sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
domingo, 30 de novembro de 2008
ATO PÚBLICO PELO DIREITO À MEMÓRIA E À VERDADE (clique na imagem para vê-la ampliada)
Dia 01/12/2008 às 14hs na Assembléia Legislativa de SP
Ato Público: Direito à Memória e à Verdade.
PELA ABERTURA DOS ARQUIVOS MILITARES.
PELA LOCALIZAÇÃO DOS CORPOS DOS DESAPARECIDOS POLÍTICOS.
PELA RESPONSABILIZAÇÃO DOS CRIMES DE LESA HUMANIDADE.
A tortura e desaparecimento de militantes políticos praticados por agentes do estado são crimes de lesa humanidade e portanto imprescritíveis e não passiveis de anistia. Julgar estes crimes praticados durante a ditadura militar 1964-1985 é um passo importante para que a justiça de transição seja feita em nosso país, no sentido de afirmar: Terrorismo de Estado Nunca Mais!
PARTICIPAÇÃO
Associação Juízes Para a Democracia - AJD
Associação dos Anistiados Políticos, Aposentados, Pensionistas e Idosos do Estado de SP - ANAPI
Central Única dos Trabalhadores- CUT
Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos
Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo
Coordenação Brasileira de Anistia - CBA
Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo
Grupo Tortura Nunca Mais - SP
Ministério Público Federal - MPF
Ordem dos Advogados do Brasil - OABUnião Nacional do Estudantes - UNE
CONVIDADOS
Secretaria Especial de Direitos Humanos - Ministro Paulo Vannuchi
Comissão de Anistia do Ministério da Justiça - Dr. Paulo Abrão
REALIZAÇÃO
Deputado Estadual Simão Pedro Chiovetti - PT/SP
Deputado Federal Paulo Teixeira - PT/SP
APOIO
Deputados Adriano Diogo (PT/SP) e Rui Falcão (PT/SP)
MODOLINKAR COM BLOG DO MÁRIO :
http://ousarlutar.blogspot.com/
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
GOVERNO LULA ESCOLHE SEU LADO: O DE BRILHANTE USTRA
Celso Lungaretti (*)
Se ainda havia alguma dúvida quanto à posição do Governo Lula diante da ditadura de 1964/85 e as atrocidades por ela cometidas, está dirimida: coloca-se mesmo ao lado dos totalitários.
Quem fala por Lula é o ministro das Minas e Energia Edison Lobão, que acaba de fazer rasgados elogios ao período de arbítrio, questionando até seu caráter de uma verdadeira ditadura; e o ministro da Defesa Nelson Jobim, que se manifesta e age como porta-voz no governo dos contingentes mais retrógrados das Forças Armadas.
Tarso Genro e Paulo Vannuchi, respectivamente ministro da Justiça e secretário nacional de Direitos Humanos, sofreram uma derrota acachapante, com a decisão tomada pela União de assumir a defesa dos ex-comandantes do DOI-Codi/SP, Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir dos Santos Maciel, no processo que lhes-é movido pelos procuradores federais Marlon Weichert e Eugênia Fávero.
Os procuradores pleitearam a responsabilização pecuniária desses militares da reserva pelas mortes e sevícias ocorridas durante o período de 1970/76, quando estiveram à frente daquele centro de torturas. Ou seja, que fossem declarados culpados pelos crimes e práticas hediondas cometidos sob seu comando e repusessem tudo que a União despendeu em reparações a suas vítimas.
Dos 6.897 cidadãos que passaram pelas garras do DOI-Codi/SP, a grande maioria sofreu as torturas de praxe (espancamentos, choques elétricos, pau-de-arara, afogamento, asfixia, etc.), acrescida de uma exclusividade do local: a cadeira-do-dragão, cujos assento e encostos para os braços e cabeça eram revestidos de metal, para aumentar a potência das descargas que a vítima, amarrada, recebia. Vladimir Herzog foi um mártir brasileiro bestialmente assassinado na cadeira-do-dragão.
A União tinha três caminhos a escolher: entrar no processo ao lado dos procuradores, permanecer neutra ou tomar a defesa dos carrascos. Fez uma escolha inconcebível e inaceitável, até porque contradiz frontalmente toda a legislação internacional subscrita pelo Brasil e as recomendações da ONU. O Governo Lula nos tornou párias da civilização.
Em sua defesa dos carrascos, a Advocacia Geral da União invocou a anistia autoconcedida pela ditadura no ano de 1979, que nada mais representou do que um habeas-corpus preventivo para quem sabia ter incidido em assassinatos em massa (incluindo as mortes durante as sessões de tortura e a execução a sangue-frio de prisioneiros que estavam sob a guarda do Estado), sevícias as mais brutais, sequestros (até de crianças!), estupros, ocultação de cadáveres e outras abominações.
A TORTURA ERA REGRA, NÃO EXCEÇÃO - Esta evolução dos acontecimentos, entretanto, está longe de ser inesperada, vindo ao encontro do que escrevi quando Genro e Vannuchi promoveram uma audiência pública para discutir a punição dos torturadores, no final de julho.
Lula, por meio de Jobim, desautorizou qualquer iniciativa do Executivo no sentido da revogação da Lei da Anistia.
Genro tentou maquilar a derrota como vitória, propondo que fossem abertas na Justiça ações contra os ex-torturadores, acusando-os de terem cometido crimes comuns. Segundo ele, as atrocidades não se tipificavam como crimes políticos e, portanto, ficavam de fora do guarda-chuva protetor da Lei da Anistia.
De imediato, eu adverti que:
* a tortura nunca fora um excesso cometido por meia-dúzia de aloprados nos porões, mas sim uma política de Estado que, embora não assumida formalmente, nem por isso deixara de ser menos efetiva, tendo sido implementada com a concordância ou a omissão de toda a cadeia de comando;
* que o atalho proposto por Genro impediria a responsabilização dos mandantes, permitindo apenas o enquadramento dos executantes;
* que daria aos acusados uma forte arma de defesa, pois eles argumentariam exatamente que estavam apenas cumprindo ordens;
* que não representaria a verdadeira justiça, ficando-se longe de passar o período realmente a limpo; e
* que o caminho judicial seria tão longo e os recursos protelatórios à disposição dos réus, tantos, que poucos deles (ou nenhum) acabariam recebendo a sentença definitiva em vida.
Audir dos Dantos Maciel morreu nesse meio-tempo. Brilhante Ustra, septuagenário, já sofreu crises cardíacas.
E as tentativas de contornar-se a Lei da Anistia, doravante, terão como adversária a União, que oficializou sua posição de endosso à impunidade dos carrascos.
