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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

QUILOMBOLAS VENCEM RIXA COM AGÊNCIA ESPACIAL BRASILEIRA - POR MAURÍCIO WALDMAN

Maurício Waldman
21 de janeiro de 2009 13:53

Uma disputa entre tradição secular e alta tecnologia terminou com vitória da primeira. As comunidades tradicionais quilombolas do município de Alcântara, Maranhão, venceram uma querela judicial por terras travada com a AEB - Agência Espacial Brasileira.

Alcântara, MA - A AEB havia instalado, em 1983, uma base de lançamento de foguetes na área. Os povos descendentes de quilombolas foram formados por escravos fugidos na época da escravidão e, de acordo com os moradores do local, instalados na região há mais de três séculos.

O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) publicou, em 4 de novembro de 2008, um documento que reconhece as comunidades e determina que 78,1 mil hectares da região pertencem aos descendentes de quilombolas por direito. Pela decisão, o Centro de Lançamento de Alcântara da AEB fica com 9,3 mil hectares, dos 14 mil pretendidos pela agência. A resolução tem um prazo de 90 dias, a partir da data de publicação, para ser contestada.

Na década de 1980, cerca de 300 famílias descendentes de quilombolas foram retiradas do local onde viviam e instaladas em agrovilas próximas dali, para que o centro de lançamento pudesse ser instalado em 1983. Em 1991, a área destinada à base de lançamento chegou a ser de 62 mil hectares. Os 9 mil hectares que agora a AEB tem direito correspondem a um espaço já utilizado pela base de lançamento.

Hoje, vivem na região cerca de 15 mil descendentes de quilombolas em 106 comunidades, o que significa mais de 70% da população total de Alcântara. Já os 78 mil hectares demarcados correspondem a 52% do território da cidade, que é de 148.300 hectares, apenas 4 mil hectares menor do que o município de São Paulo. As principais atividades das comunidades são a agricultura familiar — principalmente o cultivo de feijão, mandioca e milho —, a pesca e o artesanato.

O presidente da AEB, Carlos Ganem, questiona a decisão do Incra, afirmando que a área pretendida é apenas 5 mil hectares a mais que o determinado e que, em razão dessa diferença, talvez seja preciso instalar bases de lançamento em outros locais do país. “É o melhor lugar do planeta para lançar foguetes. Pela posição estratégica, exige menos combustível, e é próximo ao mar, evitando acidentes. Não utilizar isso é desprezar a oportunidade que temos em mãos. Um programa espacial é um programa de inclusão econômica e ambiental. É importante para a observação, a coleta de dados, a meteorologia, a prevenção de catástrofes como a de Santa Catarina , o controle do tráfego aéreo e a navegação”, defende Ganem.

Para o Incra, a decisão garante que a agência não ampliará a área ocupada pelo centro de lançamento. “A vitória é que eles (a AEB) tinham um projeto bem maior do que isso, que causaria a necessidade de deslocamento de famílias. Com essa decisão, essa possibilidade não existe mais”, afirma a coordenadora geral de registro de territórios quilombolas do instituto, Givânia Maria da Silva.

Além da garantia do território, o subsecretário de políticas para comunidades tradicionais da SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), Alexandro Reis, acrescenta que a demarcação “trará maior dignidade às comunidades e direito a crédito no sistema público ou privado”. “Eles não viverão mais sob a ameaça de que aquelas terras em viram seus filhos nascerem, nas quais viveram seus pais, nas quais eles plantaram, não são suas, vamos saldar uma dívida histórica do país com estas comunidades.”

As comunidades, segundo Reis, já têm acesso a serviços do governo nas áreas de educação (para reforma e construção de escolas), saúde (direcionados ao acesso a saneamento e água, além de atendimento médico básico) e desenvolvimento econômico. “Agora, a previsão é de instalar um centro de referência quilombola, que funcionaria como um polo que articula as políticas públicas dos quilombolas, junto com inclusão digital”, afirma.

Nachriten Zeitung/Central de Notícias Deutsche Welle - A Voz da Alemanha, BrasilAlemanha/Neues (21-02-2009).



Prof. Dr. Mauricio Waldman

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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

"I have a dream" (Eu tenho um sonho) - Discurso memorável de Marthin Luther King

O filme “Escritores da Liberdade” e a função do pensamento em Hannah Arendt


por Raymundo de Lima

... Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!... Martin Luther King – fragmento do memorável discurso "I Have a Dream", de 28/08/1963.



Todos somos atores de nossa vida, mas nem sempre podemos ter sua autoria. O pensar [e o escrever] favorece a autoria da existência. Dulce Critelli, 2006.



Há muitos filmes americanos sobre escola, mas não como "Escritores da Liberdade". (Freedom Writers, EUA, 2007). Porque é o único filme dessa categoria que incentiva os alunos a lerem literatura, ponto de partida para testar a vocação de cada um para escrever dede um diário sobre o cotidiano trágico de suas vidas até uma poesia hip hop ou um livro de ficção. O valor desse filme também está na ousadia da linguagem cinematográfica mostrando os problemas psico-sócio-culturais que atingem a escola contemporânea; também porque ele dá visibilidade à diversidade dos grupos, com seu rígido código de honra, cada um no seu território, o narcisismo da recusa e da intolerância para com “os outros”, o boicote às aulas, a prontidão para aumentar os índices de violência entre os jovens e transformar a escola no seu avesso, isto é, uma comunidade bem próxima da barbárie, o que de fato vai acontecer em 1992, em Los Angeles, EUA.

O filme é baseado na história real de Erin (interpretada por Hilary Swank[1]), uma professora novata interessada em lecionar Língua Inglesa e Literatura para uma turma de adolescentes resistentes ao ensino convencional; alguns estão ali cumprindo pena judicial, e todos são reféns das gangues avessas ao convívio pacífico com os diferentes.

Como em outros filmes sobre turmas problemáticas, a professora Erin toma sua tarefa como um grande desafio: educar e civilizar aquela turma esquizofrênizada e estigmatizada como “os sem-futuro” pelos demais professores. Percebe que seu trabalho deve ir para além da sala de aula, por exemplo, visitando o museu do holocausto, possibilitando aos jovens saber os efeitos traumáticos da ideologia da “grande gangue” nazista, que provocou a 2ª. Guerra Mundial e o holocausto, e também reconhecer as semelhanças com suas “pequenas gangues” da escola. Nota: a palavra “holocausto”[2], referida no filme, é usada mais pelos judeus. E, “genocídio”[3] é o termo cunhado pelo Direito Internacional do pós Guerra. Ambas significam o ato racional de eliminação de seres humanos em escala inimaginável (conferir nota de rodapé).

O método da jovem professora consistiu em entregar para cada aluno um caderno para que escrevessem, diariamente, sobre aspectos de suas próprias vidas, desde conflitos internos até problemas familiares e sociais. Também, instigou-os a ler livros como "O Diário de Anne Frank" com o propósito de despertar alguma identificação e empatia, ainda que os personagens vivam em épocas diferentes; a partir de eventuais encontros imaginários cada aluno poderia desenvolver uma atitude especial de tolerância para com o “outro”. Na vida real, os diários foram reunidos em um livro publicado nos Estados Unidos, em 1999, e terminaram inspirando o diretor Richard LaGravenese para fazer esse filme.

