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sexta-feira, 19 de outubro de 2007


DITADORES
ODEIAM BLOGS


Passamos por uma enorme revolução da comunicação,a blogosfera,o conjunto de inúmeros blogs
criam uma rede social hiper democrática,onde todos podem interligar-se.

Desde o cara lá da Cidade Tiradentes, até o de Ipanema,ou do jornalista de topo,até pessoas como eu que pretendem escrever sobre algum tema determinado,como educação democrática,por exemplo! Por isso valorizo e fico perplexa com as possibilidades da blogosfera!!

Em 1976 quando cursava a faculdade,não poderia supor o incrível fenômeno que surgiria décadas mais tarde.Acho incrível também,a oportunidade de troca com pessoas de todas as idades! e sei que seria extraordinário se mais pessoas idosas começassem a escrever sobre suas vidas e se integrassem com os mais jovens! Como aprendi estudando educação democrática:
escrever nossa biografia,ou relembrar as coisas que vivemos e aprendemos,tanto nas escolas,como fora delas,só nos faz bem! Assim como refletir sobre nossa vida na meia idade,nos proporciona fôlego pra vivermos com mais dignidade as últimas décadas de nossas vidas!

Plantar uma árvore,ter um filho e escrever um livro,ou talvez um blog, são fatos que fazem parte da vida da maioria de nós,ou pelo menos poderiam...!

O aspecto fundamental que motivou-me a escrever este texto,foi conhecer o fato de que as pessoas "excluídas",já começam a deixar de serem tão excluídas assim!a "teoria da invisibilidade",descrita no livro "Cabeça de Porco" http://www.objetiva.com.br/objetiva/cs/?q=node/555
lançado em 2005,parece que poderia ser cada vez mais amenizada...pelo menos pela blogosfera,que é um espaço onde todos podem comunicar-se e passarem a ser incluídos,culturalmente e por consequência socialmente!
A cultura Hip-hop,o movimento Afro Reggae, já tem presença certa por aqui! Enfim,graças a união,autonomia,e iniciativa de alguns que abriram caminho para muitos poderem expressarem-se,a web vai cada vez mais se estruturando num meio de comunicação democrático e forte,com suas grossas e bem tramadas teias,que ocupam os vãos da grande rede,a INTERNET.




Nadia Stabile

quarta-feira, 17 de outubro de 2007











DUAS OBRAS DA
LITERATURA MARGINAL:
"QUARTO DE DESPEJO"
E "CIDADE DE DEUS"


"CAROLINA MARIA DE JESUS"
,AUTORA DO LIVRO "QUARTO DE DESPEJO",morava em uma favela, era negra, catadora de papel e mantinha um diário. Descoberta por um repórter, que editou e publicou seus diários no começo da década de 60, ela virou uma celebridade. O livro foi traduzido em diversas línguas (minhas duas edições dizem que foi o maior best-seller brasileiro de todos os tempos) e ela viajou o mundo. Carolina, entretanto, tinha a língua afiada, desagradou a esquerda e a direita, acabou sendo esquecida e morreu na pobreza.
Segundo alguns artigos que li sobre ela, Carolina de Jesus até hoje é um figura incômoda para a elite brasileira, revela sem disfarces nossos preconceitos e injustiça social e, por isso, foi relegada ao segundo plano das letras nacionais. Pode bem ser. Eu sou da elite (acho que sou o único brasileiro que admite que é da elite), me incomodei com o livro e nunca teria ouvido falar dela se não fosse leitura obrigatória pra uma de minhas aulas.Mas foi um tipo bem específico de incômodo, moldado pela forma da minha leitura.(...)http://www.sobresites.com/alexcastro/artigos/quartodedespejo.htm
(...)Em 1958 aparece a primeira reportagem sobre seu diário no jornal Folha da Noite. No ano seguinte, é a vez da revista O Cruzeiro de divulgar o retrato da favela feito por Carolina. Era o aceno do sucesso e da popularidade. O abraço viria em seguida, a partir de 1960.
Publicado pela Livraria Francisco Alves, Quarto de Despejo teve a sua primeira edição de dez mil exemplares esgotada na primeira semana do lançamento. Nove edições foram feitas no Brasil, sem contar a edição de bolso de 1976, um ano antes da morte da autora. O livro foi traduzido para treze línguas e circulou em quarenta países. Carolina Maria de Jesus, a favelada-escritora, passou a ser assunto constante de jornais e revistas nacionais e internacionais, com amplas reportagens em Life, Paris Match, Epoca, Réalité e Time. Esta última compara os oitenta mil exemplares vendidos do livro ao sucesso comercial de Lolita, de Nobokov.(...)
"PAULO LINS",AUTOR DO LIVRO"CIDADE DE DEUS"
Neste seu romance de estréia, Paulo Lins faz um painel das transformações sociais pelas quais passou o conjunto habitacional Cidade de Deus: da pequena criminalidade dos anos 60 à situação de violência generalizada e de domínio do tráfico de drogas dos anos 90. Para redefinir a situação do lugar onde cresceu, Lins usa o termo "neofavela", em oposição à favela antiga, aquela das rodas de samba e da malandragem romântica.
O livro se baseia em fatos reais. Grande parte do material utilizado para escrevê-lo foi coletado durante os oito anos (entre 1986 e 1993) em que o autor trabalhou como assessor de pesquisas antropológicas sobre a criminalidade e as classes populares do Rio de Janeiro.
Cidade de Deus foi saudado como uma das maiores obras da literatura brasileira contemporânea. Um dos principais críticos do país, Roberto Schwarz observou a capacidade do autor de transpor para a literatura uma situação social deteriorada, aliando em sua narrativa a agilidade da ação cinematográfica e o lirismo da poesia. Segundo Schwarz, »o interesse explosivo do assunto, o tamanho da empresa, a sua dificuldade, o ponto de vista interno e diferente, tudo contribuiu para a aventura artística fora do comum«. (informação da editora)
http://novacultura.de/0305paulolins.html