Então, fica cada vez mais evidenciado que não se fará justiça sem suprimir-se mais este entulho autoritário. A anistia de 1979 tem de ser revogada, em nome das vítimas da ditadura mais brutal que o Brasil já conheceu e de nosso auto-respeito como Nação. Que se levante a bandeira correta e justa, de uma vez por todas!
Quanto a Genro e Vannuchi, a dignidade impõe que se afastem de um governo que os desautoriza a cada momento.
Assim como a dignidade impõe ao presidente Lula que renuncie à pensão de prejudicado pela ditadura que vem recebendo há décadas e restitua cada centavo aos cofres públicos.
Por uma questão de coerência: quem se alinha com os déspotas, moralmente não merece reparação de vítima. É o mesmo caso do Cabo Anselmo.
* Celso Lungaretti, 58 anos, é jornalista, escritor e ex-preso político. Mantém os blogs O Rebate, em que disponibiliza textos destinados a público mais amplo; e Náufrago da Utopia, no qual comenta os últimos acontecimentos.
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/
"SE LOURENÇO DIAFÉRIA ESTIVESSE VIVO!"...e visse as coisas que estão acontecendo!...

Lourenço Diaféria,jornalista e escritor,na década de 70, foi preso pelo regime militar,por ter escrito uma extraordinária matéria sobre um sargento que salvou uma criança das garras das ariranhas no zoológico de Brasília,porém o sargento não sobreviveu as mordidas desses animais!
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
domingo, 28 de setembro de 2008
MODOLINKAR: DO BLOG VIVA BABEL - LOURENÇO DIAFÉRIA FALECEU NO DIA 16/09/2008, ESTE TEXTO DELE FOI ESCRITO EM 1977...(clique aqui e leia na íntegra)
LOURENÇO DIAFÉRIA
"Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.
O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.
Que nome devo dar a esse homem?
Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.
O herói redime a humanidade à deriva.
Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.
Está morto.
Um belíssimo sargento morto.
E todavia.
Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.
O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.
O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.
No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.
Esse sargento não é do grupo do cambalacho.
Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.
É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.
O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.
Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.
É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.
Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.
Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.
E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais.
FONTE: http://vivababel.blogspot.com/2008/09/heri-morto-ns.html
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
O RETRATO DE DORIAN GABEIRA
Por Celso Lungaretti -27/08/08
Fernando Gabeira fez carreira política defendendo a descriminalização da maconha. Às vezes de forma assumida, às vezes com subterfúgios para contornar os obstáculos, como sua proposta de que se autorizasse o plantio para usos medicinais e industriais.
Esteve até ameaçado de prisão por importar sementes da Europa. E seu site dá grande destaque ao tema, inclusive tendo como vaso comunicante um site de defesa da legalização da maconha.
Então, foi repulsivo seu recuo oportunístico de ontem, ao ser sabatinado pelo jornal O Estado de S. Paulo, como candidato a prefeito do Rio de Janeiro.
Disse que essa discussão toda foi "um pouco inútil" e se declarou contrário à liberação do consumo da maconha enquanto a polícia não for modernizada:
- Se não tiver uma polícia treinada, eficaz, transparente e honesta, não consegue nem reprimir nem legalizar. A repressão é extremamente minada pelo processo de corrupção. E a legalização, que seria feita com polícia competente, não conseguiria conter os efeitos colaterais.
Ou seja, para conquistar cadeiras no Legislativo, o eleitorado desbundado bastava, então ele foi de mandato em mandato como porta-estandarte da maconha.
Agora, para alçar um vôo maior, precisa do eleitorado conservador, então dediz tudo que dissera antes.
Aliás, em termos de reescrever a biografia, Gabeira está indo mais longe até do que o Lula.
Quando da ocupação da reitoria da USP, chegou ao cúmulo de sugerir ao governador José Serra que cortasse a luz e a água do prédio, para forçar os estudantes a desistirem.
Ontem, não teve pejo de prometer que, no seu hipotético mandato de burgomestre da Cidade Maravilhosa, liberará o uso de armas letais por parte da Guarda Municipal.
Veio-me à lembrança o clássico de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray. Trata-se daquele romance em que o personagem central se deslumbra com a própria imagem numa pintura e diz que daria a alma para permanecer para sempre jovem e belo.
Seu desejo é atendido pelo diabo. Dorian continua igual a um anjo, enquanto sua imagem no retrato é que vai envelhecendo e exibindo as marcas da corrupção em que ele chafurda.
Até que um dia, enojado com a figura repugnante que o retrato exibe, Dorian resolve praticar o bem, para ver se há alguma melhora.
Quando vai checar o resultado, fica horrorizado: o retrato mostra o mesmo velho asqueroso, com uma mudança para pior, o sorriso hipócrita.
Distribuindo afagos retóricos para os inimigos de ontem, Gabeira não será visto por eles de outra forma; quanto muito o sistema o usará, como faz com os hipócritas que se deixam cooptar.
Quando encontro uma matéria-de-capa apologética na Veja atual, imediatamente concluo que o beneficiado vendeu a alma ao diabo...
Uma frase terrível do novelista francês Maurice Druon: "viver envilece". Serviria como epitáfio para Fernando Gabeira.
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/search?q=gabeira
MEMÓRIA NÃO MORRERÁ: O CASO HERZOG
É ASSASSINADO:
O BRASIL REPUDIA
O DOI-CODI
Celso Lungaretti (*)
No dia 25 de outubro de 1975 morreu sob tortura Vladimir Herzog -- como dezenas de outros idealistas que foram vitimados pelos acidentes de trabalho nos porões da ditadura. Isto para não falar dos executados a sangue-frio e dos que tombaram nos tiroteios com a repressão.
Por que sua morte repercute tanto até hoje e, p. ex., as de Mário Alves e Joaquim Câmara Ferreira são choradas apenas por parentes e velhos militantes de esquerda? Afinal, ambos também eram jornalistas, tiveram uma atuação revolucionária das mais significativas e foram verdadeiramente massacrados pelos algozes. Mário Alves chegou a ser empalado com um cassetete dentado.
Há vários motivos. Primeiramente, chocou e até hoje choca sabermos que Herzog se dirigiu pelas próprias pernas ao encontro da morte, acreditando que sofreria apenas o interrogatório para o qual foi convocado.
Por que ele não desconfiou de que poderia ter o mesmo destino que tantos tiveram antes dele? Por um motivo simples: em 1975 a tortura já arrefecera, depois de dizimada a esquerda armada.