Formada em Direito, Erin se torna professora, desagradando seu pai e marido. No início, ela demonstra ingenuidade, timidez, curiosidade e determinação; sua vocação para o magistério vai se construindo conforme os desafios que ela encontra entre os alunos e ao lidar com a burocracia e o conservadorismo dos funcionários do sistema pedagógico da escola. Os judeus nova-iorquinos diriam que o diferencial de Erin é ela ter “chutzpah”: ousadia, garra, determinação, toma iniciativa, ir-à-luta. Os diversos obstáculos próprios de qualquer sistema escolar faz com que ela se sinta desafiada a fazer algo-mais.

Seu estilo não é teatral, tal como os professores protagonistas dos filmes “O triunfo”, “Sociedade dos poetas mortos”, “Escola da vida”. Também não é autoritária como “Meu mestre, minha vida”, e nem experimentalista como é o professor Ross, do filme “A onda”. Seu estilo pedagógico está para o ensaísmo apaixonado, romântico, humanista, mas sem perder de vista a racionalidade do propósito educativo. Primeiro, ela tenta “dar aula” segundo manda o modelo tradicional, que não funciona com alunos indiferentes ao propósito da escola eminentemente ensinante. Uma aluna questiona pra que serve aprender tal conteúdo abstrato considerado inútil para melhorar sua vida real; outro dirá que o fato de ela ser professora “branca” não é suficiente para ele respeitá-la. Cabe à professora ter argumentos consistentes que respondam essas questões imprescindíveis na escola contemporânea. No segundo momento, Erin faz o reconhecimento dos grupos de iguais (narcísicos), e, obviamente sente empatia com os excluídos. Terceiro, devolve aos alunos esse reconhecimento com um pensamento crítico, fazendo-os reconhecer, sentir e pensar sobre a realidade criada por eles próprios. Quarto, não os aceita na condição de vítimas reativas, e cobra-lhes responsabilidade por suas escolhas e seus atos de exclusão para com os diferentes. Ou seja, sua ação pedagógica é inovadora porque desperta a motivação dos alunos para expressar seus sentimentos, ler, pensar, escrever, e mudar a partir do reconhecimento como sujeito-de-sua-história.

Na concepção de Hannah Arendt, duas causas podem ter relação profunda com a crise da educação em nossa época: a incapacidade de a escola levar os alunos para pensar e a perda da autoridade dos pais e professores. Ambas fazem com que as crianças e adolescentes fiquem sujeitos à tirania de uma maioria qualquer (grupo social, tribos, gangs) e de um líder carismático ou populista. Portanto, o ato educativo de Erin é ao mesmo tempo político e ético, porque visa transformar alunos “não-pensantes”, “incivilizados”, “não-humanizados”, em seres humanos que podem exercitar o pensamento crítico sobre a realidade e seus atos; suas propostas de dinâmicas com os grupos leva-os a rememorar situações e rever suas posições na história de cada um, podendo até criar em cada aluno uma nova ética que melhor orienta seus gestos e palavras para evitar magoar o seu próximo. As dinâmicas e debates em sala de aula desmarcaram o recorrente discurso vitimista desses grupos, que tendem ao comodismo da sua desgraça, e ao mesmo tempo projeta no outro a responsabilidade pela sua própria irresponsabilidade ou fracasso como sujeito-cidadão no meio social. É preciso que cada qual se responsabilize e se comprometa “fazer sua parte”, ou como diz a velhinha que abrigou Anne Frank: “fazer a coisa certa” ou ética, como uma pessoa comum, anônima, e representante do que é ser civilizado.

Uma educação que não exercita o ato de pensar, com todos os seus riscos, além da própria ausência de pensamento, tem como efeito o não comprometimento, o não tomar decisões, ou não se responsabilizar por elas. “A tarefa fundamental do pensar é descongelar as definições que vão sendo produzidas, inclusive pelo conhecimento e pela compreensão e que vão sendo cristalizados na história. A tarefa do pensar é abrir o que os conceitos sintetizam, é permitir que aquilo que ficou preso nos limites da sua própria definição seja liberado. É livrar o sentido e o significado dos acontecimentos e das coisas da camisa-de-força dos conceitos” (CRITELLI, 2006, p. 80). (...) LEIA NA ÍNTEGRA EM :
http://www.espacoacademico.com.br/082/82lima.htm

Filme: Escritores da liberdade (Original: Freedom Writers) País: EUA/Alemanha - Gênero: drama. Classificação: 14 anos. Duração: 123 min. Ano: 2007. Direção: Richard LaGravenese . Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Hilary Swank, Patrick Dempsey, Scott Glenn, Imelda Staunton, April Lee Hernandez, Mario, Kristin Herrera, Jacklyn Ngan, Sergio Montalvo, Jason Finn, Deance Wyatt, Vanetta Smith, Gabriel Chavarria, Hunter Parrish, Antonio Garcia.

Sinopse: Hilary Swank é uma professora novata que tenta inspirar seus alunos problemáticos a aprender algo mais sobre tolerância, valorizar a si mesmos, investir em seus sonhos e dar continuidade a seus estudos além da escola básica. Também ela é ousada ao enfrentar os grupos formadores de gangs em sala de aula, levando-os a pensar sobre a formação e ideologia dos próprios.

domingo, 23 de novembro de 2008

"MILTON SANTOS" e a "globalitarização"

"(...)Na medida em que os homens “lentos” se tornarem mais conscientes de seu poder de “emperrar” o sistema não se atrelando “ao consumo desmedido” e resistindo aos “modismos globais” eles terão mais força no cenário global. Na mesma medida o professor aponta para a classe média. As novas técnicas de comunicação (o meio técnico científico informacional) são poderosas, mas não são apenas subservientes ao grande capital. Elas também podem ser usadas, se devidamente compreendidas (uma compreensão sistêmica) por todos os que buscam criar novos sistemas mais solidários. A tomada de consciência de seu poder é o primeiro passo para a autonomia da globalitarização e o passo seguinte é:
“O passo seguinte é a obtenção de uma visão sistêmica, isto é, a possibilidade de enxergar as situações e as causas atuantes como conjuntos e localiza-los como um todo, mostrando sua interdependência”(...) (Santos, 2001, p. 169).

LEIA NA ÍNTEGRA EM :
Milton Santos: Resenha do livro Por uma Outra Globalização

http://ubiratangeo.blogspot.com/2008/06/milton-santos-resenha-do-livro-por-uma.html

"MILTON SANTOS" - O EXTRAORDINÁRIO DOCUMENTÁRIO DE SILVIO TENDLER!! (assisti parte dele na TV BRASIL . MILTON SANTOS NOS FAZ MUITA FALTA!)

Sábado, 20 de Setembro de 2008

o mundo global visto do lado de cá
Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá - Silvio Tendler

O documentário inicia-se com uma demonstração de esperança de Sartre diante da injustiça e desigualdade, publicada no prefácio do livro Condenados da Terra, de Franz Fanon. Inegavelmente, do começo ao fim, o filme me fez refletir e tomar notas constantemente sobre as idéias lançadas, que são de uma pertinência nítida e que muito ajudam a esclarecer a realidade em que estamos inseridos.

"O consumo hoje que é o grande fundamentalismo”. São valores introjetados tão esmagadoramente em nossa mente, como o consumismo, que correm o risco de não serem questionados. Milton fala sobre sua condição de intelectual, este ser mesmo que não pode se abster de refletir criticamente, e de como é difícil o ser, no Brasil, pela pouca vontade das pessoas, em geral, em ouvir uma palavra crítica sobre o mundo.

