza e sociedade. Claro, podem transportar mal, podem ser infiéis ou obtusos. Mas esta falta de fidelidade não lhes dá nenhuma importância própria, uma vez que é ela quem prova, pelo contrário, seu estatudo de intremediário. Eles não possuem competência original. Na pior das hipóteses, são bestas ou escravos, e na melhor, servidores leais.” [página 79].
“Tornam-se mediadores, ou seja atores dotados da capacidade de traduzir aquilo que eles transportam, de redefini-lo, desdobrá-lo, e também traí-lo. Os servos tornaram-se cidadãos livres.” [página 80].
“A ontologia dos mediadores, portanto, possui uma geometria variável. O que Sartre dizia dos humanos, que sua existência precede sua essência, é válido para todos os actantes, a elasticidade do ar, a sociedade, a matéria e a consciência. (…) A essência do vácuo é a trajetória que liga todas elas. [página 84]
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quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Por que a economia colonial e imperial baseou-se no trabalho escravo? E A HISTÓRIA E A CULTURA AFRO-BRASILEIRA NA ESCOLA
era inviável a utilização de portugueses assalariados, já que a intenção não era vir para trabalhar, e sim para se enriquecer no brasil.
o sistema capitalista nascente não tinha como pagar salários para milhares de trabalhadores, além do que, a população portuguesa que não chegava aos 3 milhões, era considerada reduzida para oferecer assalariados em grande quantidade.
quem foi utilizado como escravo nos períodos colonial e imperial?
embora o índio tenha sido um elemento importante para formação da colônia, o negro logo o suplantou, sendo sua mão-de-obra considerada a principal base, sobre a qual se desenvolveu a sociedade colonial brasileira.
na fase inicial da lavoura canavieira ainda predominava o trabalho escravo indígena. parece-nos então que argumentos tão amplamente utilizados, como inaptidão do índio brasileiro ao trabalho agrícola e sua indolência caem por terra.
a história verdadeira mostra que a reação do nativo foi tão marcante, que tornou-se uma ameaça perigosa para certas capitanias como espírito santo e maranhão. além da luta armada, os indígenas reagiram de outras maneiras, ocorrendo fugas, alcoolismo e homicídios como forma de reação à violência estabelecida pelo escravismo colonial. todas essas formas de reação dificultavam a organização da economia colonial, podendo assim, comprometer os interesses mercantilistas da metrópole, voltados para acumulação de capital. destaca-se também, a posição dos jesuítas, que voltados para catequese do índio, opunham-se à sua escravidão.
apesar de todos esses obstáculos, o indígena é amplamente escravizado, permanecendo como mão-de-obra básica na economia extrativista do norte do brasil, mesmo após o término do período colonial.
por que então que o índio cede lugar para o negro como escravo no brasil?
a maior utilização do negro como mão-de-obra escrava básica na economia colonial, deve-se principalmente ao tráfico negreiro, atividade altamente rentável, tornando-se uma das principais fontes de acumulação de capitais para metrópole.
exatamente o contrário ocorria com a escravidão indígena, já que os lucros com o comércio dos nativos não chegava até a metrópole.
torna-se claro assim, o ponto de vista defendido pelo historiador fernando novais, de que "o tráfico explica a escravidão", e não o contrário.
para os portugueses, o tráfico negreiro não era novidade, pois desde meados do século xv , o comércio de escravos era regular em portugal, sendo que durante o reinado de d. joão ii o tráfico negreiro foi institucionalizado com a ação direta do estado português, que cobrava taxas e limitava a participação de particulares.
quanto à procedência étnica do negro, destacaram-se dois grupos importantes: os bantos, capturados na África equatorial e tropical provenientes do congo, guiné e angola, e os sudaneses, vindos da África ocidental, sudão e norte da guiné.
interessante observarmos que entre os elementos deste segundo grupo, destacavam-se muitos negros islamizados, responsáveis posteriormente por uma rebelião de escravos ocorrida na bahia em 1835, conhecida como a revolta dos malês.
a resistência
do negro: os quilombos.
desde fugas isoladas, passando pelo suicídio, pelo banzo (nostalgia que fazia o negro cair em profunda depressão o levando à morte) e pelos quilombos, várias foram as formas de resistência do negro à escravidão, sendo a formação dos quilombos a mais conseqüente.
os quilombos eram aldeamentos de negros que fugiam dos latifúndios, passando a viver comunitariamente. o maior e mais duradouro foi o quilombo dos palmares, surgido em 1630 em alagoas, estendendo-se numa área de 27 mil quilômetros quadrados até pernambuco. desenvolveu-se através do artesanato e do cultivo do milho, feijão, mandioca, banana e cana-de-açúcar, além do comércio com aldeias vizinhas.
seu primeiro líder foi ganga zumba, substituído depois de morto por seu sobrinho zumbi, que tornou-se a principal liderança da história de palmares. zumbi foi covardemente assassinado em 1695 pelo bandeirante domingos jorge velho, contratado por latifundiários da região.
apesar dos muitos negros mortos em palmaras, a quantidade de escravos crescia muito e em 1681 atingia a cifra de 1 milhão de negros trazidos somente de angola.
o grande número de negros utilizado como escravos, deixa clara a alta lucratividade do tráfico negreiro, responsável inicialmente pelo abastecimento da lavoura canavieira em expansão nos séculos xvi e xvii e posteriormente nas áreas de mineração e da lavoura cafeeira nos séculos xviii e xix respectivamente.
