terça-feira, 13 de janeiro de 2009
domingo, 23 de novembro de 2008
"MILTON SANTOS" e a "globalitarização"
“O passo seguinte é a obtenção de uma visão sistêmica, isto é, a possibilidade de enxergar as situações e as causas atuantes como conjuntos e localiza-los como um todo, mostrando sua interdependência”(...) (Santos, 2001, p. 169).
LEIA NA ÍNTEGRA EM :
Milton Santos: Resenha do livro Por uma Outra Globalização
http://ubiratangeo.blogspot.com/2008/06/milton-santos-resenha-do-livro-por-uma.html
"MILTON SANTOS" - O EXTRAORDINÁRIO DOCUMENTÁRIO DE SILVIO TENDLER!! (assisti parte dele na TV BRASIL . MILTON SANTOS NOS FAZ MUITA FALTA!)
o mundo global visto do lado de cá
Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá - Silvio Tendler
O documentário inicia-se com uma demonstração de esperança de Sartre diante da injustiça e desigualdade, publicada no prefácio do livro Condenados da Terra, de Franz Fanon. Inegavelmente, do começo ao fim, o filme me fez refletir e tomar notas constantemente sobre as idéias lançadas, que são de uma pertinência nítida e que muito ajudam a esclarecer a realidade em que estamos inseridos.
"O consumo hoje que é o grande fundamentalismo”. São valores introjetados tão esmagadoramente em nossa mente, como o consumismo, que correm o risco de não serem questionados. Milton fala sobre sua condição de intelectual, este ser mesmo que não pode se abster de refletir criticamente, e de como é difícil o ser, no Brasil, pela pouca vontade das pessoas, em geral, em ouvir uma palavra crítica sobre o mundo.
O dado fala por si: 500 mais ricos detêm mais riqueza que os 416 milhões mais pobres. Diante disso, Milton Santos configura a existência de três mundos: o mundo como nos fazem ver - a globalização como fábula; o mundo tal como é - a globalização como perversidade; e o mundo como pode ser - uma outra globalização, o mundo da dignidade humana.
O Consenso de Washington entra como comprovação da perversidade do “globalitarismo” - a globalização estabelecida pelo autoritarismo - ao propor uma bula de como se chegar ao desenvolvimento, (austeridade fiscal, aumento de impostos, juros altos para atrair investimentos estrangeiros, privatizações, defesa da capacidade dos setores privados em oposição à ineficiência dos públicos) que trata unicamente da crise financeira em detrimento da situação social e cultural de um país.
Vários exemplos de manifestação popular na América Latina são citados, deixando evidente o completo fiasco que foi esse programa:
* Quito, Equador, 2000. Numa população de 95% de índios e mestiços, o movimento popular revolta-se e derruba o presidente.
* Cochabamba, Bolívia, 2000. Uma população de 70% de índios e mestiços revolta-se contra a privatização da água feita pelo presidente pressionado pelo FMI e Banco Mundial para defender os interesses da multinacional Bechtel. Ressalta-se Oscar Oliveira - líder sindical boliviano.
* La Paz, Bolívia. 2003. Luta pela nacionalização do gás e petróleo.
* Buenos Aires, Argentina. 2001. Panelaço do povo derrubou três presidentes em duas semanas. A classe média sofre com a desvalorização da moeda.
* Brasil, 1997. Privatização de grandes empresas, como a Vale do Rio Doce. Manifestações populares foram dissolvidas.
Embora haja um mito positivo sobre globalização de culturas, o nascimento de crenças e vontades globais, é um equívoco pensar que o Estado nacional, este que representa os interesses particulares de uma nação, perdeu sua relevância. É inegável que os Estados Unidos permanecem sólidos na defesa de sua visão de mundo e de seus interesses internacionalmente. Preciso que se diga também que este processo de mundialização também é eficiente em criar fronteiras, quando é conveniente; como são os casos da fronteira dos EUA-México e Melita, um território espanhol em continente africano cercado por muralhas.
A globalização aflorou a divisão internacional do trabalho, aproveitando-se de possíveis facilidades de exploração de mão de obra em países pobres, contribuiu para o fortalecimento das desigualdades. Mostram-se cenas do filme Corporação, que é uma boa referencia no entendimento de como as grandes empresas se comportam a fim de obter lucro.
Achei bem-adequada a divisão elaborada por Josué de Castro em Geopolítica da Fome, de 1961, que apropriadamente se liga a temática do documentário: a população mundial classifica-se em dois grupos - os que não comem e os que não dormem, com receio dos que não comem.
Questões de necessidade primeiras são encaradas como forma de trazer lucros a corporações empresariais. No 3° Fórum Mundial da Água, que se realizou em 2003, em Kioto, Japão, havia na pauta a privatização da água, que foi veementemente defendida por Peter Woicke, diretor administrativo do Banco Mundial na época. Indispensável destacar que 1,5 bilhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia e não têm acesso à água. Mais de 3 bilhões utilizam água sem tratamento e, devido a isso, estima-se que 30 mil seres humanos morram diariamente no mundo. Sobre esse tema, ver o filme Thirst de Alan Snitow e Deborah Kaufmann.
Saramargo, prêmio Nobel de literatura, alerta sobre a necessidade de se discutir democracia mundialmente. Expõe que democracia, para nós, é o povo ser chamado a comparecer nas urnas e que espaços onde realmente são decididos questões de interesse geral e de plena relevância são completamente antidemocráticos: Banco Mundial, FMI, OIT - organização internacional do trabalho, e outros organismos internacionais.