O dado fala por si: 500 mais ricos detêm mais riqueza que os 416 milhões mais pobres. Diante disso, Milton Santos configura a existência de três mundos: o mundo como nos fazem ver - a globalização como fábula; o mundo tal como é - a globalização como perversidade; e o mundo como pode ser - uma outra globalização, o mundo da dignidade humana.

O Consenso de Washington entra como comprovação da perversidade do “globalitarismo” - a globalização estabelecida pelo autoritarismo - ao propor uma bula de como se chegar ao desenvolvimento, (austeridade fiscal, aumento de impostos, juros altos para atrair investimentos estrangeiros, privatizações, defesa da capacidade dos setores privados em oposição à ineficiência dos públicos) que trata unicamente da crise financeira em detrimento da situação social e cultural de um país.

Vários exemplos de manifestação popular na América Latina são citados, deixando evidente o completo fiasco que foi esse programa:

* Quito, Equador, 2000. Numa população de 95% de índios e mestiços, o movimento popular revolta-se e derruba o presidente.

* Cochabamba, Bolívia, 2000. Uma população de 70% de índios e mestiços revolta-se contra a privatização da água feita pelo presidente pressionado pelo FMI e Banco Mundial para defender os interesses da multinacional Bechtel. Ressalta-se Oscar Oliveira - líder sindical boliviano.

* La Paz, Bolívia. 2003. Luta pela nacionalização do gás e petróleo.

* Buenos Aires, Argentina. 2001. Panelaço do povo derrubou três presidentes em duas semanas. A classe média sofre com a desvalorização da moeda.

* Brasil, 1997. Privatização de grandes empresas, como a Vale do Rio Doce. Manifestações populares foram dissolvidas.

Embora haja um mito positivo sobre globalização de culturas, o nascimento de crenças e vontades globais, é um equívoco pensar que o Estado nacional, este que representa os interesses particulares de uma nação, perdeu sua relevância. É inegável que os Estados Unidos permanecem sólidos na defesa de sua visão de mundo e de seus interesses internacionalmente. Preciso que se diga também que este processo de mundialização também é eficiente em criar fronteiras, quando é conveniente; como são os casos da fronteira dos EUA-México e Melita, um território espanhol em continente africano cercado por muralhas.

A globalização aflorou a divisão internacional do trabalho, aproveitando-se de possíveis facilidades de exploração de mão de obra em países pobres, contribuiu para o fortalecimento das desigualdades. Mostram-se cenas do filme Corporação, que é uma boa referencia no entendimento de como as grandes empresas se comportam a fim de obter lucro.

Achei bem-adequada a divisão elaborada por Josué de Castro em Geopolítica da Fome, de 1961, que apropriadamente se liga a temática do documentário: a população mundial classifica-se em dois grupos - os que não comem e os que não dormem, com receio dos que não comem.

Questões de necessidade primeiras são encaradas como forma de trazer lucros a corporações empresariais. No 3° Fórum Mundial da Água, que se realizou em 2003, em Kioto, Japão, havia na pauta a privatização da água, que foi veementemente defendida por Peter Woicke, diretor administrativo do Banco Mundial na época. Indispensável destacar que 1,5 bilhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia e não têm acesso à água. Mais de 3 bilhões utilizam água sem tratamento e, devido a isso, estima-se que 30 mil seres humanos morram diariamente no mundo. Sobre esse tema, ver o filme Thirst de Alan Snitow e Deborah Kaufmann.

Saramargo, prêmio Nobel de literatura, alerta sobre a necessidade de se discutir democracia mundialmente. Expõe que democracia, para nós, é o povo ser chamado a comparecer nas urnas e que espaços onde realmente são decididos questões de interesse geral e de plena relevância são completamente antidemocráticos: Banco Mundial, FMI, OIT - organização internacional do trabalho, e outros organismos internacionais.

É antidemocrático também o espaço de disseminação de informação oficial: “6 empresas controlam 90% do mercado de mídia do mundo”. Sendo assim, é preciso que se expandam maneiras populares de fazer mídia, que garantam um novo olhar sobre os fatos. O filme ilustra bem como isso já vem acontecendo e, felizmente, Milton Santos acredita ter a tendência a avançar cada vez mais:

* Carlos Pronzato - poeta e cineasta argentino, acompanha de perto os movimentos sociais na América Latina. Bakunin Digital.

* Aline Sasahara - cineasta, acompanha a realidade do MST. Inclusive pôde participar da Marcha Nacional do MST de Goiânia/ Brasília em 2005.

* Adirley Queiroz. Diretor do filme O canto da Ceilândia

* Joaquim Yawanawá. Cineasta e líder indígena.

* Tony Venturi e Pablo Georgieff - diretores do filme Dia de Festa.

A antropologia moderna retrata a existência do Homo Davos (local onde geralmente ocorre o Fórum Econômico Mundial) que apregoou o fim da história e propõe fundos para acabar com a pobreza, desconsiderando inúmeros fatores macro-estruturais que estão completamente associados à desigualdade no mundo. Segundo Milton Santos, necessário, ou melhor, essencial é que se mude o foco das discussões de crescimento econômico, desenvolvimento tecnológico (...) para o que significa ser civilizado, o que é, de fato, civilização. Viemos ensaiando modelos de humanidade, mas esta em si realmente nunca existiu. Ser pessimistas ante o que está configurado atualmente é inevitável, entretanto isso não apaga a confiança no futuro próximo, em que as revoluções se darão, de baixo para cima, fatais.

http://andliveourlives.blogspot.com/2008/09/o-mundo-global-visto-do-lado-de-c.html

COTAS RACIAIS: REACIONÁRIOS PERDEM OUTRA PARADA - O QUE OS 113 TOLOS POMPOSOS TÊM A DIZER AGORA?



Celso Lungaretti (*)

Quando os discípulos do reacionário Ali Kamel acreditaram que o brilho de suas assinaturas seria suficiente para barrar as ações afirmativas em benefício dos negros, lancei o artigo As Cotas Raciais e os 113 Tolos Pomposos
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/search/label/cotas%20raciais , no qual os aconselhei a baixarem a bola, adotando uma postura menos beligerante:


"...para os seres humanos justos e solidários, pouco importa se os negros estão em desvantagem por causa da escravidão passada ou por encontrarem-se hoje sob o fogo cruzado do capitalismo e de um racismo dissimulado, mas não menos real. Merecem, sim, que os pratos da balança sejam reequilibrados em seu favor.

"Quanto à eficácia das políticas compensatórias, ela só poderá ser realmente aferida depois de um período razoável de implementação. Por que, afinal, abortarmos essa tentativa no nascedouro?"

Também destaquei o fato de que os 113 tolos pomposos trombeteavam um problema menor e esqueciam o pior de todos, incidindo naquele velho erro de fixarem-se numa única árvore (no caso, as cotas raciais) e ignorarem a floresta inteira (a mercantilização do ensino) por trás dela:

"...em meio às terríveis distorções que o ensino superior vem sofrendo em função de seu atrelamento aos interesses capitalistas – começando por sua ênfase na especialização castradora que forja meros profissionais, desprezando a formação crítica e universalizante que engendra verdadeiros cidadãos –, eles magnificaram um problema menor, em detrimento, exatamente, 'dos desafios imensos' que dizem existir".