O auge da tortura se deu no período 1969/73, quando os militares reagiram ao enfrentamento aberto da esquerda estruturando a Operação Bandeirantes e os DOI-Codi's, que, inicialmente, se incumbiam apenas dos militantes da vanguarda armada. As organizações desarmadas, como o velho PCB, continuaram sendo por bom tempo atribuição dos Deops, que ainda se mantinham dentro de certos limites.
Cair na Oban significava não ter garantia nenhuma de sobrevivência, estar totalmente à mercê dos verdugos, enquanto no Deops só se morria por excessos praticados eventual e involuntariamente durante a tortura. Uma pequena diferença, mas significativa para quem caminhava no fio da navalha.
A Oban nasceu clandestina -- montada por oficiais das três Armas e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas -- e foi legalizada após alguns meses, passando a funcionar em quartéis da Polícia do Exército (com exceção de São Paulo, onde continuou nos fundos de uma delegacia da rua Tutóia). Mesmo assim, desde o primeiro momento, tinha mais poder do que a estrutura legal dos Deops, chegando a arrancar presos políticos de suas mãos quando bem entendia.
Para seus integrantes, oferecia ganhos fabulosos e, no caso dos militares, a perspectiva de ascensão meteórica na carreira.
A esquerda armada expropriava bancos, executava operações altamente rentáveis como o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros. Então, seus integrantes às vezes tinham somas vultosas consigo. Na VPR e VAR-Palmares, p. ex., cada combatente dispunha de um substancial fundo de reserva, que deveria ser mantido intocado até uma circunstância extrema, como a de ele ficar descontatado e ter de fugir do País.
Dinheiro, armas, veículos e até objetos de uso pessoal dos militantes dessas organizações eram, por sua vez, expropriados pelos captores, que os dividiam a seu bel-prazer, nunca o restituindo aos proprietários originais.
Além disto, os empresários financiadores da repressão contribuíam para as caixinhas de prêmios pela captura ou morte de militantes clandestinos. Cada revolucionário importante tinha o valor previamente fixado, daí o empenho obsessivo dos rapinantes em chegar até eles. O bolo era dividido segundo a importância de cada qual no esquema repressivo, sobrando algum até para os carcereiros...
Moralização - Com a derrota da luta armada, o presidente Ernesto Geisel pretendia ir desmontando aos poucos esse estado dentro do estado. Militar de mentalidade prussiana, não admitia a existência de um poder paralelo "envergonhando a farda".
Ora, os rapinantes haviam se acostumado com um padrão de vida muito superior ao que lhe possibilitava seus soldos e já não conseguiam mais viver sem a rapina -- tanto que a notória equipe de torturadores da PE da Vila Militar do RJ envolveu-se com contrabandistas em 1974 e acabou sendo presa, interrogada... e torturada, provando um pouco do próprio veneno.
Então, para atrapalhar a "distensão lenta, gradual e progressiva" de Geisel, que incluía a desmontagem do aparelho repressivo de exceção, passaram a efetuar provocações que, esperavam eles, fariam a esquerda reagir. Valia tudo para despertarem o "fantasma do comunismo" que lhes era tão vantajoso.
Assim, uma base do PCB que fora formada na ECA/USP e se expandira com o ingresso de seus membros na carreira de jornalistas -- continuando, entretanto, bem longe de representar uma ameaça real ao regime -- acabou sendo escolhida como alvo. E o pobre Herzog em primeiro lugar, por ser um professor muito querido, com o qual os universitários presumivelmente se solidarizariam, uma vez preso.
Como a ECA era tida pela repressão como um celeiro de subversivos e nela certamente existiam agentes infiltrados, é difícil acreditar que essa base não constasse dos relatórios policiais havia muito tempo. O fato é que, até o final de 1975, não interessou estourá-la.
Aí, de repente, a repressão se deu conta de que a ditadura começaria a ser derrubada pela insidiosa infiltração subversiva na TV Cultura, com seus 1% de audiência em São Paulo...
Vlado, coitado, não levou em conta os bastidores do regime e seguiu confiante para o matadouro. Até pela estima que lhe devotava o governador Paulo Egydio Martins, estava certo de que em seu caso não abririam a caixa de ferramentas. Quão pouco valia a vida de um homem!
Os torturadores, ao excederem a dose, despertaram a indignação mundial -- para o que também concorreu a ascendência judaica da vítima, repetindo em escala ampliada o que já sucedera no final de 1969, quando da morte sob torturas de Chael Charles Schreier, militante da VAR-Palmares. Judeus são muito sensíveis à morte dos seus em circunstâncias semelhantes às do Holocausto.
Geisel e seu fiel escudeiro Hugo de Abreu aproveitaram a chance para minar o DOI-Codi sem despertar resistências na caserna. O presidente deu o ultimato de que uma morte como aquela não deveria se repetir. Antes que se completassem três meses, os torturadores erraram a mão de novo, levando à morte o metalúrgico Manoel Fiel Filho, também do PCB. Forneceram a Geisel motivo suficiente para exonerar o comandante do II Exército Ednardo D'Ávila Melo e desmontar o DOI-Codi, robustecendo seu projeto de abertura política.
Por último, devem ser lembrados o cansaço dos cidadãos que viviam sob terror policial desde 1969 e já não agüentavam mais o clima de autoritarismo e intolerância, mesmo porque, visivelmente, não havia mais uma ameaça verdadeira ao regime; a resistência dos jornalistas, que afinal se avolumou; e a coragem dos líderes religiosos de três confissões, que correram todos os riscos para, com a realização de uma missa ecumênica pela alma de Herzog na catedral da Sé, impedirem que mais esse assassinato fosse acobertado pela ditadura.
Atentados - Nem assim as tentativas de inviabilizar a redemocratização do Brasil cessaram de todo. Em 1976 houve atentados a bomba contra o semanário Opinião, a ABI, a OAB e a residência de Roberto Marinho, além do seqüestro e espancamento do bispo de Nova Iguaçu e do massacre dos militantes da gráfica do PCdoB. Em 1979/81, a ação dos grupos paramilitares de direita se intensificou, com novos ataques a entidades e cidadãos ilustres (como o jurista Dalmo de Abreu Dalari) e até os bizarros incêndios de bancas de jornais em que eram vendidas publicações alternativas.
Até que, em 30 de abril de 1981, o feitiço virou contra o feiticeiro: a bomba explodiu no colo do terrorista fardado que pretendia provocar pânico de conseqüências imprevisíveis durante em show musical no Riocentro. A maré mudou e a redemocratização foi consolidada.