É antidemocrático também o espaço de disseminação de informação oficial: “6 empresas controlam 90% do mercado de mídia do mundo”. Sendo assim, é preciso que se expandam maneiras populares de fazer mídia, que garantam um novo olhar sobre os fatos. O filme ilustra bem como isso já vem acontecendo e, felizmente, Milton Santos acredita ter a tendência a avançar cada vez mais:
* Carlos Pronzato - poeta e cineasta argentino, acompanha de perto os movimentos sociais na América Latina. Bakunin Digital.
* Aline Sasahara - cineasta, acompanha a realidade do MST. Inclusive pôde participar da Marcha Nacional do MST de Goiânia/ Brasília em 2005.
* Adirley Queiroz. Diretor do filme O canto da Ceilândia
* Joaquim Yawanawá. Cineasta e líder indígena.
* Tony Venturi e Pablo Georgieff - diretores do filme Dia de Festa.
A antropologia moderna retrata a existência do Homo Davos (local onde geralmente ocorre o Fórum Econômico Mundial) que apregoou o fim da história e propõe fundos para acabar com a pobreza, desconsiderando inúmeros fatores macro-estruturais que estão completamente associados à desigualdade no mundo. Segundo Milton Santos, necessário, ou melhor, essencial é que se mude o foco das discussões de crescimento econômico, desenvolvimento tecnológico (...) para o que significa ser civilizado, o que é, de fato, civilização. Viemos ensaiando modelos de humanidade, mas esta em si realmente nunca existiu. Ser pessimistas ante o que está configurado atualmente é inevitável, entretanto isso não apaga a confiança no futuro próximo, em que as revoluções se darão, de baixo para cima, fatais.
http://andliveourlives.blogspot.com/2008/09/o-mundo-global-visto-do-lado-de-c.html
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Documentário mostra o olhar clarividente de Milton Santos sobre "o sequestro da globalização"
Entre cenas de protestos de cocaleiros bolivianos, passeatas do Fórum Social Mundial e jovens artistas do hip-hop nas periferias brasileiras, o filme se sustenta na crítica do geógrafo aos rumos do processo de globalização. Milton dizia que nunca houve condições tecnológicas tão boas para o desenvolvimento da humanidade. Só que essas condições foram seqüestradas por um grupo de empresas.
Uma perspectiva periférica da globalização, a partir do olhar clarividente de um dos maiores intelectuais brasileiros. De acordo com o cineasta Silvio Tendler, esse é o foco do documentário "Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá', que estreou na sexta-feira (17/08) em salas de São Paulo, Rio de Janeiro, Santos e Campinas. O filme, que em 2006 venceu o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro na categoria júri popular, tem como eixo condutor um registro precioso: a última entrevista do geógrafo Milton Santos, realizada em janeiro de 2001, cinco meses antes de sua morte.
“O filme não pretende ser uma síntese do pensamento de Milton Santos. É um diálogo comigo, no qual ele conduz seu brilhante raciocínio sobre a globalização, enquanto eu procuro ilustrar esse pensamento com exemplos na vida real”, disse Tendler à Agência FAPESP.
Entre cenas de protestos de cocaleiros bolivianos, passeatas do Fórum Social Mundial e jovens artistas do hip-hop nas periferias brasileiras, o filme se sustenta na crítica do geógrafo aos rumos do processo de globalização. “Ele dizia que nunca houve no mundo condições tecnológicas tão boas para o desenvolvimento da humanidade. Só que essas condições foram seqüestradas por um grupo de empresas. Cabe, portanto, à humanidade redirecionar a globalização para que ela seja conveniente para todos”, disse Tendler.
O documentário começou a nascer em 1995, quando o cineasta filmava o média-metragem Josué de Castro – Cidadão do mundo. “Fui a Paris colher um depoimento de Milton Santos, que tinha uma relação próxima com Josué. Não o conhecia ainda. Foi a entrevista mais difícil da minha vida para cortar, porque tudo o que ele dizia era brilhante”, contou.
Cineasta e geógrafo se encontraram em diversas ocasiões, quando Tendler propôs a Santos uma entrevista sobre globalização. O professor o recebeu em sua sala na Universidade de São Paulo, no dia 4 de janeiro de 2001. “Ele já estava gravemente doente, mas me recebeu e deu uma longuíssima entrevista. Foi um depoimento muito forte, que marcou a minha vida para sempre. Quando terminei, vi que aquilo era um filme por si só”, destacou o cineasta.
Estudo e intuição
Tendler conta que fez o filme com poucos recursos. Foi de ônibus do Rio de Janeiro, onde mora, a São Paulo, para fazer a entrevista. Levou um único assistente e uma câmera digital de tecnologia defasada. “Em um determinado momento, comecei a ficar preocupado com o contraste entre a genialidade de tudo o que ele me dizia e a indigência da minha estrutura”, afirmou.
Na própria entrevista, no entanto, o geógrafo fez uma afirmação otimista: “coisas fundamentais podem ser feitas com parcos recursos”. “Ilustrei isso mostrando meninos de uma área pobre do Rio de Janeiro que fizeram um lindo filme com uma câmera barata, improvisando travellings em uma cadeira velha de escritório e usando um cabo de vassoura como tripé”, contou.