Foram observações decorrentes apenas da visão g eral que eu tenho da sociedade e das injustiças que o homem comete contra o homem. Não sou particularmente interessado nesse assunto nem nunca me dediquei a esmiuçá-lo em profundidade. Longe de mim a empáfia de me pretender experto na totalidade dos temas em destaque no noticiário.

Mas, a julgar pelo que Élio Gaspari escreveu na sua coluna de hoje (24/11), parece que andei certo (ou erramos os dois, avaliem e decidam vocês mesmos):

"No dia da Consciência Negra, as bancadas do governo e da oposição na Câmara dos Deputados aprovaram o projeto de lei que estabelece cotas sociais e raciais (...) para o preenchimento de vagas nas universidades públicas federais. O projeto foi mandado ao Senado.

"...Nada melhor do que o encaminhamento dessa questão na rotina das instituições republicanas. Quando a Casa Grande falava sozinha e a Senzala não votava, o Brasil tornou-se o último país livre das Américas a abolir a escrav atura.

"As políticas de ação afirmativa foram condenadas porque acordariam o gênio do racismo. Não acordaram. (...) As cotas criariam constrangimentos, levando alunos negros mal preparados para os cursos universitários. Não criaram.

"...Entre 2001 e 2008, 52 mil vagas foram oferecidas em 48 escolas que adotaram políticas de ações afirmativas em benefício de alunos da rede pública, negros e índios. Passaram-se sete anos e até hoje não apareceu um só episódio ou estudo relevante capaz de desqualificar essas políticas."

O certo é que continuarei me guiando pelos meus princípios, amadurecidos em mais de quatro décadas de luta pela liberdade e justiça social. O que disse naquele artigo de seis meses atrás, continuo afirmando agora, com orgulho:

"Entre os partidários da competição insensível entre seres humanos movidos pela ganância e os cidadãos decentes que procuram minorar as mazelas do capital ismo, eu me alinharei sempre com estes últimos. Mas, sem ilusões: as injustiças só serão realmente erradicadas quando o bem comum prevalecer sobre os interesses individuais, numa nova forma de organização social."


* Celso Lungaretti, 58 anos, é jornalista, escritor e ex-preso político. Mantém os blogs O Rebate, em que disponibiliza textos destinados a público mais amplo; e Náufrago da Utopia, no qual comenta os últimos acontecimentos.
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A MÃO DE OBRA DE AFRICANOS NO BRASIL -SÉC.XIX - VÍDEO DE NADIA STABILE - MÚSICA DE BEETHOVEN - OBRAS DE DEBRET E RUGENDAS

A Temática Africana em Sala de Aula - PROF.DR.MAURÍCIO WALDMAN

Prezados amigos e amigas:

O próximo dia 20 de Novembro é o DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA.

Que tal tomar conhecimento desta temática? Tenho alguns materiais de minha lavra a sugerir para quem quer que deseje fazer leitura sobre o tema.

São os que seguem:


LIVROS

1. Memória D'África - A Temática Africana em Sala de Aula
Obra em co-autoria com Carlos Serrano , Editora Cortez, 2007, atualmente na segunda edição. Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_memoria_d_africa&c=a


MATERIAIS ACADÊMICOS

1. Africanidade, Espaço e Tradição
Paper - Revista África, nº 20-21. Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo, 2000. Texto considerado de relevância internacional pelo Centre National de la Recherche Scientifique, o maior e mais influente organismo de pesquisa científica da França. Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_africanidade_espaco_e_tradicao&c=a

2. Imaginário, Espaço e Discriminação Racial
Paper - Revista GeoUSP, nº 14, pp. 45-64, Serviço de Pós-Graduação do Depto de Geografia USP, 2004. Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_imaginario_espaco_e_discriminacao_racial&c=a


MATERIAIS PARA CAPACITAÇÃO

1. A África Tradicional
1997, Projeto Sigma, Editora Didática Suplegraf, São Paulo (SP).
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_africa_tradicional&c=a

2. Guerras de Libertação na África
1998, Projeto Sigma, Editora Didática Suplegraf, São Paulo (SP).
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=hist_guerras_de_libertacao_na_africa&c=h

3. O Fabuloso Reino dos Mansas do Mali
2002, Prof- Assessoria em Educação e disponibilizado em 2004 para o site da Casa de Cultura da Mulher Negra (Santos, SP).
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_fabuloso_reino_dos_mansas_do_mali&c=a

4. Mundo Afro-Brasileiro
2003, publicado pelo Boletim da Associação dos Geógrafos Brasileiros, Seção Local São Paulo (SP).
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_mundo_afro-brasileiro&c=a


ENTREVISTAS

1. Entrevista concedida para a Rádio Voz da América
Transmissão mundial a partir de Washington em Outubro de 2007 centrada na Temática Africana em Sala de Aula e na questão da política de ações afirmativas.
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_radio_voz_da_america&c=a

2. Entrevista concedida para o Sindicato dos Professores - SINPRO
2003, Arquivo virtual e transcrição da entrevista estão disponíveis na Internet.
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_sinpro&c=a



Aproveito esta mensagem para informar que estarei palestrando no próximo dia 21 de Novembro na cidade de Poços de Caldas, por conta de minha participação no IIº SEMINÁRIO DAS RELAÇÕES INTERÉTNICAS E IGUALDADE RACIAL, promovido pela Secretaria de Educação do município.

Estarei proferindo palestra com base no tema "Geopolítica das Ações Afirmativas", tema que pretendo ampliar para um artigo em futuro próximo.

Por ora é só.

Até a próxima e um forte abraço!


Prof. Dr. Maurício Waldman
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Por que a economia colonial e imperial baseou-se no trabalho escravo? E A HISTÓRIA E A CULTURA AFRO-BRASILEIRA NA ESCOLA

O latifúndio monocultor no brasil exigia uma mão-de-obra permanente.
era inviável a utilização de portugueses assalariados, já que a intenção não era vir para trabalhar, e sim para se enriquecer no brasil.

o sistema capitalista nascente não tinha como pagar salários para milhares de trabalhadores, além do que, a população portuguesa que não chegava aos 3 milhões, era considerada reduzida para oferecer assalariados em grande quantidade.

quem foi utilizado como escravo nos períodos colonial e imperial?

embora o índio tenha sido um elemento importante para formação da colônia, o negro logo o suplantou, sendo sua mão-de-obra considerada a principal base, sobre a qual se desenvolveu a sociedade colonial brasileira.

na fase inicial da lavoura canavieira ainda predominava o trabalho escravo indígena. parece-nos então que argumentos tão amplamente utilizados, como inaptidão do índio brasileiro ao trabalho agrícola e sua indolência caem por terra.

a história verdadeira mostra que a reação do nativo foi tão marcante, que tornou-se uma ameaça perigosa para certas capitanias como espírito santo e maranhão. além da luta armada, os indígenas reagiram de outras maneiras, ocorrendo fugas, alcoolismo e homicídios como forma de reação à violência estabelecida pelo escravismo colonial. todas essas formas de reação dificultavam a organização da economia colonial, podendo assim, comprometer os interesses mercantilistas da metrópole, voltados para acumulação de capital. destaca-se também, a posição dos jesuítas, que voltados para catequese do índio, opunham-se à sua escravidão.

apesar de todos esses obstáculos, o indígena é amplamente escravizado, permanecendo como mão-de-obra básica na economia extrativista do norte do brasil, mesmo após o término do período colonial.

por que então que o índio cede lugar para o negro como escravo no brasil?