TEORIA

DA
INVISIBILIDADE


literatura marginal:


Livro "Cabeça de Porco"

lançado em 2005

Autores
Celso Athayde
Luiz Eduardo Soares
MV Bill

Este livro reúne três histórias de vida, três cabeças infernizadas pela mesma pergunta: qual é a saída para a violência absurda, a injustiça desumana, a desigualdade degradante em nosso país?
Cabeça de Porco é o resultado de um trabalho em duas fontes: entrevistas e filmagens feitas por MV Bill e seu empresário Celso Athayde nos últimos sete anos em favelas de nove estados brasileiros sobre crianças e jovens que vivem no mundo do crime, suas razões e a dimensão humana de suas vidas. A esta pesquisa original, relatada com a emoção de quem assistiu de perto à situações perigosas, se associam os textos do antropólogo Luiz Eduardo Soares – um conjunto de registros etnográficos sobre juventude, violência e polícia.
Os dois projetos se encontraram, porque os valores e a interpretação dos problemas eram convergentes, e os três autores decidiram completar suas respectivas tarefas com um conjunto de entrevistas qualitativas realizadas em 2003 pelos professores Helio Raimundo Santos Silva e Miriam Guindani.
Celso e MV Bill sintetizaram toda a carga de informações sociais e culturais acumulada por sua pesquisa em narrativas que preferiram escrever em primeira pessoa, para enriquecer suas descrições com os sentimentos vividos e as interpretações que as experiências suscitaram. Em diálogo permanente com os co-autores, Luiz Eduardo teceu a rede dos textos, procurando combinar interpretações com retratos os mais fiéis possíveis de cenas vividas por um sem-número de personagens, todos verdadeiros, imersos em situações reais – ainda que sob nomes fictícios e em cenários ligeiramente alterados para lhes resguardar as identidades, como determina a ética de toda pesquisa social. Em alguns casos, não se furtou a reconhecer que era ele mesmo o protagonista. Tomou sua passagem por governos como oportunidades para observação e registro de episódios reveladores do funcionamento subjetivo e social da violência e da insegurança pública.
O propósito do livro é traçar um painel realista sobre a violência instalada no Brasil. A intenção não é denunciar. É compartilhar com os leitores preocupações e reflexões, na perspectiva de manter viva a esperança.
Os autores não gostariam que este fosse considerado um livro sobre o crime e a violência, melancólico e bonito como flores na sepultura. Desejam que ele seja lido e usado como uma ferramenta cheia de vida a serviço da construção das saídas. Segundo Luiz Eduardo "não há, entre nós, dogmas ou disputas pela verdade (...) o livro revela o que temos de semelhante, nossa sensibilidade para enxergar esse universo, e não as nossas diferenças socioeconômicas."
Luiz Eduardo Soares é cientista social e antropólogo. Participou do governo do Estado do Rio, de janeiro de 1999 a março de 2000, na condição de subsecretário de segurança pública e coordenador de segurança, justiça e cidadania. Colaborou com o governo municipal de Porto Alegre, de março a dezembro de 2001 como consultor responsável pela formulação de uma política municipal de segurança. Foi secretário nacional de segurança pública, do governo federal, de janeiro a outubro de 2003, iniciando a implantação do plano nacional de que foi um dos fundadores. Em 2000 foi pesquisador visitante sobre o mesmo tema no Vera Institute of Justice de Nova York e da Columbia University. Atualmente é professor da UERJ e diretor do Instituto pela Promoção do Sistema único de Segurança Pública. Tem 10 livros publicados, entre eles o romance "Experimento de Avelar", premiado pela Associação de Críticos Brasileiros em 96, e "Meu Casaco de General", finalista do Jabuti em 2000, onde relatou sua experiência na coordenação de segurança pública no Rio de Janeiro.
MV Bill é carioca da Cidade de Deus, onde mora até hoje. Com um repertório musical marcado pela denúncia social e política, tornou-se um dos mais famosos e respeitados rappers do país. Recebeu vários prêmios por sua atuação no movimento hip-hop, como o destaque do ano da Unicef em 2004 e, em 2003, como um dos rappers mais politizados dos últimos dez anos, prêmio também concedido pela Unicef. No Fórum Mundial das Culturas, em Barcelona, em 2003, recebeu das Nações Unidas um documento que o consagro, junto a artistas de vários países, como Cidadão do Mundo.
Celso Athayde é um dos mais atuantes empresários de rap e hip-hop do país e um dos fundadores da CUFA (Central Única de Favelas).