Vlado merece todas as homenagens que continua até hoje recebendo e outras mais. É triste, entretanto, que não seja prestado tributo semelhante aos combatentes que enfrentaram a ditadura de armas na mão e morreram às centenas (inclusive executados friamente em aparelhos clandestinos da repressão, como a "Casa da Morte" de Petrópolis/RJ).
Enquanto a Resistência Francesa é cultuada em seu país, o Brasil continua dividido em relação ao papel dos que enfrentaram pela via armada os militares que derrubaram um presidente legítimo, fecharam o Congresso, cassaram mandatos, rasgaram a Constituição, proscreveram partidos e organizações da sociedade civil, praticaram a censura, torturaram, mutilaram, mataram e ocultaram cadáveres.
Os que ousaram opor-se ao poder de fogo infinitamente superior desses usurpadores despóticos são -- e deveriam ser sempre lembrados como -- heróis e mártires. Não basta o reconhecimento oficial, corporificado nas anistias federal e estaduais. Há muito ainda o que se fazer em termos de História e na batalha pela opinião pública.
Um bom começo seria o reconhecimento oficial de que os os inquéritos policiais-militares da ditadura não servem para respaldar acusações a ninguém nem para definir o papel histórico de nenhum dos antigos resistentes, pois foram contaminados pela prática generalizada da tortura; idem, os julgamentos a que civis foram submetidos em auditorias militares, sob leis de exceção e sem nenhuma possibilidade real de defesa.
* Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista e escritor. Mantém os blogs O Rebate, em que disponibiliza textos destinados a público mais amplo; e Náufrago da Utopia, no qual comenta os últimos acontecimentos.
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quarta-feira, 30 de julho de 2008
e a Ditadura da
Maioria
Getúlio Vargas — o déspota que se disse pai dos pobres, se transvestiu de democrata e se matou pretendendo ser herói —, permanece o principal fantasma a habitar a política brasileira. Mas com o fim da ditadura militar ele ganhou uma nova companhia, a do voto obrigatório.
De disfarce à tirania o voto obrigatório passou a ser sinônimo de garantias democráticas e por isso defendido pela maioria dos parlamentares. Mas o voto obrigatório é mais do que parte do ritual eleitoral. Ele é uma forma de aprisionar a liberdade do sujeito dirigido cada vez mais pelo espetáculo midiático que a televisão proporciona diariamente em nossas casas através de uma lei que obriga a transmissão de programas eleitorais. É outra medida obrigatória do nosso regime democrático em nome da educação política mas que funciona apenas para as TVs abertas poupando os assinantes de TV a cabo. Ela é destinada ao cidadão mediano, com escassos recursos materiais e prisioneiro preferencial das telerrealidades criadas diariamente para entretê-lo.
A democracia, não só no Brasil, transformou-se em ritual eleitoral eletrônico que funciona associando educação política a eleição. Quando muito instrui as pessoas a formarem grupos que aceitem a participação dentro do esquema das reivindicações seletivas organizadas pelos governos.
Hoje em dia elas são orientadas pelo princípio das sondagens eletrônicas que pretendem garantir a continuidade dos partidos ou das alianças políticas. As pessoas permanecem educadas para acreditar nos governos e a democracia se transformou num regime midiático, de respostas imediatas, que prioriza as pressões que possam ser transformadas em apoio político.
Com a midiatização da política, daqui para frente, seja com a continuidade do voto obrigatório ou com o regresso do voto facultativo, os governantes esperam irrisórias alterações significativas, mantendo sua eficiente educação que faz jovens e adultos acreditarem que votam livremente, mesmo quando coagidos.
Hoje em dia não se admite a sublevação contra a opinião pública. Isto seria considerado um crime!
Estamos no tempo da ditadura da opinião pública organizada pelas mídias. Um tempo em que os tiranos se apresentam como democratas juramentados como sempre em nome do povo, dos miseráveis, dos pobres, dos carentes, oprimidos ou excluídos. Não há mais o perigo da ditadura da opinião pública, da ditadura da maioria; hoje ela é governo. E você aí, por quê vai votar?
Núcleo de Sociabilidade Libertária - Nu-Sol
Texto extraido de http://www.nu-sol.org.
http://www.nu-sol.org/artigos/artigos.php?tipo=4#
domingo, 27 de julho de 2008

"Compartilhar
o saber"
Palestra de
PAUL SINGER
Paul Singer, economista austríaco naturalizado brasileiro, fará palestra no Festival Calango. Momento oportuno para ampliar o conhecimento
Por Cláudio Oliveira,
Da reportagem
Ele chega na semana que vem e vai compartilhar um pouco do seu vasto conhecimento aqui em Cuiabá. Paul Israel Singer, nascido em Viena, 24 de março de 1932 é um economista naturalizado brasileiro, que nasceu na capital austríaca. Vem de uma família judaica que, fugindo do nazismo, se radicou no Brasil desde 1940. Singer formou-se em eletrotécnica no ensino médio da Escola Técnica Getúlio Vargas de São Paulo e foi trabalhar na Atlas(elevadores).
Filiou-se ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e, como trabalhador metalúrgico, liderou a histórica greve dos 300 mil que paralisou a indústria paulistana por mais de um mês em 1953. Ele obteve a cidadania brasileira em 1954.
Estudou Economia na Universidade de São Paulo, mas segundo uma reportagem da Isto É ele já sabia tudo de economia. Nesta mesma reportagem é apontado como uma das maiores personalidades brasileiras do século passado no quesito justiça e economia.
Em 1960 inicia sua atividade docente na USP, como professor assistente. Em 1966 obteve o grau de doutor em Sociologia com um estudo sobre desenvolvimento econômico e seus desdobramentos territoriais, abordando cinco cidades brasileiras – São Paulo, Belo Horizonte, Blumenau, Porto Alegre e Recife - na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A tese deu origem ao livro “Desenvolvimento Econômico e Evolução Urbana”, sob orientação do professor Florestan Fernandes. Foi também professor-titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP.
Entre 1966 e 1967, estudou Demografia em Princeton(EUA). Em 1968, apresentou sua tese de livre-docência, Dinâmica populacional e Desenvolvimento. Teve seus direitos políticos cassados pelo AI-5 e foi aposentado compulsoriamente em 1969.
Nessa época, com alguns outros professores expulsos da universidade ou simplesmente discordantes do regime, como Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni, participa da fundação do Cebrap - Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, que se constituiu em importante núcleo da intelligentsia brasileira de oposição à ditadura militar. Atuou no Cebrap até 1988, quando foi Secretário Municipal de Planejamento de São Paulo.