a maior utilização do negro como mão-de-obra escrava básica na economia colonial, deve-se principalmente ao tráfico negreiro, atividade altamente rentável, tornando-se uma das principais fontes de acumulação de capitais para metrópole.

exatamente o contrário ocorria com a escravidão indígena, já que os lucros com o comércio dos nativos não chegava até a metrópole.

torna-se claro assim, o ponto de vista defendido pelo historiador fernando novais, de que "o tráfico explica a escravidão", e não o contrário.

para os portugueses, o tráfico negreiro não era novidade, pois desde meados do século xv , o comércio de escravos era regular em portugal, sendo que durante o reinado de d. joão ii o tráfico negreiro foi institucionalizado com a ação direta do estado português, que cobrava taxas e limitava a participação de particulares.

quanto à procedência étnica do negro, destacaram-se dois grupos importantes: os bantos, capturados na África equatorial e tropical provenientes do congo, guiné e angola, e os sudaneses, vindos da África ocidental, sudão e norte da guiné.

interessante observarmos que entre os elementos deste segundo grupo, destacavam-se muitos negros islamizados, responsáveis posteriormente por uma rebelião de escravos ocorrida na bahia em 1835, conhecida como a revolta dos malês.

a resistência

do negro: os quilombos.


desde fugas isoladas, passando pelo suicídio, pelo banzo (nostalgia que fazia o negro cair em profunda depressão o levando à morte) e pelos quilombos, várias foram as formas de resistência do negro à escravidão, sendo a formação dos quilombos a mais conseqüente.

os quilombos eram aldeamentos de negros que fugiam dos latifúndios, passando a viver comunitariamente. o maior e mais duradouro foi o quilombo dos palmares, surgido em 1630 em alagoas, estendendo-se numa área de 27 mil quilômetros quadrados até pernambuco. desenvolveu-se através do artesanato e do cultivo do milho, feijão, mandioca, banana e cana-de-açúcar, além do comércio com aldeias vizinhas.

seu primeiro líder foi ganga zumba, substituído depois de morto por seu sobrinho zumbi, que tornou-se a principal liderança da história de palmares. zumbi foi covardemente assassinado em 1695 pelo bandeirante domingos jorge velho, contratado por latifundiários da região.

apesar dos muitos negros mortos em palmaras, a quantidade de escravos crescia muito e em 1681 atingia a cifra de 1 milhão de negros trazidos somente de angola.

o grande número de negros utilizado como escravos, deixa clara a alta lucratividade do tráfico negreiro, responsável inicialmente pelo abastecimento da lavoura canavieira em expansão nos séculos xvi e xvii e posteriormente nas áreas de mineração e da lavoura cafeeira nos séculos xviii e xix respectivamente.

A história e cultura

afro-brasileira na escola



A lei nº 10.639, de 2003, ou a ldb e passou a exigir que as escolas brasileiras de ensino fundamental e médio incluíssem no currículo o ensino da história e cultura afro-brasileira. o fato foi considerado pelos movimentos de luta dos negros em todo o país como um importante passo.
sua aplicação prática, no entanto, ainda é desafio para toda a comunidade escolar, especialmente para os professores: como sair da teoria? como e onde buscar material, isto é um grande desafio a ser cumprido.

História x Autalidades


Infelizmente, ainda a população “negra” no brasil, ocupa na área empregatícia, ocupa a posição de peão ou chão de fábrica, por não ter as mesmas oportunidades de crescimento que a grande parte da população “branca” tem. isto tudo é um reflexo de mais de 500 anos de história, onde o preconceito ainda está presente em piadinhas sem graça e que só desmoralizam um ser humano igual a tantos outros.


A exclusão existente no mundo do trabalho também se dá no sistema educacional. dos 28.234.039 estudantes do ensino fundamental, 52,0% são brancos, 43,1% são pardos e 4,5%, pretos. no ensino médio, que tem 3.760.935 alunos, as proporções correspondentes são 65,3%, 30,1% e 3,3%, para brancos, pardos e pretos, respectivamente, e, cursando o ensino superior, existem 1.665.982 estudantes, sendo 78,6% deles brancos, 17,4% de pardos e 1,4% de pretos (fonte: anuário estatístico do brasil 1992, rio de janeiro: ibge, v. 52, 1992. disponível em www.ibge.gov.br em "estatísticas do século xx", tema "educação")

http://www.hploco.com/ims/Historia_e_Atualidades_da_Cultura_Afro-Brasileira.html.

FONTE: INSTITUTO AFRO-BRASILEIRO DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL MILTON SANTOS

EDUCAFRO - EDUCAÇÃO E CIDADANIA DE AFRO-DESCENDENTES E CARENTES

Aulas de “Cultura e Cidadania” nos núcleos

O que diferencia a Educafro dos outros cursinhos são as aulas de “Cultura e Cidadania” desenvolvidas regularmente em cada núcleo de pré-vestibular comunitário, com carga horária igual ou superior às disciplinas acadêmicas como física, português ou biologia. As aulas de cidadania se caracterizam em uma marca do projeto e abordam 10 temas anuais, especialmente selecionados e preparados para a realidade dos alunos provenientes das escolas públicas e do povo negro. O foco didático-pedagógico desta disciplina, baseado na abordagem transversal de conteúdos sociais e étnico-raciais, busca trabalhar os temas com diversidade, através de palestras, dinâmicas, filmes, teatro e seminários em grupo, passando pelas vertentes teóricas e práticas do que é cidadania na Educafro.

Temas e textos de cidadania

Além do encontro mensal para professores e equipes de cidadania, que ocorrem aos primeiros sábados às 14:00 horas, na Sede da Educafro, são elaborados textos-base referentes aos temas de cidadania de cada semestre. O objetivo destes textos é dar início ao trabalho, que deverá ser complementado com outras abordagens.

Definidos os Temas de Cultura e Cidadania de 2008:
Clique aqui para fazer o download da apostila de cidadania 2008.
http://www.educafro.org.br/Sbolsas/sbl_002_tfc.asp#aTEMAS%20DE..

TEMAS DE "CULTURA E CIDADANIA" DA EDUCAFRO 2008.

1- VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E DE GÊNERO: UM OLHAR PARA A MULHER AFRO-BRASILEIRA

Objetivo: trazer à tona inovações sociais da Lei Maria da Penha e luta para sua efetivação e preocupações com a inserção da mulher negra, que nos indicadores sociais permanece como maior vítima de agressões.

2- JUVENTUDE NEGRA: ELEVANDO A AUTO-ESTIMA E SUPERANDO OS ESTIGMAS!

Objetivo: demonstrar o quanto a juventude da periferia é capacitada e está pronta para aceitar os desafios colocados para transformar a sociedade. Abordar propostas de intervenção social e políticas públicas para a Juventude e partilhar os inúmeros casos de vitórias em nosso meio..

3- QUAIS SÃO OS DESAFIOS PARA A POPULAÇÃO IDOSA E PARA O AFRO-DESCENDENTE NO BRASIL?

Objetivo: participar e contribuir com o debate atual na sociedade sobre envelhecimento da população e qualidade de vida, associando com a superação da discriminação dos idosos negros.

4- O NEGRO E A MÍDIA: REFLEXÕES SOBRE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A POP. AFRO-BRASILEIRA

Objetivo: abordar as temáticas em torno do poder da mídia, propostas para sua democratização e participação da população negra nos conteúdos culturais, jornalísticos, etc. e Ações Afirmativas neste contexto.