http://www.objetiva.com.br/objetiva/cs/?q=node/555






















FERRÉZ ORGANIZA COLETANEA

“LITERATURA MARGINAL” EM LIVRO.
Por Alessandro Buzo

Chegou as livrarias de todo o país o livro LITERATURA MARGINAL que é organizado pelo escritor Ferréz e traz contos de 10 autores, Preto Ghóez, Eduardo Dum Dum (Facção Central), Dona Laura, Gato Preto, Ridson, Mauricio Marques, Santos da Rosa, Alessandro Buzo, Luiz Alberto Mendes e Erton Moraes, alguns deles com livros próprios lançados e outros não, mas como diz na capa do livro: TALENTOS DA ESCRITA PERIFÉRICA.
- Quem quiser ler a vanguarda da literatura real da periferia, está no Literatura Marginal, é a nata. Disse Ferréz em entrevista para o site/blog SUBURBANO CONVICTO (
www.suburbanoconvicto.blogger.com.br). (Confira logo abaixo)
Eu mesmo, Alessandro Buzo sinto muito orgulho de estar nesse livro que com certeza é um marco na literatura dos que vivem a margem da socidade.
O organizador da obra “Ferréz” tem 4 livros publicados, são eles, Fortaleza da Desilusão (poesia), Capão Pecado (romance), Manual Pratico do Ódio (romance) e Amanhecer Esmeralda (infantil). Planeja lançar seu primeiro livro “não ficção em 2006”.
Dos autores do LM tem eu Alessandro Buzo que lancei dois livros, O TREM – BASEADO EM FATOS REAIS (2000) e SUBURBANO CONVICTO – O COTIDIANO DO ITAIM PAULISTA (2004) e em Outubro próximo lanço meu terceiro: O TREM – CONTESTANDO A VERSÃO OFICIAL.
Luiz Alberto Mendes tem lançado o sucesso: MEMÓRIAS DE UM SOBREVIVENTE e uma segunda obra intitulada: TESÃO E PRAZER – MEMÓRIAS ERÓTICAS DE UM PRISIONEIRO.
Erton Moraes tem o livro: O DEDO NA GARGANTA DA IDÉIA (independente).
Eduardo e Dum Dum são rappers do grupo Facção Central e Gato Preto rapper do grupo A FAMILIA, e integrou a turma do rapper G.O.G. um dos mais politizados rappers nacionais.
Os demais autores são talentos da literatura e com certeza em breve estarão com suas obras lançadas.
O livro LITERATURA MARGINAL é importantíssimo porque foi lançado pela EDITORA AGIR, uma das grandes do mercado com distribuição nacional.
Ferréz segue seus projetos e no momento se orgulha de ver suas obras sendo lançadas na Europa, Capão Pecado foi lançado em Portugal, agora será a vez do Manual Pratico do Ódio, na seqüência vem Espanha e França.
Com isso Ferréz começa a abrir as portas para outros escritores periféricos, mostrando que todo sonho é possível.
Manual Pratico do Ódio por exemplo vai ser o primeiro livro do Ferréz que vai virar filme do cinema nacional, dirigido por Antonio Pinto e Daniela Tomas.
São projetos que fazem com que críticos do hip hop e da literatura marginal como o “escritor burgues” MARCELO MIRISOLA e o maestro JULIO MEDAGLIA se mordam de raiva e ódio, não adianta criticar, a gente faz literatura, musica, cinema e a porra toda, como disse Ferréz na entrevista citada ao site SUBURBANO CONVICTO.
Ninguém segura os talentos periféricos.

Alessandro Buzo

http://www.rapnacional.com.br/destaque.asp?id=45
www.suburbanoconvicto.blogger.com.br
alessandrobuzo@terra.com.br

Dialética da marginalidade -
caracterização da cultura
brasileira contemporânea
Por João Cezar de Castro Rocha 02/03/2004 às 14:01
especial para a Folha

CONCEITO DE MALANDRAGEM DESENVOLVIDO POR ANTONIO CANDIDO E ROBERTO DAMATTA ENVELHECEU E FOI ATROPELADO PELA VIOLÊNCIA QUE ATINGE TODA A SOCIEDADE