Em 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, ao lado de outros intelectuais historicamente ligados à esquerda, como Francisco Weffort, Plínio de Arruda Sampaio, Perseu Abramo, Mário Pedrosa, Sérgio Buarque de Holanda, Chico de Oliveira e Vinícius Caldeira Brant. No mesmo ano volta a dar aulas ininterruptamente até assumir a secretaria de planejamento da prefeitura de SP no governo da Erundina.
Vem trabalhando com o tema da economia solidária dentro do governo Lula desde junho de 2003, como Secretário Nacional de Economia Solidária (SENAES) no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego.
Paul Singer tem atuado no incentivo da formação de cooperativas de autogestão voltadas para a economia solidária.
O Espaço Cubo, promotor do Festival Calango, é considerado vanguarda nacional quando o assunto é cooperativa e economia solidária. A idéia do Cubocard, por exemplo, é uma criação que precisa apenas de um reconhecimento do setor empresarial para aumentar o valor de troca e incentivar os próprios artistas a trocarem os seus serviços pelo crédito em cards.
Aliás, o Espaço Cubo, por meio do Festival Calango é o responsável pela vinda de Singer a Cuiabá e a proposta é ampliar a visão dos produtores culturais locais e incentivar a organização da cadeia produtiva no estado de MT.
A palestra é sobre Economia Solidária e será realizada no dia 7 de agosto provavelmente no Centro de Eventos do Pantanal. É claro que o DC Ilustrado estará lá para escutar e aprender mais. Apesar da formação econômica e de um repertório forte de economês, Paul Singer é um exemplo de vida, de luta e coerência. Ele vai tratar de um tema transversal com atenção na cultura. Há pouco tempo esteve no Fórum de Software Livre de Porto Alegre e incentivou o uso desta tecnologia que tem um caráter libertário e que tem como premissa do compartilhamento do conhecimento.
Este deve ser o compromisso da cultura, um espaço para a troca de informações e sentidos/percepções da vida. Singer irá contribuir como uma fonte de alimento para o fortalecimento das pessoas e das empresas de economia solidária que atuam no setor cultural ainda de maneira incipiente.
http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=322757
sábado, 19 de julho de 2008
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Caso Daniel Dantas:
exemplo da falência
da dominação burguesa
e do Estado no Brasil
ÀS RUAS! ÀS RUAS! ÀS RUAS!
Publicado em 13.07.2008
por Conselho Editorial
O caso do banqueiro Daniel Dantas, que vem escandalizando o noticiário político do país, é apenas mais um exemplo e uma confirmação total do esgotamento da dominação burguesa no Brasil.
Após a retirada dos militares, vieram diversos governos civis, Sarney, Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula. O governo deste último, sobretudo, aparecia como uma possível alternativa de transformação para amplos setores da juventude e dos trabalhadores.
Ora, desde agosto de 2005, com os escândalos do mensalão, quando ficou claro que os deputados da base do governo Lula recebiam propinas mensais de cerca de 50.000 reais para votar com o governo, se manifestou a falência total do “novo” regime. O “governo dos trabalhadores” nada de novo apresentava, mas sim, a continuidade de uma dominação burguesa decadente e corrupta.
Os escândalos se sucederam: malas de dinheiro; Severino presidente da Câmara obrigado a renunciar por corrupção; renúncia do presidente do Senado, Renan Calheiros, por motivos similares; antes, cassação do mandato de José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil e homem mais forte do governo Lula, acusado de chefiar a quadrilha do mensalão; acusações graves pesaram sobre o ex-presidente da Câmara dos Deputados, João Cunha, etc, etc, etc...
Diante da fragilidade da oposição burguesa e da passividade da oposição de “esquerda”, assim mesmo, Lula foi reeleito em 2006, como o único governo semi-bonapartista que poderia equilibrar a luta interburguesa e a luta de classes no Brasil.
Hoje, a explosão desse novo escândalo do banqueiro Daniel Dantas, como que “costura” todos os personagens do drama.
Os fatos recentes revelados demonstram que Daniel Dantas era uma peça chave desde, pelo menos, o governo Fernando Henrique, no financiamento de campanhas. Teria sido fundamental em todo o processo de desvio de dinheiro público em consonância com o publicitário Marcos Valério, desde o governo do PSDB. Revelou-se que possui vínculos com setores do “malufismo”, ao ficarem evidentes as suas ligações com Celso Pita, ex-prefeito de São Paulo vinculado a Paulo Maluf. Mas, o que é pior: descobriu-se que um dos advogados do banqueiro Daniel Dantas é, nada mais e nada menos, do que Luiz Eduardo Greenghald, um dos principais quadros do PT.
Pior ainda: foram reveladas gravações recentes, nas quais Greenghald conversa com o atual assessor especial da presidência da república, Gilberto Carvalho, e nas conversas pede que se tomem providências contra o delegado que está investigando o banqueiro Dantas. Este banqueiro seria peça chave em todo o esquema do “mensalão” que viria, pelo menos desde o governo FHC, transitando por caminhos malufistas, assim como, por percursos do PSDB e ações petistas. Entre outros “peixes” descobertos na rede de Daniel Dantas estaria Mangabeira Unger, ministro extraordinário de assuntos estratégicos do governo Lula. Unger há alguns anos era funcionário contratado de Daniel Dantas.
Com se vê, podemos perguntar: Malufismo, PSDB, PT e outros seriam variantes da mesma moeda? Isso indicam as revelações recentes.
Diante dessas revelações, tudo isso mostra a unidade relativa, a continuidade e certamente a disputa interburguesa entre malufismo (Nahas, Pita), PSDB (esquema montado no governo FHC), PT (Greenhald, Gilberto Carvalho, José Dirceu) e setores opositores, talvez vinculados a Gushiken, ex-ministro de Lula, hoje trabalhando para a Vale do Rio Doce. Mas, no final, eles se entendem de alguma forma.
Como se viu, Daniel Dantas, após duas prisões sucessivas ordenadas por mandatos de juiz federal foi liberado pelo Supremo Tribunal Federal, mesmo após ficar comprovado que tentou subornar, com um milhão de dólares, um dos delegados que investigava o caso. Grande número de juízes federais assinaram manifesto contra a libertação de Dantas e, da mesma forma, se manifestou a associação de delegados. Mas, provavelmente, tais protestos cairão no vazio.
Todos esses fatos mostram, acima de tudo, a falência e as contradições que assolam todos os poderes no Estado Brasileiro. Quais são os interesses em jogo? Por que a polícia federal, apesar de controlada pelo Ministro da Justiça, Tarso Genro, levou adiante tal investigação? Por que o Supremo Tribunal Federal procura proteger Daniel Dantas?