5- POLÍTICAS PÚBLICAS E INCLUSÃO ÉTNICA: QUAL É A AGENDA POLÍTICA SOBRE DIVERSIDADE PARA AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS?

Objetivo: construir coletivamente uma pauta prevendo a inclusão de políticas com recorte étnico nas plataformas/programas de candidatos, partidos políticos e lideranças para as municipais/2008 e levar para comunidade a importância deste debate.

6- AS 20 RAZÕES HISTÓRICAS E ATUAIS PARA DEFENDERMOS COTAS NAS UNIVERSIDADES

Objetivo: elencar os fundamentos históricos, sociais, legais, filosóficos e estatísticos que comprovam o quanto as ações afirmativas e cotas para negros são fundamentais para garantir igualdade de acesso ao ensino superior. È importante citar que o ano de 2008 marca os 120 anos da Abolição Inconclusa..

7- QUAL É A RESPONSABILIDADE DAS UNIVERSIDADES COM A INCLUSÃO SOCIAL E ÉTNICA?

Objetivo: questionar a omissão das universidades públicas que se negam a adotar programas de inclusão de negros e estudantes da rede pública e, em paralelo, apontar resultados alcançados por 51 IES - Instituições de Ensino Superior Públicas que adotam reserva de vagas (cotas) e outros tipos de ações afirmativas

8- QUAIS SÃO OS MEIOS DISPONÍVEIS PARA A APLICAÇÃO DA LEI 10.639 E TORNA-LA EFETIVADA EM TODOS OS NÍVEIS DE ENSINO?

Objetivo: socializar ferramentas didáticas e conteúdos referentes ao ensino da História da África e cultura afro-brasileira. Estudar o Parecer 003, que trata da Lei e de diretrizes e práticas positivas a seu respeito.

9- O QUE TEMOS A APRENDER COM A RESISTÊNCIA, PROPOSITURA E DENÚNCIAS DO MOVIMENTO NEGRO?

Objetivo: conhecer, estudar e aprofundar as histórias e proposituras de alguns grupos sociais negros organizados no Brasil ao longo dos últimos anos.

10- REPRESSÃO CONTRA MOVIMENTOS SOCIAIS: UM RELATO SOBRE AÇÕES ARBITRÁRIAS DO ESTADO CONTRA O MOVIMENTO NEGRO E ORGANIZAÇÕES POPULARES

Objetivo: t denunciar as ações arbitrárias promovidas por órgãos do Estado contra os movimentos sociais e o movimento negro e buscar soluções para superação de tais posturas que ao longo da história visa criminalizar a ação de grupos reivindicatórios


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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

MILTON SANTOS: POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO (LIVRO)

·:·MILTON SANTOS: POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO - A DE TODOS ·:·

Délio Mendes


Para o mundo intelectual brasileiro entrou em encantamento um dos seus principais pensadores. E se encantou em plena produção, no seu momento mais fértil. Produzia uma crítica à globalização considerando que a mesma tem sido levada a efeito do ponto de vista do capital financeiro. Propunha uma outra globalização. Intelectual estudioso do espaço e do tempo, compreendeu, em seu tempo, o espaço como produção do homem na relação com a totalidade da natureza e a intermediação da técnica. Técnica que corresponde a um tempo determinado pela produção dos homens. Homem do seu tempo, Milton Santos se fez presente em todos os grandes embates intelectuais da última metade do século passado. O seu tempo e o seu espaço foram o tempo e o espaço da globalização. Que ele queria que fosse outra. Ou melhor, a outra, a globalização de todos os excluídos, resgatados em uma sinfonia de humanização. Milton se fez maestro da paz e da felicidade. Felicidade de todos. Buscou uma globalização que unisse todas as mulheres e todos os homens, sob égide do encontro.

Conheci Milton, no Recife, em 1978, quando estava às voltas com Pobreza urbana. Inovava ao compreender o mundo formal e informal, como duas faces de um circuito comandado desde a acumulação ampliada do capital.[1] Inovava e agitava. Milton era, sobretudo, um agitador. Agitador de idéias, no melhor sentido de um intelectual da sua estatura. Avesso aos partidarismos, falava da isenção do intelectual para exercitar a crítica. Por isso, sempre esteve radicalmente ao lado do seu povo. Em Pobreza urbana se faz crítico de um debate sobre a desigualdade que se presta, mais e muito mais, à louvação mesquinha de intelectuais vazios entre si, do que a colocação correta e crítica dos grandes problemas da exclusão. “Indubitavelmente, o tom de certos trabalhos, nos quais o jogo conhecido das referências recíprocas entre autores "freqüentemente substitui uma análise dos fatos, tem contribuído para a perpetuação do debate, que, embora pretenda atacar o problema em profundidade, perde-se numa guerrilha semântica confusa.”[2] Esta crítica direta acompanha uma análise da produção intelectual da pobreza que, segundo Milton, pouco tinha contribuído para a resolução dos problemas da pobreza. Para este jogo de vaidades não se contava com a sua participação.

A história do homem, compreendida como a história da superação, faz do autor de Pobreza urbana, um profeta da evolução. “A história do homem sobre a terra é a história de uma ruptura progressiva entre o homem e o entorno. Esse processo se acelera quando, praticamente ao mesmo tempo, o homem se descobre como indivíduo e inicia a mecanização do Planeta, armando-se de novos instrumentos para poder dominá-lo. A natureza artificializada marca uma grande mudança na história da natureza humana. Hoje, com a tecnociência, alcançamos o estágio supremo dessa evolução.”[3] A visão da técnica, do espaço e do tempo, assume, nesta compreensão, um caráter inovador, na medida em que passa a apreender a dimensão da história, da história de temporalidades técnicas que permite produzir uma sociedade determinada, empregando, de acordo com a técnica predominante, uma certa quantidade de trabalho humano. Milton abre o conceito de território, mostrando-o como o lugar do drama social “Bom, há nessa desordem a oportunidade intelectual de nos deixar ver como o território revela o drama da nação, porque ele é, eu creio, muito mais visível através do território do que por intermédio de qualquer outra instância da sociedade. A minha impressão é que o território, revela as contradições muito mais fortemente.”[4] Da relação técnica, espaço e tempo, revela-se a história, ou melhor, uma outra história, no palco iluminado expresso no território. Esta outra história aponta para as desigualdades. Faz emergir a exclusão da maioria da população concentrada em um território degradado, onde pobres de todas as naturezas lutam contra todos os carecimentos.

Milton se mostra mais crítico no livro recente Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal[5], onde nos aponta para um mundo de difícil percepção por conta da confusão reinante que nos tem levado à perplexidade. Portanto, toma para análise a realidade relacional do ser humano, e a esta realidade relacional perversa atribui os males revelados pelo território. Não aceita explicações mecanicistas pelo seu caráter insuficiente. Atribuindo ao desenrolar da história, capitaneada por determinados segmentos da sociedade, os males que tornam difícil a vida da maioria das mulheres e dos homens. Coloca na base deste processo confuso a tirania do dinheiro e da informação, transcende a Marx, e o dinheiro passa a produzir dinheiro, dominando o mundo da produção de mercadorias. Especulação, financeirização. A globalização é feita menor, sob a égide dos bancos e dos banqueiros, criando uma fábrica de perversidades. “O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes.”[6]

Caminhando no terreno da mais valia global, Por uma outra globalização apreende o papel dos intelectuais. Todos trabalhando a ampliação desta mais valia. Trabalhando para ampliar a produtividade como se este fosse um trabalho abstrato, e não a produção de urna vantagem para o capital.[7] É preciso reconhecer este momento e a sua peculiaridade. A de ser um momento para o capital. E todas as ações movem-se na direção do reproduzir para os ricos. Entretanto, se esta é uma constatação, não é, felizmente, uma fatalidade. Milton nos aponta para um outro conhecimento. Para a possibilidade de conhecer, para a liberdade do ser humano. Para modificar o mundo. Para que o conhecimento se produza no interior da crítica, sem abstrações alienantes, sem reconhecimentos incompletos que produzem falsas compreensões e encobrem os verdadeiros dramas sociais. E assim, pode-se evitar a espera para que cresça o bolo, evitando a indigência de uma quantidade grande de seres humanos.