Hoje, 29 de fevereiro, o cinema brasileiro vive um momento histórico com o feito inédito da indicação do filme dirigido por Fernando Meirelles, "Cidade de Deus", para concorrer ao Oscar em quatro categorias: direção, roteiro adaptado, montagem, fotografia. A ocasião deve ser festejada, pois confirma o alto nível técnico alcançado pelas produções nacionais. Na saga do crime organizado, descrita com mão firme por Paulo Lins no romance "Cidade de Deus" [Cia. das Letras], a brutalidade da violência de Zé Pequeno esclarece que a caracterização da cultura brasileira contemporânea exige novos modelos de análise, capazes de estimular uma outra leitura do filme. De igual modo, em 1962, o cinema brasileiro vivia um momento dos mais importantes em termos de reconhecimento internacional, ao conquistar a Palma de Ouro em Cannes, com "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte -indicado no mesmo ano ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Na cortante história de Dias Gomes, por efeito de contraste, a ingenuidade interiorana da crença de Zé do Burro assinalava a complexidade da vida urbana, tema que se impunha no Brasil, na segunda metade do século 20. Na saga do pagador de promessas, o deslocamento do campo para a cidade é expresso não somente na morte de Zé do Burro, mas também na atração que sua mulher Rosa sente por uma personagem tipicamente urbana, o malandro Bonitão. Esses dois filmes favorecem um paralelo intrigante: do ponto de vista social, não poderia ser maior a distância entre as personagens Zé Pequeno e Zé do Burro. De um lado, o criminoso e sua brutalidade, aterrorizando a todos os espectadores, precisamente pela proximidade com o cotidiano, como se o horror da ação na tela pudesse ser reencontrado na próxima esquina. De outro lado, o camponês e sua simples fé, cativando a todos os espectadores, precisamente pelo caráter anacrônico de que se reveste, como se o passado projetasse uma sombra melancólica no dia-a-dia da cidade de Salvador. Como compreender a distância entre esses dois momentos históricos? Neste ensaio, busco identificar um fenômeno que tem ocorrido nos últimos anos e cujas conseqüências ainda não se podem avaliar plenamente, pois se acha em curso. Porém tal fenômeno deverá provocar uma mudança radical na imagem da cultura brasileira. Refiro-me à passagem da "dialética da malandragem" ao que chamo de "dialética da marginalidade". Para ser mais exato, refiro-me ao choque entre essas duas formas de compreender o país. A meu ver, a cultura brasileira contemporânea tornou-se o palco de uma sutil disputa simbólica. De um lado, propõe-se a crítica certeira da desigualdade social -o caso, entre tantos, do romance "Cidade de Deus", da música dos Racionais MC's, dos romances de Ferréz, "Capão Pecado" [ed. Labortexto] e "Manual Prático do Ódio" [ed. Objetiva]. De outro lado, e ainda que à revelia de seus realizadores, acredita-se no retorno à velha ordem da conciliação das diferenças -o caso, por exemplo, do filme "Cidade de Deus" e do seriado da TV Globo "Cidade dos Homens". Antes de explorar essa disputa simbólica, retornemos ao ano da premiação da saga de Zé do Burro, cuja mescla de obstinação e subserviência foi intuída por Elizabeth Bishop. O trecho é longo, mas indispensável: "Qualquer pessoa em visita ao Brasil concordaria que os brasileiros, os cidadãos comuns, são um povo maravilhoso, alegre, gentil, espirituoso e paciente -de uma inacreditável paciência. Vê-los esperar em filas por horas, literalmente por horas, em filas cujo ziguezague, esticado, equivaleria a duas ou três quadras, só para embarcar num ônibus avariado e dirigido da maneira mais imprudente com destino a suas minúsculas casas de subúrbio, onde as ruas provavelmente ainda aguardam conserto e o lixo não foi recolhido, onde talvez esteja até faltando água -ver isso é assombrar-se com tamanha paciência. Outros povos sob provações semelhantes sem dúvida fariam uma revolução por mês". Essa surpreendente avaliação do povo brasileiro se encontra no parágrafo final de um livro que a poeta buscou esquecer: "Brazil", escrito para a coleção World Library da revista norte-americana "Life". Dois anos após suas proféticas palavras, o golpe militar se travestiu de revolução, instalando a ditadura que controlou o país por duas décadas. Elizabeth Bishop vislumbrou perfeitamente o alvo, mas acreditou demais na proverbial paciência brasileira. Se pudesse reescrever o trecho, provavelmente abandonaria a caracterização macunaímica do povo feliz, embora à espera do nada. Uma nação de Pedros pedreiros esperando um trem que nunca sairia da estação. Ora, os ônibus continuam sendo dirigidos por pilotos do caos urbano; as filas aumentam ecumenicamente, incluindo a dos bancos, dos postos de saúde e das inscrições para os escassos empregos públicos; os bairros de subúrbio permanecem uma distante realidade para os donos do poder. Em suma, no tocante ao respeito pela cidadania das camadas menos favorecidas, 1962 e 2004 são apenas números diferentes. Entretanto hoje os pedreiros estão desempregados, e a hipótese de a estação nunca ter existido deixou de ser um pesadelo kafkiano para transformar-se no surrealismo do nosso cotidiano. Por fim, a violência substituiu a decantada paciência na caracterização da cultura brasileira contemporânea: Zé Pequeno tomou o lugar de Zé do Burro, não resta dúvida. Por isso mesmo, nas últimas décadas, uma sensação crescente de desconforto e de insegurança se tornou parte do dia-a-dia nas grandes cidades brasileiras. Condomínios fechados e carros particulares blindados expressam a reação dos mais privilegiados à realidade dos seqüestros-relâmpago; da neofavela como entreposto do tráfico internacional de drogas; dos comandos do crime organizado aterrorizando bairros de classe média como fazem há décadas nas áreas da periferia. O repertório é variado, pois não deve ser à toa que criminalidade rima com criatividade. Já os órgãos de segurança pública não conhecem rima e muito menos soluções para o problema. Em alguma medida, a chave reside na elaboração de um novo modelo de estudo. Afinal, a análise crítica somente estará à altura da produção cultural contemporânea mediante a criação de formas de abordagem inovadoras. Nesse sentido, as discussões sobre o filme "Cidade de Deus" com base na oposição entre "estética" e "cosmética" da fome pouco contribuem para o entendimento do panorama contemporâneo, pois terminam reduzindo sua novidade a modelos teóricos das décadas de 1960 e 1970. Pelo contrário, proponho outra estratégia com a formulação do conceito de dialética da marginalidade, como forma de descrever a superação parcial, no âmbito da sociedade, da dialética da malandragem. Será