Partidos políticos que perdem a ideologia, crises da democracia, desestruturação das esquerdas: tudo o que Santos dizia em 2001 foi emergindo na realidade brasileira e mundial ao longo dos anos, de acordo com Tendler. Para ele, o geógrafo era um clarividente, alguém que associa o estudo e a intuição para mergulhar na complexidade da realidade e fazer emergir uma visão cristalina. “O pensamento dele é muito complexo e ele não tenta simplificar as coisas. Propositalmente, como se fosse um mágico, vai nos conduzindo às suas idéias. O filme é um diálogo, mas não usei esse termo no título. Preferi ‘encontro’, porque não tenho estatura científica para me colocar no patamar dele”, declarou.
Uma vez pronta a entrevista, o restante do processo de filmagem e edição durou cinco anos. “Como quase todos os meus filmes, é um quebra-cabeça. Não tento simplificar o processo de produção, nem tenho pretensão de inovar na linguagem cinematográfica. O objetivo é me comunicar com os espectadores”, declarou. Tendler é autor de longa-metragens como Os Anos JK – Uma trajetória política (1980), Jango (1984), Castro Alves – Retrato falado do poeta (1998) e Glauber – Labirinto do Brasil(2002).
http://www.terramar.org.br/oktiva.net/1320/nota/57093
MILTON SANTOS: POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO (LIVRO)
Délio Mendes
Para o mundo intelectual brasileiro entrou em encantamento um dos seus principais pensadores. E se encantou em plena produção, no seu momento mais fértil. Produzia uma crítica à globalização considerando que a mesma tem sido levada a efeito do ponto de vista do capital financeiro. Propunha uma outra globalização. Intelectual estudioso do espaço e do tempo, compreendeu, em seu tempo, o espaço como produção do homem na relação com a totalidade da natureza e a intermediação da técnica. Técnica que corresponde a um tempo determinado pela produção dos homens. Homem do seu tempo, Milton Santos se fez presente em todos os grandes embates intelectuais da última metade do século passado. O seu tempo e o seu espaço foram o tempo e o espaço da globalização. Que ele queria que fosse outra. Ou melhor, a outra, a globalização de todos os excluídos, resgatados em uma sinfonia de humanização. Milton se fez maestro da paz e da felicidade. Felicidade de todos. Buscou uma globalização que unisse todas as mulheres e todos os homens, sob égide do encontro.
Conheci Milton, no Recife, em 1978, quando estava às voltas com Pobreza urbana. Inovava ao compreender o mundo formal e informal, como duas faces de um circuito comandado desde a acumulação ampliada do capital.[1] Inovava e agitava. Milton era, sobretudo, um agitador. Agitador de idéias, no melhor sentido de um intelectual da sua estatura. Avesso aos partidarismos, falava da isenção do intelectual para exercitar a crítica. Por isso, sempre esteve radicalmente ao lado do seu povo. Em Pobreza urbana se faz crítico de um debate sobre a desigualdade que se presta, mais e muito mais, à louvação mesquinha de intelectuais vazios entre si, do que a colocação correta e crítica dos grandes problemas da exclusão. “Indubitavelmente, o tom de certos trabalhos, nos quais o jogo conhecido das referências recíprocas entre autores "freqüentemente substitui uma análise dos fatos, tem contribuído para a perpetuação do debate, que, embora pretenda atacar o problema em profundidade, perde-se numa guerrilha semântica confusa.”[2] Esta crítica direta acompanha uma análise da produção intelectual da pobreza que, segundo Milton, pouco tinha contribuído para a resolução dos problemas da pobreza. Para este jogo de vaidades não se contava com a sua participação.
A história do homem, compreendida como a história da superação, faz do autor de Pobreza urbana, um profeta da evolução. “A história do homem sobre a terra é a história de uma ruptura progressiva entre o homem e o entorno. Esse processo se acelera quando, praticamente ao mesmo tempo, o homem se descobre como indivíduo e inicia a mecanização do Planeta, armando-se de novos instrumentos para poder dominá-lo. A natureza artificializada marca uma grande mudança na história da natureza humana. Hoje, com a tecnociência, alcançamos o estágio supremo dessa evolução.”[3] A visão da técnica, do espaço e do tempo, assume, nesta compreensão, um caráter inovador, na medida em que passa a apreender a dimensão da história, da história de temporalidades técnicas que permite produzir uma sociedade determinada, empregando, de acordo com a técnica predominante, uma certa quantidade de trabalho humano. Milton abre o conceito de território, mostrando-o como o lugar do drama social “Bom, há nessa desordem a oportunidade intelectual de nos deixar ver como o território revela o drama da nação, porque ele é, eu creio, muito mais visível através do território do que por intermédio de qualquer outra instância da sociedade. A minha impressão é que o território, revela as contradições muito mais fortemente.”[4] Da relação técnica, espaço e tempo, revela-se a história, ou melhor, uma outra história, no palco iluminado expresso no território. Esta outra história aponta para as desigualdades. Faz emergir a exclusão da maioria da população concentrada em um território degradado, onde pobres de todas as naturezas lutam contra todos os carecimentos.