É o início de uma outra cognoscibilidade do planeta. Um planeta que conta com todas as possibilidades de ser desvendado. Mas, nem sempre o conhecer é possível. A informação nem sempre se propõe a informar, e sim a convencer acerca das possibilidades e das vantagens das mercadorias. "O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde.”[8] A contradição se faz e se refaz na impossibilidade de se produzir, de imediato, uma informação libertadora. A alienação é a face que brota aguda da globalização financeira, da globalização do dinheiro. Encanta-se o mundo. O princípio e o fim são o discurso e a retórica. Então o que fica para o ser comum é a farsa do consumo. Não há referência à transformação do espaço e do tempo. O homem consumidor caminha no espaço do desconhecimento do mundo relacional e do falso e alardeado conhecimento do mundo das mercadorias. O fetiche, como e desde sempre, se realiza no ocultamento do valor de troca e no falso evidenciamento do valor de uso. É a utilidade que aparece, e que é proclamada em todo o universo informacional. Fala-se ao peito sangrando das mulheres e homens que não são consumidores. Para a competitividade, tem-se de chamar os consumidores, tem-se que oferecer o melhor, o mais barato, produzido desde a produtividade aumentada pelo trabalho dos intelectuais. Tudo para melhorar a competitividade.

Para Milton, a competitividade é ausência de compaixão. Tem a guerra como norma, e privilegia sempre os mais fortes em detrimento dos mais fracos. Busca fôlego na economia e despreza os que pensam mais para além. "Para tudo isso, também contribuiu a perda da influência da filosofia na formulação das ciências sociais, cuja interdisciplinaridade acaba por buscar inspiração na economia.”[9] Esta é uma das mais importantes reflexões levadas a efeito no interior de Por uma outra, na medida em que coloca um ponto focal que não é localizado costumeiramente no campo da ideologia. Cientistas sociais dos mais diferentes matizes sucumbem aos encantos da facilidade dos números e do falso realismo de uma formulação econômica ideologizada, que esquece os seres humanos e os substitui pelas equações e as tabelas estatísticas que ilusionam os dirigentes e metem medo a todos os que não querem padecer no inferno apontado pelos proclamadores da nova única. Se não aceitas as premissas e as evidências das projeções estatísticas da nova única, serás responsável pelo caos que há de vir.

Empobrece a ciência social em geral, nada para além da numerologia estatística. Investir nos setores sociais acarreta um custo que o capital não se propõe a pagar, e a ciência se curva, entra em letargia, deixa o mundo nas mãos dos economistas que vão levá-lo adiante de mãos com a lógica da relação produto capital e da competitividade. A ciência humana se faz pobre para interpretar um mundo confuso e conturbado e, desde logo, tudo a ciência econômica. Este enfoque modernoso atinge por caminhos nunca dantes navegados a maioria das falas e dos discursos. Grandes farsas são inventadas e reinventadas. O privilégio continua privilegiando o privilegiado. "Os atores mais poderosos se reservam os melhores pedaços do território.”[10] Inclusive do território do pensar para impedir o pensar. Apoderam-se das mentes e dos corações e, por conseqüência, das vidas no pleno movimento da vivência. Tudo isto no mundo da competitividade. A competitividade revela a essência do território, os lugares apontam para as lutas sociais, trazendo a tona virtudes e fraquezas dos atores da vida política e da sociedade.

A cidadania se torna menor do que sua percepção. O cidadão pretende transcender o seu espaço primitivo. Todavia, o mundo, expresso desigualmente, não tem como regular os lugares em suas diversidades e, por conseqüência, a cidadania se faz menor. A desigualdade aponta a impossibilidade da generalização da cidadania. O espaço é esquizofrênico na expressão da exclusão social. Uns homens sentem-se mais cidadãos do que outros. Mas estes homens são apenas consumidores, pois a cidadania depende de sua generalização. Não existem cidadãos num mundo apartado. Não se é cidadão em um espaço onde todos não o são. São consumidores os que expressam direitos e deveres no âmbito do mercado e não no âmbito do espaço público, onde a política é realizada e o poder distribuído. Portanto, este é um mundo de alguns consumidores e poucos, pouquíssimos cidadãos. É preciso construir a cidadania.

A transição (conclusão)

O novo nasce sem que se perceba. Quase na sombra, o mundo muda de maneira imperceptível, todavia constante. Neste início de século, temos a consciência de que estamos vivendo uma nova realidade. As transformações atuais colocam os homens em permanente estado de perplexidade. A poluição e a desertificação se alastram, a super população e as tecno-epidemias etc., tornam o mundo diverso negativamente. A pobreza e a desigualdade, são produtos desta forma da produção do modo civilizatório capitalista. Este novo apresenta diferentes faces. Tudo isto como conseqüência da desestruturação da ordem industrial. O atual período histórico não é apenas a continuação do capitalismo ocidental, é mais. Melhor, é muito mais, é a transição para uma nova civilização. Esta transição que está em curso é preocupante para determinadas sociedades, desprotegidas na guerra das nações pela primazia na história

Milton chama atenção para esta realidade. "No caso do mundo atual, temos a consciência de viver um novo período, mas o novo que mais facilmente apreende-se diz respeito à utilização de formidáveis recursos da técnica e da ciência pelas novas formas do grande capital, apoiado por formas institucionais igualmente novas. Não se pode dizer que a globalização seja, semelhante às ondas anteriores, nem mesmo uma continuação do que havia antes, exatamente porque as condições de sua realização mudaram radicalmente. É somente agora que a humanidade está podendo contar com essa nova realidade técnica, providenciada pelo que se está chamando de técnica informacional. Chegamos a um outro século e o homem, por meio dos avanços da ciência, produz um sistema de técnicas da informação. Estas passam a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando a presença planetária desse novo sistema técnico."[11]

É necessário, para compreender esse novo, o conhecimento de dois elementos fundamentais na formação social das nações: a formação técnica e a formação política. Uma permite a compreensão dos elementos tecnológicos que formam as composições necessárias à produção, e a outra indica que setores serão privilegiados com a organização possível da produção. “Na prática social, sistemas técnicos e sistemas políticos se confundem e é por meio das combinações então possíveis e da escolha dos momentos e lugares de seu uso que a história e a geografia se fazem e refazem continuamente.”[12] Desde esta compreensão, esta nova sociedade pode, inclusive, abrir uma nova época com a colocação de um novo paradigma social. Este paradigma pode ser posto como: a superação da nação ativa pela nação passiva.