então possível mostrar o perturbador maniqueísmo do filme "Cidade de Deus" e, ao mesmo tempo, dar conta de uma produção cultural contemporânea alternativa. Antes, porém, recordemos o modelo anterior. Dialéticas em colisão Na "Dialética da Malandragem - Caracterização das "Memórias de um Sargento de Milícias'", Antonio Candido desenvolveu uma interpretação fecunda da especificidade histórica brasileira, com base num comércio de mão dupla entre os pólos da ordem e da desordem. Tal comércio seria realizado por meio da figura socialmente plástica do malandro -homem de muitos rostos e discursos, cujo gingado rivaliza com sua habilidade de obter vantagem nas situações mais diversas e mesmo adversas. Tal trânsito entre esferas opostas representaria a metáfora da formação social comprometida com o acordo, em lugar da ruptura; com o "deixa-disso", em lugar do conflito. Afinal, o desejo de ser cooptado também define o malandro. No fundo, como Candido esclarece, o malandro aguarda "ser finalmente absorvido pelo pólo convencionalmente positivo". Nesse contexto, destaca-se a definição precisa de Jorge Amado, tal como proposta em "Capitães de Areia": "A elegância malandra, que está mais no jeito de andar, de colocar o chapéu e dar um laço despreocupado na gravata que na roupa propriamente". Pois a roupa talvez esteja puída, assim como o país talvez esteja com as forças sociais esgarçadas, próximas do rasgo. Melhor então desviar os olhos da vestimenta, em gesto análogo ao dos grupos dominantes que desejam esquecer o território por eles explorado. Num importante livro, "Carnavais, Malandros e Heróis", Roberto DaMatta aprofundou ao máximo o veio aberto por Candido, afirmando que o dilema brasileiro residiria na oscilação entre o mundo das leis universais e o universo das relações pessoais, entre a hierarquia rígida da lei e a igualdade morna do convívio. Em seu vocabulário, no Brasil todos aspiram ao estatuto de "pessoa" em detrimento da condição de "indivíduo". Ora, a pessoa possui uma rede de relacionamentos que lhe permite driblar a lei a seu bel-prazer. Já o indivíduo deve curvar-se à perversa universalidade das regras, pois seu universo de relações é limitado. Tudo está dito no provérbio estudado pelo antropólogo: "Aos amigos tudo; aos inimigos, a lei". Por isso, na teoria de DaMatta, o que "faz o brasil, Brasil" é precisamente a construção de uma ordem relacional, isto é, fundada num "mecanismo social básico por meio do qual uma sociedade feita com três espaços pode tentar refazer sua unidade". Esses espaços -o mundo cotidiano, o mundo das festas e o mundo oficial- articulariam um mosaico peculiar, no qual a fratura dá lugar à unidade. O artifício oculta um cálculo interessado: "Há em todos os níveis essa recorrente preocupação com a intermediação e com o sincretismo, na síntese que vem cedo ou tarde impedir a luta aberta ou o conflito pela percepção nua e crua dos mecanismos de exploração social e política". Ora, por que não pensar que a dialética da malandragem e a ordem relacional têm sido parcialmente substituídas pelo seu oposto, a dialética da marginalidade e a ordem conflituosa? Tal substituição tem conseqüências profundas, já que o conflito aberto não pode mais ser mascarado sob a aparência do convívio carnavalizante. A hipótese da emergência da dialética da marginalidade ajuda a compreender o ponto comum de um grande número de produções recentes que desenham uma nova imagem do país; imagem essa definida pela violência, transformada em protagonista de romances, textos confessionais, letras de música, filmes de sucesso, programas populares e mesmo séries de televisão. A violência é o denominador comum, mas a forma de abordá-la define movimentos opostos, determinando a disputa simbólica que interessa explicitar. Disputa simbólica A melhor maneira de expor essa disputa e apresentar uma compreensão outra do filme de Fernando Meirelles consiste em destacar a drástica e nada inócua mudança de ponto de vista na transposição para as telas do impactante romance de Paulo Lins. Por fim, a série "Cidade dos Homens" apenas radicalizou o processo de infantilização do problema da violência e do narcotráfico iniciado pelo filme. Tal processo pode ser mais bem apreciado por meio do estudo do foco narrativo. Roberto Schwarz acertou ao considerar que "o romance de estréia de Paulo Lins (...) merece ser saudado como um acontecimento". Mas terminou circunscrevendo "Cidade de Deus" ao modelo já consagrado: "A ambivalência no vocabulário traduz a instabilidade dos pontos de vista embutidos na ação, um certo negaceio malandro entre ordem e desordem". A nota sobre a complexidade do narrador é importante, porém, o romance evidencia cabalmente os impasses e os limites da dialética da malandragem. Paulo Lins estabelece uma inquietante equivalência entre malandros, "bandidos", "bichos-soltos" e "vagabundos": todos sabem como obter vantagem em tudo. Trata-se de gesto fundamental pouco destacado pela crítica. Em lugar da idealização do malandro, como vimos no trecho de Jorge Amado, Paulo Lins revela o lado oculto de sua ginga, ou seja, esclarece que o malandro somente pode existir à custa de um otário. Ainda mais: o otário, via de regra, é alguém do povo, um entre tantos dos inúmeros excluídos. Malandro que é malandro não cospe para cima. Lembremos o samba de Zeca Compositor: "Enquanto existir otário no mundo,/ malandro acorda ao meio-dia". Estabelecer esse relacionamento estrutural entre as figuras do malandro e do otário é um movimento crítico decisivo. Celebrar a malandragem, portanto, é esquecer que todo Vadinho necessita de uma Dona Flor para explorar, roubar-lhe o dinheiro, agredi-la quando seu desejo não é prontamente atendido e, como ninguém é de ferro, dar-lhe também amor. Não necessariamente nessa ordem, pois tudo depende das urgências dos negócios do malandro. Em princípio, o amor pode sempre ficar para mais tarde. Pode ser inclusive póstumo, por assim dizer. E certamente o malandro nunca leva em conta o problema do outro, como ocorre com o Bonitão em "O Pagador de Promessas". Nos termos de Roberto DaMatta, alguém só se afirma como pessoa quando um número infinitamente maior se vê reduzido ao pálido papel de indivíduo. Daí a importância do ponto de vista da narração no romance. A ausência de uma perspectiva clara de superação da desigualdade social inviabiliza a promessa utópica do morador da Cidade de Deus ser "finalmente absorvido pelo pólo convencionalmente positivo". À revelia de seu desejo, ele é o otário, simples escada para a duvidosa ascensão do malandro. Por exemplo, os políticos engravatados em busca de voto; os grupos dominantes em busca da paz perdida em meio à violência