Milton se mostra mais crítico no livro recente Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal[5], onde nos aponta para um mundo de difícil percepção por conta da confusão reinante que nos tem levado à perplexidade. Portanto, toma para análise a realidade relacional do ser humano, e a esta realidade relacional perversa atribui os males revelados pelo território. Não aceita explicações mecanicistas pelo seu caráter insuficiente. Atribuindo ao desenrolar da história, capitaneada por determinados segmentos da sociedade, os males que tornam difícil a vida da maioria das mulheres e dos homens. Coloca na base deste processo confuso a tirania do dinheiro e da informação, transcende a Marx, e o dinheiro passa a produzir dinheiro, dominando o mundo da produção de mercadorias. Especulação, financeirização. A globalização é feita menor, sob a égide dos bancos e dos banqueiros, criando uma fábrica de perversidades. “O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes.”[6]
Caminhando no terreno da mais valia global, Por uma outra globalização apreende o papel dos intelectuais. Todos trabalhando a ampliação desta mais valia. Trabalhando para ampliar a produtividade como se este fosse um trabalho abstrato, e não a produção de urna vantagem para o capital.[7] É preciso reconhecer este momento e a sua peculiaridade. A de ser um momento para o capital. E todas as ações movem-se na direção do reproduzir para os ricos. Entretanto, se esta é uma constatação, não é, felizmente, uma fatalidade. Milton nos aponta para um outro conhecimento. Para a possibilidade de conhecer, para a liberdade do ser humano. Para modificar o mundo. Para que o conhecimento se produza no interior da crítica, sem abstrações alienantes, sem reconhecimentos incompletos que produzem falsas compreensões e encobrem os verdadeiros dramas sociais. E assim, pode-se evitar a espera para que cresça o bolo, evitando a indigência de uma quantidade grande de seres humanos.
É o início de uma outra cognoscibilidade do planeta. Um planeta que conta com todas as possibilidades de ser desvendado. Mas, nem sempre o conhecer é possível. A informação nem sempre se propõe a informar, e sim a convencer acerca das possibilidades e das vantagens das mercadorias. "O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde.”[8] A contradição se faz e se refaz na impossibilidade de se produzir, de imediato, uma informação libertadora. A alienação é a face que brota aguda da globalização financeira, da globalização do dinheiro. Encanta-se o mundo. O princípio e o fim são o discurso e a retórica. Então o que fica para o ser comum é a farsa do consumo. Não há referência à transformação do espaço e do tempo. O homem consumidor caminha no espaço do desconhecimento do mundo relacional e do falso e alardeado conhecimento do mundo das mercadorias. O fetiche, como e desde sempre, se realiza no ocultamento do valor de troca e no falso evidenciamento do valor de uso. É a utilidade que aparece, e que é proclamada em todo o universo informacional. Fala-se ao peito sangrando das mulheres e homens que não são consumidores. Para a competitividade, tem-se de chamar os consumidores, tem-se que oferecer o melhor, o mais barato, produzido desde a produtividade aumentada pelo trabalho dos intelectuais. Tudo para melhorar a competitividade.
Para Milton, a competitividade é ausência de compaixão. Tem a guerra como norma, e privilegia sempre os mais fortes em detrimento dos mais fracos. Busca fôlego na economia e despreza os que pensam mais para além. "Para tudo isso, também contribuiu a perda da influência da filosofia na formulação das ciências sociais, cuja interdisciplinaridade acaba por buscar inspiração na economia.”[9] Esta é uma das mais importantes reflexões levadas a efeito no interior de Por uma outra, na medida em que coloca um ponto focal que não é localizado costumeiramente no campo da ideologia. Cientistas sociais dos mais diferentes matizes sucumbem aos encantos da facilidade dos números e do falso realismo de uma formulação econômica ideologizada, que esquece os seres humanos e os substitui pelas equações e as tabelas estatísticas que ilusionam os dirigentes e metem medo a todos os que não querem padecer no inferno apontado pelos proclamadores da nova única. Se não aceitas as premissas e as evidências das projeções estatísticas da nova única, serás responsável pelo caos que há de vir.
Empobrece a ciência social em geral, nada para além da numerologia estatística. Investir nos setores sociais acarreta um custo que o capital não se propõe a pagar, e a ciência se curva, entra em letargia, deixa o mundo nas mãos dos economistas que vão levá-lo adiante de mãos com a lógica da relação produto capital e da competitividade. A ciência humana se faz pobre para interpretar um mundo confuso e conturbado e, desde logo, tudo a ciência econômica. Este enfoque modernoso atinge por caminhos nunca dantes navegados a maioria das falas e dos discursos. Grandes farsas são inventadas e reinventadas. O privilégio continua privilegiando o privilegiado. "Os atores mais poderosos se reservam os melhores pedaços do território.”[10] Inclusive do território do pensar para impedir o pensar. Apoderam-se das mentes e dos corações e, por conseqüência, das vidas no pleno movimento da vivência. Tudo isto no mundo da competitividade. A competitividade revela a essência do território, os lugares apontam para as lutas sociais, trazendo a tona virtudes e fraquezas dos atores da vida política e da sociedade.
A cidadania se torna menor do que sua percepção. O cidadão pretende transcender o seu espaço primitivo. Todavia, o mundo, expresso desigualmente, não tem como regular os lugares em suas diversidades e, por conseqüência, a cidadania se faz menor. A desigualdade aponta a impossibilidade da generalização da cidadania. O espaço é esquizofrênico na expressão da exclusão social. Uns homens sentem-se mais cidadãos do que outros. Mas estes homens são apenas consumidores, pois a cidadania depende de sua generalização. Não existem cidadãos num mundo apartado. Não se é cidadão em um espaço onde todos não o são. São consumidores os que expressam direitos e deveres no âmbito do mercado e não no âmbito do espaço público, onde a política é realizada e o poder distribuído. Portanto, este é um mundo de alguns consumidores e poucos, pouquíssimos cidadãos. É preciso construir a cidadania.