Ou melhor, voltando ao velho Marx: a nação em si é superada pela nação para si. Para isto, é necessário que o velho/novo mundo periférico retome um projeto político de independência, fora dos moldes de projetos como o Mercosul, que nada mais representam do que a dependência em bloco, na medida em que este tipo de associação só serve à subserviência coletiva, levando grupos de países periféricos a deixar de submeterem-se isoladamente, para cair em bloco nos ardis do capital financeiro.

Finalmente, utilizando a dialética como referência, Milton mostra a batalha travada entre a nação passiva e a nação ativa, em uma transição política que envolve todos os espaços do viver, desde o espaço da vida cotidiana. A nação ativa, ligada aos interesses da globalização perversa, nada cria, nada contribui para a formação do mundo da felicidade, ao contrário da outra nação dita passiva que, a cada momento, cria e recria, em condições adversas, o novo jeito de produzir o espaço social, mostrando que a atual forma de globalização não é irreversível e a utopia é pertinente. ” É somente a partir dessa constatação, fundada na história real do nosso tempo, que se torna possível retomar, de maneira concreta, a idéia de utopia e de projeto.”[13] Desde esta compreensão, a globalização é um projeto irreversível da humanidade. Entretanto, não é esta a globalização desejada, e sim uma outra, a de todos.

Sobre o livro: SANTOS, Milton. Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal. São Pauto: Record, 2000. [1]SANTOS, Milton (1978) Pobreza urbana, Hucitec/UFPE/CNPU, São Paulo, Recife.
[2]SANTOS, Milton, Pobreza urbana, op. cit. p.29.
[3]SANTOS, Milton (1994), Técnica espaço tempo, Hucitec, São Paulo, p. 17.
[4]SANTOS, Milton (2000) Entrevista com SEABRA, Odete, CARVALHO, Mônica e LEITE, José Corrêa, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, p. 21.
[5]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal, Record, São Paulo.
[6]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 19
[7]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 31
[8]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 39
[9]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 47
[10] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 79.
[11] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 142.
[12] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 142
[13] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 160


http://www.fundaj.gov.br/observanordeste/obex02.html

SER NEGRO NO BRASIL POR MILTON SANTOS

Ser negro no Brasil hoje

Ética enviesada da sociedade branca desvia enfrentamento do problema negro

Milton Santos

http://www.ige.unicamp.br/~lmelgaco/santos.htm

Há uma frequente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar, também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é, conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador. Desse modo, tivemos a experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas. Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos (paradoxalmente contra as vítimas). Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.

500 anos de culpa

Agora, chega o ano 2000 e a necessidade de celebrar conjuntamente a construção unitária da nação. Então é ao menos preciso renovar o discurso nacional racialista. Moral da história: 500 anos de culpa, 1 ano de desculpa. Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a Igreja Católica! O próprio presidente da República considera-se quitado porque nomeou um bravo general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira. Por enquanto, para o ministro da Educação, basta que continuem a frequentar as piores escolas e, para o ministro da Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas. A questão não é tratada eticamente. Faltam muitas coisas para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais e alcançar uma ação política consequente. Ou os negros deverão esperar mais outro século para obter o direito a uma participação plena na vida nacional? Que outras reflexões podem ser feitas, quando se aproxima o aniversário da Abolição da Escravatura, uma dessas datas nas quais os negros brasileiros são autorizados a fazer, de forma pública, mas quase solitária, sua catarse anual?

Hipocrisia permanente

No caso do Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca dominante reage, quando o tema é a existência, no país, de um problema negro. Essa equivocação é, também, duplicidade e pode ser resumida no pensamento de autores como Florestan Fernandes e Octavio Ianni, para quem, entre nós, feio não é ter preconceito de cor, mas manifestá-lo. Desse modo, toda discussão ou enfrentamento do problema torna-se uma situação escorregadia, sobretudo quando o problema social e moral é substituído por referências ao dicionário. Veja-se o tempo politicamente jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e quejandos, com os inevitáveis apelos à comparação com os norte-americanos e europeus. Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é? Talvez seja esse um dos traços marcantes dessa problemática: a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial cuja definição é, desde a base, viciada. Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambiguidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições. Tais refrões cansativos tornam-se irritantes, sobretudo para os que nele se encontram como parte ativa, não apenas como testemunha. Há, sempre, o risco de cair na armadilha da emoção desbragada e não tratar do assunto de maneira adequada e sistêmica.

Marcas visíveis

Que fazer? Cremos que a discussão desse problema poderia partir de três dados de base: a corporeidade, a individualidade e a cidadania. A corporeidade implica dados objetivos, ainda que sua interpretação possa ser subjetiva; a individualidade inclui dados subjetivos, ainda que possa ser discutida objetivamente. Com a verdadeira cidadania, cada qual é o igual de todos os outros e a força do indivíduo, seja ele quem for, iguala-se à força do Estado ou de outra qualquer forma de poder: a cidadania define-se teoricamente por franquias políticas, de que se pode efetivamente dispor, acima e além da corporeidade e da individualidade, mas, na prática brasileira, ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social.
Costuma-se dizer que uma diferença entre os Estados Unidos e o Brasil é que lá existe uma linha de cor e aqui não. Em si mesma, essa distinção é pouco mais do que alegórica, pois não podemos aqui inventar essa famosa linha de cor. Mas a verdade é que, no caso brasileiro, o corpo da pessoa também se impõe como uma marca visível e é frequente privilegiar a aparência como condição primeira de objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro. Então, a própria subjetividade e a dos demais esbarram no dado ostensivo da corporeidade cuja avaliação, no entanto, é preconceituosa.
A individualidade é uma conquista demorada e sofrida, formada de heranças e aquisições culturais, de atitudes aprendidas e inventadas e de formas de agir e de reagir, uma construção que, ao mesmo tempo, é social, emocional e intelectual, mas constitui um patrimônio privado, cujo valor intrínseco não muda a avaliação extrínseca, nem a valoração objetiva da pessoa, diante de outro olhar. No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da socialidade e da sociabilidade.
Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro -imagem fácil- e não as minhas aquisições intelectuais, após uma vida longa e produtiva. Sem dúvida, o homem é o seu corpo, a sua consciência, a sua socialidade, o que inclui sua cidadania. Mas a conquista, por cada um, da consciência não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da cidadania. Talvez seja essa uma das razões pelas quais, no Brasil, o debate sobre os negros é prisioneiro de uma ética enviesada. E esta seria mais uma manifestação da ambiguidade a que já nos referimos, cuja primeira consequência é esvaziar o debate de sua gravidade e de seu conteúdo nacional.

Olhar enviesado

Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel frequentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em "faits-divers", em lugar de aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega.
Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver "subido na vida".
Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil.



Artigo escrito por Milton Santos, geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
Fonte: Folha de S.Paulo - Mais - brasil 501 d.c. - 07 de maio de 2000


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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Gal Costa - Divino Maravilhoso - música de Caetano Veloso

Cesaria Evora - Sodade

Ela desatinou - Chico, Tom e Daniela Mercury

NÁ OZZETTI - "Disseram que voltei americanizada" autor:Vicente Paiva (Carmen Miranda cantava esta música)

"ESCURINHO" - GERALDO PEREIRA- CHICO BUARQUE INTERPRETA

CIRO MONTEIRO E SUA CAIXINHA DE FÓSFOROS - "Falsa Bahiana" de Geraldo Pereira

Jackson do Pandeiro canta "Sebastiana" TVE 1979

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