cotidiana. Ora, qual o ponto de vista narrativo do filme "Cidade de Deus"? Em lugar de um narrador difuso e deliberadamente ambíguo, optou-se pela determinação do foco narrativo, atribuído ao adolescente Buscapé. No filme, ele parece ter dois problemas principais: perder a virgindade e deixar a favela graças a um possível emprego como fotógrafo. Essa extraordinária simplificação da personagem corresponde a um propósito duplo: tanto torna o horror da história mais palatável, por acrescentar uma dose de comédia, quanto associa o desejo do espectador de distanciar-se da realidade ao objetivo do rapaz de abandonar a Cidade de Deus. Portanto a escolha do foco narrativo é reveladora. Ou seja, por intermédio da perspectiva de Buscapé, cria-se entre o espectador e as causas do descontrole da violência uma série de mediações interessadas: o olhar do fotógrafo, a própria câmera fotográfica, seu desejo de escapar da Cidade de Deus. Esses inúmeros filtros tornam matéria de espetáculo a insuportável realidade da favela dominada pelo narcotráfico. Se o foco narrativo escolhido fosse o de Zé Pequeno, o público teria consagrado o filme "Cidade de Deus"? O caráter imediato de sua brutalidade recorda o ódio do cobrador, personagem do conto homônimo de Rubem Fonseca, autêntico prenúncio da atual dialética da marginalidade. Estaremos preparados para olhar no espelho e admitir nossa própria indiferença? Daí as mediações que permitem o consumo voyeurista da violência. Exatamente como numa cena de "Carandiru", filme inspirado no livro de Dráuzio Varela e dirigido por Hector Babenco. Após terminar seu plantão, o médico observa a intimidade das celas por meio de pequenos orifícios em suas portas, até que se vê na iminência de passar a noite na penitenciária, pois já havia ocorrido a troca da guarda. Depois de um breve suspense, as portas da prisão são abertas: o doutor respira o ar da liberdade. No fundo, queremos é testemunhar as memórias do cárcere, retornando, porém, ao conforto de lares burgueses. Um "Big Brother" com uma dose adicional de realismo. Além disso, o filme "Cidade de Deus" atualiza clichês, estruturando a narrativa mediante um maniqueísmo difícil de aceitar. Zé Pequeno é transformado em verdadeiro tipo ideal lombrosiano. Ele é o indiscutível bandido mau, perverso, cruel, sem possibilidade aparente de regeneração: um psicopata, em suma. Sua maldade é reforçada pela "bondade" de seu parceiro, Bené, e, claro, pela justa vingança procurada por Mané Galinha, cuja noiva foi violentada pelo incorrigível Zé Pequeno. Não é preciso uma imaginação fértil para recordar a retórica de programas de televisão como "Cidade Alerta", que reduzem a criminalidade a desvios de comportamento individuais. O processo de infantilização dos protagonistas foi radicalizado na série "Cidade dos Homens". A equipe básica de realização do seriado televisivo é a mesma do filme. E a infantilização do foco narrativo parece adequar-se à sensibilidade da audiência do horário nobre. Em lugar de um adolescente, temos agora duas crianças, Laranjinha e Acerola. No primeiro ano da série, discutiam-se as dificuldades típicas da vida na favela, ainda que de forma diluída. Já no segundo ano, em 2003, as aventuras amorosas dos protagonistas ocuparam o lugar de destaque. E os clichês foram servidos sem escrúpulos, incluindo a representação de moças da favela, que, na praia, oferecem-se tanto a estrangeiros (falando um arremedo de inglês deliberadamente ridículo) quanto a jovens de classe média, cuja aparência promete possíveis benefícios econômicos. Tal prática possui nome e, ao que se sabe, constitui ofício dos mais antigos. Difícil compreender o propósito dessas cenas na estrutura narrativa da série. Difícil não se incomodar com um tratamento tão estereotipado e ofensivo. Ou será que se trata de evitar a discussão sobre o problema grave das favelas dominadas pelo narcotráfico por meio da exotização do próximo, demasiadamente próximo? Resta uma última pergunta: qual o propósito da crescente infantilização do foco narrativo e dos protagonistas? Desse modo, os problemas associados ao narcotráfico podem ser deixados à margem e, assim, reencontramos a "humanidade" das relações "mesmo" numa favela. Tal infantilização termina por criar uma favela abstrata, totalmente descontextualizada, como se sua vista privilegiada não passasse de um elemento de valorização imobiliária e todos os barracos fossem apartamentos de cobertura. No segundo ano da série, a favela transformou-se no cenário de uma sensualidade à flor da pele, uma miniatura da imagem turística de Salvador em pleno morro carioca. Em breve, os espectadores de "Cidade dos Homens" abandonarão sua teimosia e trocarão o asfalto congestionado pela vida aventurosa das favelas. Afinal, somos todos brasileiros; logo, filhos de Deus, na cidade maravilhosa. Auxílio paternal Semelhante processo de infantilização do problema aposta na possibilidade de retorno ao modelo da dialética da malandragem, isto é, aposta em algum modo de cooptação. Laranjinha e Acerola são apresentados como dois aspirantes a malandro. Vale lembrar, no entanto, que em latim infante é o "in-fans", ou seja, aquele que não fala, não se expressa, necessitando auxílio paternal. Muito pelo contrário, autores como Paulo Lins e Ferréz, grupos musicais como os Racionais MC's, documentários como "Ônibus 174", de José Padilha, ou "À Margem da Imagem", de Evaldo Mocarzel, entre outras produções recentes, desenham um horizonte muito distinto do silêncio que a infantilização da violência produz. Nesse contexto, a discussão sobre a cena mais violenta do filme adquire inesperado vigor. A meu ver, trata-se da cena em que Buscapé invade a redação do jornal que publicou sua foto do bando de Zé Pequeno. Julga que será morto pelo traficante, assim exposto pela primeira vez. O aprendiz de fotógrafo está visivelmente desesperado e não vislumbra nenhuma alternativa. Nesse instante, o que sucede na redação? Uma jornalista lhe responde no conhecido tom do "você sabe com quem está falando?" e infantiliza o adolescente, silenciando-o. Por sua vez, o fotógrafo consagrado lhe oferece um equipamento mais sofisticado a fim de obter mais e melhores fotos. O espectador espera em vão: não demonstram nenhuma preocupação real com a segurança de Buscapé. A jornalista leva-o para casa, é verdade, mas, acredite se quiser, lá o adolescente enfim perde a virgindade. Essa total insensibilidade e exploração representa o momento de maior violência no filme. Por isso, não resta dúvida, Buscapé agiu corretamente ao desistir de entregar ao jornal uma extraordinária fotografia, na qual flagrava a corrupção de policiais na Cidade de Deus -fotografia que poderia receber um