A transição (conclusão)
O novo nasce sem que se perceba. Quase na sombra, o mundo muda de maneira imperceptível, todavia constante. Neste início de século, temos a consciência de que estamos vivendo uma nova realidade. As transformações atuais colocam os homens em permanente estado de perplexidade. A poluição e a desertificação se alastram, a super população e as tecno-epidemias etc., tornam o mundo diverso negativamente. A pobreza e a desigualdade, são produtos desta forma da produção do modo civilizatório capitalista. Este novo apresenta diferentes faces. Tudo isto como conseqüência da desestruturação da ordem industrial. O atual período histórico não é apenas a continuação do capitalismo ocidental, é mais. Melhor, é muito mais, é a transição para uma nova civilização. Esta transição que está em curso é preocupante para determinadas sociedades, desprotegidas na guerra das nações pela primazia na história
Milton chama atenção para esta realidade. "No caso do mundo atual, temos a consciência de viver um novo período, mas o novo que mais facilmente apreende-se diz respeito à utilização de formidáveis recursos da técnica e da ciência pelas novas formas do grande capital, apoiado por formas institucionais igualmente novas. Não se pode dizer que a globalização seja, semelhante às ondas anteriores, nem mesmo uma continuação do que havia antes, exatamente porque as condições de sua realização mudaram radicalmente. É somente agora que a humanidade está podendo contar com essa nova realidade técnica, providenciada pelo que se está chamando de técnica informacional. Chegamos a um outro século e o homem, por meio dos avanços da ciência, produz um sistema de técnicas da informação. Estas passam a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando a presença planetária desse novo sistema técnico."[11]
É necessário, para compreender esse novo, o conhecimento de dois elementos fundamentais na formação social das nações: a formação técnica e a formação política. Uma permite a compreensão dos elementos tecnológicos que formam as composições necessárias à produção, e a outra indica que setores serão privilegiados com a organização possível da produção. “Na prática social, sistemas técnicos e sistemas políticos se confundem e é por meio das combinações então possíveis e da escolha dos momentos e lugares de seu uso que a história e a geografia se fazem e refazem continuamente.”[12] Desde esta compreensão, esta nova sociedade pode, inclusive, abrir uma nova época com a colocação de um novo paradigma social. Este paradigma pode ser posto como: a superação da nação ativa pela nação passiva.
Ou melhor, voltando ao velho Marx: a nação em si é superada pela nação para si. Para isto, é necessário que o velho/novo mundo periférico retome um projeto político de independência, fora dos moldes de projetos como o Mercosul, que nada mais representam do que a dependência em bloco, na medida em que este tipo de associação só serve à subserviência coletiva, levando grupos de países periféricos a deixar de submeterem-se isoladamente, para cair em bloco nos ardis do capital financeiro.
Finalmente, utilizando a dialética como referência, Milton mostra a batalha travada entre a nação passiva e a nação ativa, em uma transição política que envolve todos os espaços do viver, desde o espaço da vida cotidiana. A nação ativa, ligada aos interesses da globalização perversa, nada cria, nada contribui para a formação do mundo da felicidade, ao contrário da outra nação dita passiva que, a cada momento, cria e recria, em condições adversas, o novo jeito de produzir o espaço social, mostrando que a atual forma de globalização não é irreversível e a utopia é pertinente. ” É somente a partir dessa constatação, fundada na história real do nosso tempo, que se torna possível retomar, de maneira concreta, a idéia de utopia e de projeto.”[13] Desde esta compreensão, a globalização é um projeto irreversível da humanidade. Entretanto, não é esta a globalização desejada, e sim uma outra, a de todos.
Sobre o livro: SANTOS, Milton. Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal. São Pauto: Record, 2000. [1]SANTOS, Milton (1978) Pobreza urbana, Hucitec/UFPE/CNPU, São Paulo, Recife.
[2]SANTOS, Milton, Pobreza urbana, op. cit. p.29.
[3]SANTOS, Milton (1994), Técnica espaço tempo, Hucitec, São Paulo, p. 17.
[4]SANTOS, Milton (2000) Entrevista com SEABRA, Odete, CARVALHO, Mônica e LEITE, José Corrêa, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, p. 21.
[5]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal, Record, São Paulo.
[6]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 19
[7]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 31
[8]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 39
[9]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 47
[10] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 79.
[11] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 142.
[12] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 142
[13] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 160
http://www.fundaj.gov.br/observanordeste/obex02.html
SER NEGRO NO BRASIL POR MILTON SANTOS
Ética enviesada da sociedade branca desvia enfrentamento do problema negro
Milton Santos
http://www.ige.unicamp.br/~lmelgaco/santos.htm
Há uma frequente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar, também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é, conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador. Desse modo, tivemos a experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas. Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos (paradoxalmente contra as vítimas). Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.
500 anos de culpa
Agora, chega o ano 2000 e a necessidade de celebrar conjuntamente a construção unitária da nação. Então é ao menos preciso renovar o discurso nacional racialista. Moral da história: 500 anos de culpa, 1 ano de desculpa. Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a Igreja Católica! O próprio presidente da República considera-se quitado porque nomeou um bravo general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira. Por enquanto, para o ministro da Educação, basta que continuem a frequentar as piores escolas e, para o ministro da Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas. A questão não é tratada eticamente. Faltam muitas coisas para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais e alcançar uma ação política consequente. Ou os negros deverão esperar mais outro século para obter o direito a uma participação plena na vida nacional? Que outras reflexões podem ser feitas, quando se aproxima o aniversário da Abolição da Escravatura, uma dessas datas nas quais os negros brasileiros são autorizados a fazer, de forma pública, mas quase solitária, sua catarse anual?