A impressão que se manifesta, de forma evidente, seria a de que grandes somas de dinheiro estão em jogo. Setores do capital estão em luta, uns aos outros tentando se expropriar. A grande maioria da sociedade brasileira e, particularmente, os trabalhadores, nada sabem, mas, em geral, são estes que pagam a maior parte da conta.
E Lula? Como sempre, exercendo o seu papel semi-bonapartista, aparece ausente do conflito. O presidente simula que, como a maioria da sociedade, nada sabe. Talvez seria interessante que o presidente perguntasse algo ao seu assessor especial, Gilberto Carvalho, ou ainda ao seu velho amigo Greenghald, advogado do banqueiro Daniel Dantas.
Diante da falência contraditória do Estado burguês brasileiro, mais do que nunca, os trabalhadores e a juventude precisam se organizar de forma independente e não confiar mais nos poderes existentes. Diante das instituições burguesas apodrecidas no Brasil, uma avenida se abre: às ruas, às ruas, às ruas!
CONSTRUIR UM NOVO PARTIDO!
CONSTRUIR UMA NOVA SOCIEDADE!
http://www.transicao.org/noticia.php?id=891
sábado, 21 de junho de 2008
PARA A RETIRADA
DO EXÉRCITO!!!
REPASSE ESTA MATÉRIA!!
A Justiça decidirá na próxima quinta-feira (26/06) se ordena ou não a evacuação do contingente do Exército que afronta e aflige a comunidade do Morro da Providência, tendo sido responsável pela tortura e morte de três cidadãos.
Conclamo a todos os democratas que ajudem a pôr um fim em mais essa tentativa camuflada de impingir à população a participação de militares em tarefas policiais. Que voltem para os quartéis, de onde só deveriam sair para cumprir suas verdadeiras missões: defender o Brasil contra inimigos externos e zelar pela segurança das fronteiras, do espaço aéreo e marítimo. Ordem interna é outro departamento.
Se houver interesse, o meu artigo FORA, EXÉRCITO! está disponível para repasse, publicação e citação:
FORA, EXÉRCITO!
Celso Lungaretti (*)
O que há de tão inusitado no fato de que militares, direta ou indiretamente, causaram a morte de três favelados que não haviam cometido crime nenhum, exceto o de não lamberem suas botas?
Durante a ditadura de 1964/85, assassinatos muito mais escabrosos foram por eles cometidos às dezenas, evidenciando que, quando desafiados, é mesmo com tal truculência e bestialidade que alguns de nossos militares reagem.
Também não será novidade nenhuma a existência de ligações perigosas entre integrantes das Forças Armadas e a criminalidade – isto se foram mesmo os traficantes que torturaram e executaram aqueles pobres coitados. Não deve ser descartada a hipótese de que se trate apenas de uma manobra diversionista, visando repartir com civis uma culpa exclusiva dos fardados -- mesmo porque o relato da mãe de um deles, que garante ter visto o filho caído e ensanguentado no quartel, traz logo à lembrança o acobertamento das circunstâncias da morte de Vladimir Herzog e tantos outros durante os anos de chumbo.
Enfim, prevalecendo a versão oficial, vale recordar o emblemático episódio da equipe de torturadores da PE da Vila Militar (RJ), que, na década de 1970, incorreu em associação, seguida de disputa de mercado, com contrabandistas, para compensar o esgotamento do vantajoso filão do combate à subversão, que lhe valia gordas propinas de empresários direitistas e o direito de rapinagem dos bens dos resistentes mortos ou detidos.
Como qualquer instituição, o Exército Nacional não tem apenas o paradigma por ele escolhido (Caxias). No outro extremo há o Capitão Aílton Guimarães Jorge, que conspurcou a farda duas vezes: como torturador e como contraventor.
O pior é que, mesmo tendo sido comprovado seu envolvimento com os contrabandistas, foi absolvido por seus pares. Não o expulsaram das Forças Armadas nem mandaram a julgamento na Justiça Civil, como seriam os procedimentos cabíveis. Deixaram que saísse do Exército pela porta da frente e fosse logo bater na porta dos fundos da fortaleza do bicheiro Tio Patinhas, iniciando a meteórica carreira que o transformou num dos reis da loteria zoológica e do bingo no Rio de Janeiro.
O que separa o Exército de Caxias do Exército do Capitão Guimarães não são desvios de conduta (o eufemismo que estão usando para justificarem o atual episódio chocante), mas sim desvios de função.
Como atestam os muitos escândalos e negociatas ocorridos (e encobertos pelo manto da censura) durante a última ditadura, os militares não são imunes à corrupção que atinge o resto da sociedade. Enquanto ficam restritos à sua missão constitucional, esperando nos quartéis a hora de defenderem a Nação contra inimigos externos, mantêm-se razoavelmente a salvo desse contágio.
No entanto, ao saírem da caserna para policiar favelas ou a sociedade como um todo, podem tornar-se uma monstruosidade: criminosos especificamente treinados para a guerra e detentores do monopólio do uso legal da força.
Foi por isso que em abril de 2007, quando o governador Sérgio Cabral mandou ofício ao presidente Lula pedindo a ajuda das Forças Armadas para “assegurar a lei e a ordem na região metropolitana do Rio”, eu adverti que haveria “os inevitáveis episódios chocantes” e que o Estado não tinha “o direito de dispor a bel-prazer da vida dos favelados inocentes” (artigo Em abril Cabral descobre... os quartéis!, 12/04/07, http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2007/04/em-abril-cabral-descobre-os-quartis.html ).
A reação da sociedade, principalmente dos defensores dos direitos humanos, tem evitado que se consagre essa política de delegar aos militares a manutenção da ordem interna – desastrosa sempre que a tentaram implantar. Daí o subterfúgio de requisitar-se o Exército para fornecer segurança ao projeto Cimento Social no morro da Previdência, um exercício de relações-públicas visando preparar o caminho para o desejo de Cabral se tornar realidade.
Pois bem, o tiro saiu pela culatra e, em vez de agradecida, aquela comunidade carente está gritando “Fora, Exército!”.
As primeiras reações oficiais, entretanto, foram as piores possíveis: lágrimas de crocodilo em novo exercício de relações-públicas (o pedido de desculpas às famílias da vítima) e, o que realmente conta, os esforços do Executivo para preservar a iniciativa funesta, não acatando a sábia liminar concedida pela Justiça.