prêmio, confia. Mas, em troca, decide apresentar uma foto menos chocante, porém capaz de assegurar-lhe o emprego e a sobrevivência. Afinal, a jornalista e o fotógrafo dificilmente perderiam seu precioso tempo para defendê-lo dos criminosos de farda, isto é, os policiais corruptos. Podemos ver nessas cenas uma involuntária metáfora do próprio processo de infantilização do foco narrativo presente no filme e na série televisiva? As teorias de Candido e de DaMatta esclarecem formas particulares de mediação social, com base sobretudo no contato pessoal e no universo do favor, moedas correntes no idioma próprio da dialética da malandragem e da ordem relacional. Mas em que medida essas abordagens ainda constituem um modelo de interpretação válido para o Brasil contemporâneo? É indiscutível a permanência da lógica do favor como motor da vida social. Nesse sentido, suas teorias continuam pertinentes, revelando a capacidade das elites brasileiras de apegar-se ao poder político, a fim de perpetuar seus privilégios. Entretanto pouco ajudam no entendimento de parcela significativa da produção cultural contemporânea. Já o modelo da dialética da marginalidade pressupõe uma nova forma de relacionamento entre as classes sociais. Não se trata mais de conciliar diferenças, mas de evidenciá-las, recusando-se a improvável promessa de meio-termo entre o pequeno círculo dos donos do poder e o crescente universo dos excluídos. Nesse contexto, o termo marginal não possui conotação unicamente pejorativa, representando também o contingente da população que se encontra à margem, no tocante aos direitos mais elementares, sem dispor de uma perspectiva clara de absorção, ao contrário do malandro. Mas evitemos repetir o equívoco de idealizar o marginal, recuperando anacronicamente o motivo de Hélio Oiticica, "seja marginal, seja herói", ou o movimento dos poetas marginais da década de 1970. Pelo contrário, deve-se ressaltar a ambigüidade do termo: o marginal pode ser tanto o excluído quanto o criminoso, e até os dois simultaneamente. Ferréz é o autor que mais tem desenvolvido as conseqüências dessa ambigüidade, e em seu romance "Manual Prático do Ódio" a dialética da marginalidade deu um salto qualitativo. Num primeiro momento, muito bem definido, entre outros, pela música dos Racionais MC's e por livros como "Letras de Liberdade" [ed. Madras], obra coletiva de presidiários, e "Sobrevivente André du Rap (do Massacre do Carandiru)" [ed. Labortexto], o impulso principal era testemunhar a sobrevivência em meio a condições as mais adversas, fosse no cárcere, fosse na periferia. Na mensagem direta de "Fórmula Mágica da Paz": "Aqui fala Mano Brown, mais um sobrevivente, 27 anos contrariando as estatísticas, morô mano?". Construiu-se então uma poética da sobrevivência. Num momento posterior, a dialética da marginalidade passou a supor uma explicitação maior das contradições, iniciada por Paulo Lins. Mas não apenas das contradições da dialética da malandragem, mas do próprio sistema social brasileiro, que funciona como uma perversa máquina de exclusão, sob a aparência da falsa promessa de harmonia, na improvável "absorção no pólo convencionalmente positivo" dos moradores das favelas e das periferias. Inaugurou-se então uma radiografia da desigualdade. Em "Manual Prático do Ódio", Ferréz oferece uma lâmina, como ele define seu livro. O corte é fundo e tem como base a inesperada equivalência entre crime, narcotráfico e mundo dos negócios. Para Régis, membro de um grupo que planeja um assalto, trata-se de um trabalho, pois "o que aplicava em armas lhe tomava todo o capital, tinha sonhos mais complexos, uma rotina já definida". É a "profissão perigo", mas que ainda assim permite descrever o crime organizado como uma espécie peculiar de carreira, com raciocínios dignos de um lúcido banqueiro: "Nenhuma fita que fizessem daria mais dinheiro do que o tráfico, o tráfico era um comércio contínuo, vivia fluindo, o crime era instável". Mas, assim como ocorre em "Cidade de Deus", todos os que se envolvem seja com assaltos, seja com o tráfico, terminam mortos ou presos. Seria ao fim e ao cabo uma espécie de moralismo? Certamente que não. Paulo Lins e Ferréz explicitam o verdadeiro salto qualitativo da dialética da marginalidade, superando definitivamente a brutalidade dos cobradores de Rubem Fonseca, pois a violência somente reforça a desigualdade social. De um lado, legitima a repressão policial, que já afeta cotidianamente a população das áreas mais pobres. De outro lado, estimula as correntes mais reacionárias da sociedade civil, perfeitamente representadas por programas de televisão como o já referido "Cidade Alerta" e derivados, sempre prontos a exigir a pena de morte e o aumento do aparato repressivo. É como se o sistema se beneficiasse da violência e até mesmo contasse com ela, a fim de justificar sua própria necessidade. A alternativa, portanto, é converter a violência cotidiana em força simbólica, por intermédio de uma produção cultural vista como modelo de organização comunitária. O ódio do cobrador voltava-se contra indivíduos e, por isso mesmo, tinha um alcance limitado. A dialética da marginalidade, pelo contrário, tem como alvo o dilema coletivo e se caracteriza por um esforço sério de interpretação dos mecanismos de exclusão social, pela primeira vez realizado pelos próprios excluídos. Em "Capitães da Areia", um dos primeiros livros a tratar da questão, Jorge Amado ainda podia acreditar na utopia da luta de classes, concluindo o romance com invejável segurança: "Porque a revolução é uma pátria e uma família". Mas a revolução deixou a todos órfãos, e a pátria trata a maior parte de seus filhos como bastardos. Por isso, uma transformação significativa ocorre no exato momento em que o filme "Cidade de Deus" disputa o Oscar: nas periferias e nas favelas, grupos se multiplicam e produzem um fenômeno novo na história cultural brasileira -a definição da própria imagem. Em "Rapaz Comum", os Racionais MC's sugerem: "Olha no espelho e tenta entender". Muitos dos manos que teimam em contrariar as estatísticas estão seguindo o conselho. João Cezar de Castro Rocha é professor de literatura comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É autor de "Literatura e Cordialidade" (Eduerj) e organizador de "As Máscaras da Mímesis" (Record) e "Interseções" (Imago). As hipóteses aqui apresentadas foram discutidas em cursos ministrados na Universidade da República (Montevidéu, Uruguai) e na Universidade de Wisconsin (em Madison, EUA). Este ensaio foi escrito graças a uma bolsa do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford (Inglaterra).
URL::
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2004/03/275292.shtml