Hipocrisia permanente
No caso do Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca dominante reage, quando o tema é a existência, no país, de um problema negro. Essa equivocação é, também, duplicidade e pode ser resumida no pensamento de autores como Florestan Fernandes e Octavio Ianni, para quem, entre nós, feio não é ter preconceito de cor, mas manifestá-lo. Desse modo, toda discussão ou enfrentamento do problema torna-se uma situação escorregadia, sobretudo quando o problema social e moral é substituído por referências ao dicionário. Veja-se o tempo politicamente jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e quejandos, com os inevitáveis apelos à comparação com os norte-americanos e europeus. Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é? Talvez seja esse um dos traços marcantes dessa problemática: a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial cuja definição é, desde a base, viciada. Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambiguidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições. Tais refrões cansativos tornam-se irritantes, sobretudo para os que nele se encontram como parte ativa, não apenas como testemunha. Há, sempre, o risco de cair na armadilha da emoção desbragada e não tratar do assunto de maneira adequada e sistêmica.
Marcas visíveis
Que fazer? Cremos que a discussão desse problema poderia partir de três dados de base: a corporeidade, a individualidade e a cidadania. A corporeidade implica dados objetivos, ainda que sua interpretação possa ser subjetiva; a individualidade inclui dados subjetivos, ainda que possa ser discutida objetivamente. Com a verdadeira cidadania, cada qual é o igual de todos os outros e a força do indivíduo, seja ele quem for, iguala-se à força do Estado ou de outra qualquer forma de poder: a cidadania define-se teoricamente por franquias políticas, de que se pode efetivamente dispor, acima e além da corporeidade e da individualidade, mas, na prática brasileira, ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social.
Costuma-se dizer que uma diferença entre os Estados Unidos e o Brasil é que lá existe uma linha de cor e aqui não. Em si mesma, essa distinção é pouco mais do que alegórica, pois não podemos aqui inventar essa famosa linha de cor. Mas a verdade é que, no caso brasileiro, o corpo da pessoa também se impõe como uma marca visível e é frequente privilegiar a aparência como condição primeira de objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro. Então, a própria subjetividade e a dos demais esbarram no dado ostensivo da corporeidade cuja avaliação, no entanto, é preconceituosa.
A individualidade é uma conquista demorada e sofrida, formada de heranças e aquisições culturais, de atitudes aprendidas e inventadas e de formas de agir e de reagir, uma construção que, ao mesmo tempo, é social, emocional e intelectual, mas constitui um patrimônio privado, cujo valor intrínseco não muda a avaliação extrínseca, nem a valoração objetiva da pessoa, diante de outro olhar. No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da socialidade e da sociabilidade.
Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro -imagem fácil- e não as minhas aquisições intelectuais, após uma vida longa e produtiva. Sem dúvida, o homem é o seu corpo, a sua consciência, a sua socialidade, o que inclui sua cidadania. Mas a conquista, por cada um, da consciência não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da cidadania. Talvez seja essa uma das razões pelas quais, no Brasil, o debate sobre os negros é prisioneiro de uma ética enviesada. E esta seria mais uma manifestação da ambiguidade a que já nos referimos, cuja primeira consequência é esvaziar o debate de sua gravidade e de seu conteúdo nacional.
Olhar enviesado
Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel frequentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em "faits-divers", em lugar de aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega.
Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver "subido na vida".
Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil.
Artigo escrito por Milton Santos, geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
Fonte: Folha de S.Paulo - Mais - brasil 501 d.c. - 07 de maio de 2000
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sábado, 28 de junho de 2008

LIVRO:
"Economia Espacial:
Críticas e
Alternativas"
MILTON SANTOS
Muitas teorias subjacentes ao planejamento constituem instrumentos para a preservação do sistema econômico e da estrutura de classes vigentes nos países subdesenvolvidos. Essas teorias, postas a serviço do capital, especialmente do grande capital internacional, têm-se mostrado indiferentes á sorte da grande maioria das populações desses países. Nos ensaios reunidos neste volume, Milton Santos, além de fazer uma crítica sistemática às referidas teorias, procura apresentar alternativas fundadas nas especificidades e nos interesses dessas populações.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
"ENCONTRO COM MILTON SANTOS" FILME - é hoje!!!

Mostra de Mídia Independente - filme Encontro com Milton Santos
Início:29/05/2008 - 19:00
Término:29/05/2008 - 22:00
Timezone: Etc/GMT
Na próxima quinta-feira, dia 29/05, às 19 horas, tem a MOSTRA DE MÍDIAINDEPENDENTE, no Espaço Impróprio.
Esse mês será exibido o filme "Encontro com Milton Santos" ou "O mundo global visto do lado de cá" e aborda a questão da globalização e seusefeitos em diversos países e cidades do planeta.
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/05/420569.shtml
o ESPAÇO IMPRÓPRIO
segunda-feira, 31 de março de 2008
sábado, 15 de março de 2008
respostas de
Milton Santos
à globalização
15 de Agosto de 2007
O documentário "Encontro com Milton Santos ou: O Mundo Global Visto do Lado de Cá", dirigido por Silvio Tendler, com estréia prevista para o dia 17, retrata um dos principais intelectuais brasileiros e aponta a necessidade de uma outra globalização.