Três cidadãos torturados e mortos até agora não foram suficientes para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desista de enfiar pela goela da sociedade adentro o desvio de função dos militares. Quantas outras atrocidades serão necessárias?
* Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
quinta-feira, 29 de maio de 2008
DENUNCIA PRODUTORES
DE ETANOL
...MAS COM GENTE
É DIFERENTE
Por Celso Lungaretti
"Então não pude seguir valente lugar-tenente de dono de gado e gente porque gado a gente marca,tange, ferra, engorda e mata,mas com gente é diferente"(Vandré e Théo, "Disparada")
Estados policiais sonegam a bel-prazer informações vitais para os cidadãos. Foi o que fez a ditadura militar brasileira, p. ex., com as mortes de trabalhadores rurais intoxicados por defensivos agrícolas e com uma epidemia de meningite, sob pretexto de evitar o pânico.
O primeiro episódio eu acompanhei bem de perto. Trabalhava na agência de comunicação empresarial que, em meados da década de 1970, foi contratada por uma multinacional para abafar as sucessivas ocorrências de envenenamento de cidadãos brasileiros das áreas rurais.
Tratava-se de um contrato tão crapuloso que a conta era integralmente paga pela tal multinacional, mas o trabalho executado em nome de uma associação fantasma de fabricantes de agrotóxicos, criada às pressas para servir de fachada naquela situação.
Coube-me redigir material de imprensa destacando a contribuição que os defensivos agrícolas estariam dando à agricultura brasileira e os prejuízos terríveis que sua eventual proibição acarretaria: fome da população, desemprego no campo, queda das exportações.
Eram textos aparentemente inocentes, mas não o que estava por trás deles: o raciocínio desumano de que, para evitarem-se tais prejuízos, podiam ser relevadas algumas mortes.
Pior ainda era o papel do dono da agência, que se incumbia pessoalmente de falar com os jornalistas influentes, distribuindo subornos e ameaças veladas. Repugnava-me vê-lo elogiar a si próprio por haver conseguido sustar a publicação de uma notícia que já descera para a gráfica de um grande jornal. “Eu parei as rotativas”, dizia, vangloriando-se para empresários interessados nos seus serviços.
Participar dessa empreitada foi a primeira grande desilusão de minha carreira jornalística. Muitas outras haveria, com os interesses econômicos prevalecendo sobre o bem comum e eu nada podendo fazer para remediar a situação, sob pena de ficar com o mercado de trabalho totalmente fechado para mim.
Então, graças à censura sobre a imprensa e aos mecanismos de persuasão dos poderosos, o povo brasileiro deixou de ser informado dos riscos que corria quem utilizasse agrotóxicos e das mortes por envenenamento sucedidas em todo o País.
A tal multinacional, que jamais ousaria proceder de forma tão leviana no 1º mundo (ao não investir no treinamento adequado dos usuários de seus produtos), conseguiu apagar o incêndio: ministrou rapidamente os cursos que deixara de promover antes e não arcou com as multas astronômicas que lhe seriam aplicadas em qualquer país no qual o governo cumprisse os deveres assumidos com os governados.
De quebra, indenizou mal e porcamente, por baixo do pano, as famílias das vítimas, que não tiveram como obter reparações à altura da gravidade das perdas que sofreram.
Ficou-me também a impressão de que o êxito da operação de acobertamento se deveu ao fato de que os mortos eram irrelevantes. Se os finados não fossem os coitadezas das zonas rurais, certamente aquelas mortes acabariam tendo maior repercussão.
Estas tristes lembranças me foram evocadas pela leitura do relatório anual de 2008 da Anistia Internacional, que acaba de ser divulgado. Nele, pela primeira vez, o setor canavieiro do Brasil, dedicado à produção do etanol, é acusado de abusos e violações de direitos humanos.
"Trabalho forçado e condições de trabalho exploradoras foram registrados em muitos Estados", diz o relatório, acrescentando que o Ministério do Trabalho teve de resgatar 288 trabalhadores de seis plantações de cana-de-açúcar em São Paulo, 409 de uma destilaria de etanol no Mato Grosso do Sul e mais de mil reduzidos a condições "análogas à escravidão" na plantação paraense de uma fabricante de etanol.
As ocorrências do último ano foram tão graves que a Anistia Internacional resolveu elaborar um estudo sobre o impacto do crescimento da agroindústria como um todo sobre o respeito aos direitos humanos no Brasil. Além da cana-de-açúcar, os setores madeireiro e de produção de laranja também estão sob investigação.
O relatório ressalta que, caso o Brasil continue tendo um desempenho doméstico tão inferior à defesa que faz dos direitos humanos em termos internacionais, sua credibilidade nessa área será abalada.
Também foi questionada a conivência brasileira em relação às mortes e torturas praticadas por agentes policiais. “As pessoas em comunidades marginalizadas continuam a viver em meio a níveis altos de violência causada tanto por gangues criminosas como pela polícia”, diz o relatório.
Ressalta, neste sentido, que "a polícia do Rio de Janeiro matou 1.330 pessoas em situações chamadas de resistência seguida de morte, o número mais alto em toda a história do Brasil", manifestando sua preocupação com o apoio de setores do governo federal, inclusive o presidente Lula, a operações "de estilo militarista" no Rio de Janeiro.
O relatório, enfim, é um ótimo alerta para nós: nem os usineiros fazem jus aos louros de novos heróis da Nação, como quer Lula; nem as barbaridades praticadas pelas tropas de elite constituem uma resposta à criminalidade aceitável num país civilizado.
Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/
terça-feira, 27 de maio de 2008

"QUATRO ANOS
SEM A CORAGEM DE
LÉLIA ABRAMO"
Em 9 de abril de 2004,aos 93 anos Lélia partiu ,e mais uma vez ficamos sem a presença de uma de nossas grandes e inesquecíveis artistas,sendo que no caso de Lélia Abramo,além de artista,uma grande cidadã e militante política ! A firmeza de ideais de Lélia e seu carater impecável, causam verdadeiro orgulho às mulheres que como ela,possuem forte senso de justiça e a semente de liberdade em suas almas! Nadia Stabile - 27/05/08
"(...)Sua militância política custou-lhe a carreira televisiva, pois passou a ser ignorada pela Rede Globo, em razão de ter sido presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, a partir de 1978, tendo sido a primeira chapa de oposição a tornar-se vitoriosa no periodo iniciado pela ditadura militar brasileira de 1964. Esta eleiçao ganhou as principais páginas dos jornais paulistas da época, apesar da intensa censura, tendo como seus companheiros de diretoria Renato Consorte, Dulce Muniz, Cláudio Mamberti, Robson Camargo, entre outros.