A história e cultura
afro-brasileira na escola
A lei nº 10.639, de 2003, ou a ldb e passou a exigir que as escolas brasileiras de ensino fundamental e médio incluíssem no currículo o ensino da história e cultura afro-brasileira. o fato foi considerado pelos movimentos de luta dos negros em todo o país como um importante passo.
sua aplicação prática, no entanto, ainda é desafio para toda a comunidade escolar, especialmente para os professores: como sair da teoria? como e onde buscar material, isto é um grande desafio a ser cumprido.
História x Autalidades
Infelizmente, ainda a população “negra” no brasil, ocupa na área empregatícia, ocupa a posição de peão ou chão de fábrica, por não ter as mesmas oportunidades de crescimento que a grande parte da população “branca” tem. isto tudo é um reflexo de mais de 500 anos de história, onde o preconceito ainda está presente em piadinhas sem graça e que só desmoralizam um ser humano igual a tantos outros.
A exclusão existente no mundo do trabalho também se dá no sistema educacional. dos 28.234.039 estudantes do ensino fundamental, 52,0% são brancos, 43,1% são pardos e 4,5%, pretos. no ensino médio, que tem 3.760.935 alunos, as proporções correspondentes são 65,3%, 30,1% e 3,3%, para brancos, pardos e pretos, respectivamente, e, cursando o ensino superior, existem 1.665.982 estudantes, sendo 78,6% deles brancos, 17,4% de pardos e 1,4% de pretos (fonte: anuário estatístico do brasil 1992, rio de janeiro: ibge, v. 52, 1992. disponível em www.ibge.gov.br em "estatísticas do século xx", tema "educação")
http://www.hploco.com/ims/Historia_e_Atualidades_da_Cultura_Afro-Brasileira.html.
FONTE: INSTITUTO AFRO-BRASILEIRO DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL MILTON SANTOS
terça-feira, 4 de novembro de 2008
SARAU!!! COISA DE INTELECTUAIS!?
o havia surpreendido por considerar que Saraus geralmente são feitos e compostos por uma quase elite intelectual! O que pensei sobre isto foi,que não é assim, pode até estar sendo assim na maioria das reuniões que ocorrem para se trocar poesias ou até músicas!...
Aqui na área mais central da cidade de São Paulo, até poderia ser assim como este amigo afirmou!
Mas neste blog...é tão óbvio para mim,que de verdade este SARAU da blogosfera, pode sim ser de todos! e seria extraordinário se resgatássemos aqueles antigos costumes paulistanos, que minha própria mãe,filha de imigrantes italianos, vivenciou em sua quase adolescência!
Seus tios e vizinhos reuniam-se na casa de meu avô e tocavam, cantavam, declamavam poesias!
Quase meio século depois estava eu participando de uma banda de barracão! (não era de garagem, só porque o local ficava no fundo do quintal da casa!)
Nestas reuniões culturais,é onde as pessoas trocam! onde conversam! onde iniciam suas caminhadas para um verdadeira cidadania! Sem nossa cultura local, nos sentimos pessoas sem braços, sem pernas e sem voz! E participando destas reuniões,é que podemos perceber que possuímos cabeça! que temos uma alma! que temos dois pés que pisam o mesmo solo de outras tantas pessoas,que poderão sentir coisas semelhantes ao que sentimos!! esta é a verdadeira identificação de um povo! sem ela...dificilmente descobriremos porque somos seres letrados! que ESCREVEM!! e que LÊEM O QUE OUTROS ESCREVEM!! a palavra nos une! e é nela que nos enxergamos civilizados,HUMANOS!
Por tanto sejam hiper BEM VINDOS AO NOSSO SARAU!!
Convido a quem quiser ser colaborador oficial ou sem oficialidades!!(risos)
A estarem totalmente à vontade!! A CASA É NOSSA!!!
abraços a todos!
NADIA STABILE - 04/11/08
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
domingo, 28 de setembro de 2008
MODOLINKAR: DO BLOG VIVA BABEL - LOURENÇO DIAFÉRIA FALECEU NO DIA 16/09/2008, ESTE TEXTO DELE FOI ESCRITO EM 1977...(clique aqui e leia na íntegra)
LOURENÇO DIAFÉRIA
"Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.
Que nome devo dar a esse homem?
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.
O herói redime a humanidade à deriva.
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.
Está morto.
Um belíssimo sargento morto.
E todavia.
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.
O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.
No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.
Esse sargento não é do grupo do cambalacho.
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.
É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais.
FONTE: http://vivababel.blogspot.com/2008/09/heri-morto-ns.html
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
HIPERLIGAÇÃO COM O BLOG "Viva Babel!": SERTÃO (clique aqui)
Elizabeth,bom dia! extraordinária esta poesia! copiei a postagem e colei-a no blog novo Sarau Para Todos
http://sarauxyz.blogspot.com
Queria te dizer que este mecanismo de hiperligação é bem interessante e muito pouca gente o conhece!
Outra coisa que gostaria de dizer,é sobre as imagens postadas em blogs ou sites! geralmente não vemos os créditos das fotos!
e confesso,sou uma das que quase nunca coloca tais créditos! porque é bem complicado encontrar os autores das fotos,ainda mais quando se posta trilhões de fotos como eu! Acredito que os profissionais da área possam ficar doidos com isso! mas talvez relevem por constatarem que uso as fotos com a melhor das intenções! Abração e te agradeço por esta belíssima poesia e fotografia!
Nadia Stabile - 26/09/08


