Neto de escravos e filho de professores, Milton Santos (1926-2001) foi alfabetizado em casa pelos pais. Formado em direito, jornalista de profissão, foi para a França em 1958 quando se tornou doutor em geografia. Publicou 40 livros e assinou centenas de artigos. Morou e lecionou na França, Tanzânia, Venezuela, Estados Unidos e Canadá. Em 1978 voltou ao Brasil e na década de 90 se tornou uma das principais referências contra o neoliberalismo.
No documentário, Milton Santos, que se intitula o “intelectual outsider”, por não responde por partidos nem grupos acadêmicos, explica que a informação é o coração da globalização. É através dos sistemas de comunicação que as grandes empresas estabelecem atualmente seus domínios. Mas é também através da comunicação que pode se dar a mudança rumo a um futuro mais humano.
O filme, que aborda a globalização sob uma perspectiva periférica, tem como base uma entrevista de Milton Santos meses antes de sua morte, em janeiro de 2000, a Silvio Tendler, diretor de Jango, Josué de Castro Cidadão do Mundo, entre outros. O documentário foi vencedor pelo Júri Popular no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2006.
Em entrevista a Fórum, Silvio Tendler fala sobre a construção do documentário. Ele aponta ainda que, inspirado no geógrafo, considera que a resposta à concentração da comunicação está nos países periféricos e nos pobres de cada país.
FÓRUM- Como você conheceu o professor Milton Santos?
Silvio Tendler - Em 1995. Estava fazendo o filme; Josué de Castro, cidadão do mundo e discutindo fome e cidadania. A filha do Josué, a Ana Maria, falou que eu precisava entrevistar o Milton Santos, porque ele tinha acabado de ganhar o maior prêmio de geografia do mundo, o Prêmio Vautrin Lud. Fui à França, e consegui uma entrevista brilhante, e acabamos criando um vínculo. Em 1999, ele vinha ao Rio dar uma conferência sobre “Globalização Planetária”, Preparei para filmar a conferência. Quando soube que ele a tinha cancelado, por problemas de saúde, pensei: “é agora ou nunca”. Resolvi agendar uma entrevista. No começo de 2000, fizemos a entrevista. Ele estava um pouco doente, mas foi longa e maravilhosa. Serve como base do documentário Encontro com Milton Santos Ou: O Mundo Global Visto do Lado de Cá, mas também fará parte de um filme que estou fazendo chamado Utopia e Barbárie.
FÓRUM- No documentário, a opção é por intercalar falas de Milton Santos e imagens de acontecimentos recentes na América Latina, África e Oriente Médio. Por que?
Tendler - É a construção do diálogo. O documentário não é sobre o pensamento do Milton Santos é a construção de um diálogo entre eu e ele. Uma construção minha sobre palavras dele, sobre as quais fui buscando na realidade exemplos concretos do que ele falava. Milton Santos me propiciou ver o mundo com olhos que não via até o momento de conhecê-lo. Na entrevista, em 1995, o mundo estava em plena euforia da globalização, e ele me disse: “Isso não vai dar certo”. O motivo: “Porque não vai ter para todo mundo”. Eu classe média, engasguei na época e depois de um tempo entendi. Quando o entrevistei em 2000, ele faz um diagnóstico das coisas que estão acontecendo.
FÓRUM- Na entrevista, Milton Santos explica que a informação é o coração da globalização. Assim como o professor, o senhor acredita que a democratização da comunicação pode modificar os rumos do mundo?
Tendler - É o grande nó da questão. Hoje, temos mais ruído do que informação. Há uma grande concentração das empresas de comunicação em mãos de companhias mobilizadas pelo capital financeiro. Milton Santos acredita que a resposta a isso virá dos de baixo, daqueles que não tem compromisso com este sistema. Eu traduzo como: a resposta virá dos jovens com câmeras digitais que fazem rap, hip-hop etc. Em certo momento da entrevista, perguntei o que lhe dava tanta certeza de que aquilo que dizia iria repercutir. Ele olhou para câmera e disse: “Você”. Ele falou isso em 2000, hoje existem grupos que fazem cinema com uma câmera digital, gravam suas músicas nos computadores e distribuem pela internet. Tenho 57 anos, minha geração, que tentou mudar o mundo, é da classe média. É a geração, que resistiu ao golpe de 1964 com arte e cultura. Fui cevado nessa cultura, ouvindo “Opinião”, indo ao Teatro Oficina e assistindo os filmes do Cinema Novo. Atualmente, quem faz o movimento de contestação são os movimentos sociais, a periferia, não é mais a classe média. A resposta, como diz Milton Santos, virá dos países periféricos do mundo e dos pobres de cada país. A classe média não tem porque lutar além de manter seu status. Está prensada entre seu poder e o desejo de não despencar.
* por Brunna Rosa
Revista Fórum
http://blog.controversia.com.br/2007/08/15/tendler-e-as-respostas-de-milton-santos-a-globalizacao/
sábado, 19 de janeiro de 2008

A classe média ferida de morte nos seus interesses é um dado novo da vida social -
O chamado milagre econômico brasileiro foi acompanhado de muitas "explosões", dentre elas um crescimento contínuo das classes médias, primeiro nas grandes cidades e depois nas cidades menores e no campo modernizado. Como essa expansão foi acelerada, é lícito falar em explosão das classes médias, que, neste meio século, acompanha a explosão demográfica, a explosão urbana e a explosão do consumo e do crédito.