quinta-feira, 26 de julho de 2007

"ABAIXO OS BUROCRATAS DA LINGUAGEM!"

(esta poesia não era pra estar escrita aqui,ela deveria só
estar na cabeça do poeta,
ou na cabeça de todos que a quisessem dizê-la!
- palavras do autor da poesia!
eu a achei na web e a coloquei aqui!)


imagine se, por algum estranho motivo,
a música parasse de tocar
e fosse consumida apenas através de partituras.
o mundo ficaria mais triste.
foi isso que aconteceu com a poesia.
ela se afastou da fala,
do corpo e se confundiu com a escrita,
tornando-se monopólio de
um estreito círculo de iniciados.
mas isso está mudando.
isso está mudando.

"Chacal"
http://mariadapoesia.blogspot.com/2006_05_01_archive.html


"Chacal",viajante de loucos pensamentos

(...)A poesia marginal preencheu uma parte do vazio deixado pela repressão ostensiva aos movimentos organizados de contestação política. A geração do desbunde queria curtir a vida, e um grupo repensou os métodos de militância política, ao fazer do próprio cotidiano uma arma de protesto contra o status quo. Na verdade, a poesia marginal tem um tronco muito forte com as influências pelo modo de vida alternativo de contracultura norte-americana, iniciada em São Francisco nos anos 50, com a chamada Beat Generation: Jeck Keroac, Allen Ginsberg, Neal Cassady, Gregory Corso e outros.Ricardo de Carvalho Duarte, pseudônimo de Chacal, tido como um dos poetas marginais, encara o fato como algo normal, dada à forma inovadora e agressiva do nascimento de sua poesia no início dos anos 70. Integrante da geração mimeógrafo, seus livros, de mão em mão, rodaram o Brasil. Com seus ingredientes próprios de lirismo e humor, Chacal publicou mais de 13 livros. Carioca de Copacabana (Rio de Janeiro), nasceu em 24 de maio de 1951, filho de Marcial Galdino Duarte e Maria Magdalena de Carvalho Duarte, Chacal tem dois filhos, João Vicente e Júlio Trindade.(...)
http://www.tanto.com.br/gilfrancisco-chacal.htm

VEJA NESTE LINK O VÍDEO:
http://pichacoesciberespaciais.blogspot.com/2007/07/blog-post_6165.html "DITADURA ERA O GOVERNO DOS MORTOS SOBRE OS VIVOS" CHACAL - ESCRITOS À MARGEM


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