Esse conjunto de fenômenos tem relação com o aumento da produção industrial e agrícola, como também do comércio, dos transportes, das trocas de todos os tipos, das obras públicas, da administração e da necessidade de informação. Há, paralelamente, uma expansão e diversificação do emprego, ainda que uma parcela importante dos que se dirigiram às cidades não pudesse ser assalariado formal, só encontrando trabalho no circuito inferior da economia.
Um sentimento de segurança é infundido na classe média pelos programas governamentais que lhe facilitam a aquisição da casa própria, programas de que foram os beneficiários privilegiados, enquanto os brasileiros mais pobres apenas foram incompletamente atendidos nos últimos anos do regime autoritário.
Vale realçar que no Brasil do milagre, e durante boa parte dos anos 80, a classe média se expandiu e se desenvolveu sem que houvesse verdadeira competição dentro dela quanto ao uso dos recursos que o mercado ou o Estado lhe ofereciam para a melhoria do seu poder aquisitivo e do seu bem-estar material. Daí a sua relativa coesão e a consciência de haver tornado um poderoso estamento. A competição é, na realidade, com os pobres, cujo acesso aos bens e serviços torna-se cada vez mais difícil, na medida em que estes se multiplicam e diversificam. A classe média é a grande beneficiária do crescimento econômico, do modelo político e dos projetos urbanísticos adotados.
Tudo o que alimenta a classe média dá-lhe, também, um sentimento de inclusão no sistema político e econômico e um sentimento de segurança, estimulado pelas constantes medidas do poder público em seu favor. Tratava-se, na realidade, de uma moeda de troca, já que a classe média constituía uma base de apoio às ações do governo. Tal classe média, ao mesmo tempo em que se diversifica profissionalmente, aumenta o seu poder aquisitivo e melhora qualitativamente, por meio das oportunidades de educação que lhe são abertas, tudo isso levando à ampliação do seu bem-estar (o que hoje se chama de qualidade de vida), conduzindo-a a acreditar na garantia de preservação das suas vantagens e perspectivas.
Forma-se, dessa maneira, uma classe média mais apegada ao consumo que à cidadania, sócia despreocupada do crescimento e do poder, com os quais se confundia. Eram essas, aliás, condições necessárias a um crescimento econômico sem democracia. Quando esta se instala incompletamente nos anos 80, guarda esses vícios de origem, sustentando um regime representativo falsificado pela ausência de partidos políticos consequentes. Seguindo essa lógica, as próprias esquerdas são levadas a dar mais espaço às preocupações eleitorais e menos à pedagogia propriamente política.
Tal situação tende agora a mudar, quando a classe média começa a conhecer a experiência da escassez, o que poderá levá-la a uma reinterpretação de sua situação. Nos anos recentes, primeiro de forma lenta ou esporádica e já agora de modo mais sistemático e continuado, a classe média conhece dificuldades que lhe apontam uma situação existencial bem diferente daquela que conhecera há poucos anos. (...) leia mais em:

MILTON SANTOS
"Cláudio Cordovil" pergunta para "Prof.Milton Santos":
- O senhor fala da sabedoria da escassez...
"Prof.Milton Santos" responde:
Exatamente. Fui buscar esse conceito em Sartre, quando ele fala da escassez que joga uma pessoa contra a outra na disputa pelo que é limitado. Essa experiência da escassez é que faz a ponte entre a necessidade e o entendimento. Como a escassez sempre vai mudando, devido a aceleração contemporânea, o pobre acaba descobrindo que não vai nunca morar na Ipanema da novela, que jamais vai alcançar aquelas coisas bonitas que vê. Ele continua vendo, mas está seguro hoje de que não as alcançará. Gostaria de dizer que a classe média já começa a conhecer a experiência da escassez. E isso pode ser bom. Como a classe média, na sua formação, tem uma capacidade de codificação maior, isso vai nos levar a uma precipitação do movimento social, da produção da consciência, ainda que seja de uma maneira incompleta.(...)
sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A FILOSOFIA
Um filósofo da geografia
Eu digo isso com sinceridade porque o conheci quando ele veio da Bahia como advogado e professor secundário de geografia. Tivemos uma longa convivência.
Ele fez toda a sua trajetória dentro das universidades. Primeiro, na PUC de Salvador, depois na Universidade Federal da Bahia e, depois de 1964, no exílio. Vivendo em condições sofridas, Milton se retirou para a França.
Lá, ele teve a idéia de buscar um estudo seu sobre o centro urbano de Salvador e transformá-lo em uma tese de altíssimo nível. Aí começou a sua carreira internacional, recebendo o espaço que havia sido negado no Brasil.
Uma vez, Milton nos disse que inspirava o seu comportamento no ideário de Jean-Paul Sartre: o intelectual tem que conservar toda a independência imaginável.
Milton foi assim. A sua militância não era a da politica partidária, mas no campo das idéias. Por isso, ele se diferenciou dos demais. Tinha uma energia permanente e se desdobrava em brigas do cotidiano pelas idéias originais.
segunda-feira, 23 de julho de 2007
HOMENS E MULHERES QUE TRANSFORMAM O BRASIL



