A editora da Fundação Perseu Abramo lançou sua autobiografia em 1997, intitulada Vida e Arte - Memórias de Lelia Abramo.
Como atriz de teatro participa de Esperando Godot, de Beckett, dirigida por Antunes Filho, onde faz o papel de Pozzo (1984).(...)
http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%A9lia_Abramo
domingo, 11 de maio de 2008
o cantador canta...
muitos tentam calá-lo,as cordas do violão quebram,
o público às vezes o esquece,ele continua a cantar!
sobrevoa aqueles que numa hora ou outra,
se verão cantadores,cantadores eternos porque teem a alma livre,
a liberdade para o cantador é seu corpo,sua alma.
nesses dias minha viola quebrou,minha asa quebrou,
mas a liberdade não ...
responder ao texto de Lungaretti,falar das mães da praça de maio,
dizer que as mulheres produziram armamentos bélicos,
e não só gestaram soldados para as próximas guerras,
mães,eternas cantadoras,cantam sempre a mesma cantoria,
mesmo os homens tentando distraí-las...
mães e cantadores,tomara toda mãe fosse uma cantadora
e todo cantador fosse Elomar,"mãe" da música brasileira.
Nadia Stabile - 11/05/08
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Entre os dias 12 e 15 de maio haverá um seminário no Rio de Janeiro para relembrar e discutir a efervecência política e cultural de maio de 1968 em todo o mundo. "Nós que amamos tanto a revolução", a série de debates, tem início no Palácio Gustavo Capanema, a partir das 10h - RIO DE JANEIRO
VEJA A PROGRAMAÇÃO AQUI:
http://ousarlutar.blogspot.com/2008/05/40-anos-de-maio-de-68.html
de Roberto Mader
Estreou no dia 1º de maio, “Condor” , documentário de Roberto Mader que procura revelar a história da operação de mesmo nome que uniu as ditaduras de nosso Cone Sul para reprimir qualquer oposição ao regime.Roberto Mader percorreu diversos países latino-americanos, principalmente o Chile, Argentina e Uruguai, além dos EUA, para investigar como funcionou a operação e narra suas diferentes versões através de depoimentos emocionantes de algumas vítimas e personagens desse período marcante da história da América Latina.Entre os entrevistados estão o general Manoel Contreras (braço direito de Pinochet), Pinochet Jr., Jarbas Passarinho e Hebe Bonafini, do grupo das Mães de Maio. O longametragem foi o vencedor dos prêmios de Melhor Documentário no Festival do Rio e Prêmio Especial do Júri em Gramado em 2007.
1968,O RENASCER DAS
CINZAS E O HOMEM NOVO
Por Celso Lungaretti
“O anseio meu nunca mais vai ser só
Procura ser da forma mais precisa
O que preciso for
Pra convencer a toda gente
Que no amor e só no amor
Há de nascer o homem de amanhã”
(Geraldo Vandré, "Bonita")
O ideário político dos contestadores de 1968 é pouco lembrado e menos ainda reverenciado, já que não convém aos que hoje confrontam o capitalismo e suas inúmeras mazelas (desigualdade social, ganância e competição exacerbadas, parasitismo, mau aproveitamento do potencial produtivo que hoje seria suficiente para proporcionar-se uma existência digna a cada habitante do planeta, danos ecológicos, etc.) a partir de posições mais ortodoxas.
Nas barricadas parisienses, gritando slogans como “a imaginação no poder” e “é proibido proibir”, muitos estudantes erguiam as bandeiras negras do anarquismo, que marcara forte presença nos movimentos revolucionários do século 19, mas havia perdido terreno desde a vitória do bolchevismo em 1917.
A tentativa de construção do socialismo em países isolados e economicamente atrasados já se evidenciava desastrosa, por degenerar em totalitarismo. A URSS e seus satélites, bem como a China e Cuba, sacrificavam uma das principais bandeiras históricas das esquerdas, a liberdade, para priorizarem a outra, a igualdade.
E nem a esta última conseguiam ser totalmente fiéis. Propiciavam, sim, melhoras materiais significativas para os trabalhadores, mas nem de longe extinguiram os privilégios, tornando-os até mais afrontosos ao substituírem as antigas classes dominantes por odiosas nomenklaturas (as camadas dirigentes do partido único e as burocracias governamentais, que se interpenetravam e coincidiam na justificativa/imposição de seu status de mais iguais).
O desencanto dos jovens europeus com o socialismo real se somou à constatação de que o proletariado industrial das nações prósperas se tornara baluarte, e não inimigo, do capitalismo. Seduzido pelos avanços econômicos que vinha obtendo, preferia tentar ampliá-los do que apostar suas fichas numa transformação radical da sociedade. Ou seja, face à célebre alternativa de Rosa Luxemburgo – reforma ou revolução? – os aristocratizados operários do 1º mundo optaram pela primeira, como Edouard Bernstein previra.
Em termos teóricos, o filósofo Herbert Marcuse já dissecara tanto o desvirtuamento do marxismo soviético quanto a transformação do capitalismo avançado num sistema impermeável à mudança, a partir da sedução do consumo, da eficiência tecnológica e da influência atordoante da indústria cultural, que estava engendrando um homem unidimensional (incapaz de exercer o pensamento crítico).
Foi ele a grande inspiração dos jovens contestadores de 1968, mesmo porque praticamente augurara sua entrada em cena, assumindo o papel de vanguarda que o proletariado deixara vago.
Para Marcuse, somente os descontentes com a sociedade (pós) industrial – intelectuais, estudantes, boêmios, poetas, beatniks e demais outsiders – perceberiam seu totalitarismo intrínseco e seriam capazes de revoltar-se contra ela. Os demais, partícipes do sistema como produtores e consumidores, seguiriam mesmerizados por sua racionalidade perversa.
O diagnóstico de Marcuse acabaria sendo melancolicamente confirmado quando esses descontentes colocaram a revolução nas ruas de Paris e o proletariado lhes voltou as costas, preferindo arrancar pequenas concessões de De Gaulle do que apeá-lo do poder. O Partido Comunista Francês, quem diria, desempenhou papel decisivo na manutenção do status quo, ajudando a salvar o capitalismo na França.
Mas, o esmagamento das primaveras de Paris e de Praga não conteve o impulso dessa nova maré revolucionária, que continuou pipocando nos vários continentes, com especial destaque para a contracultura e o repúdio à Guerra do Vietnã por parte da juventude estadunidense.
Foi, principalmente, nos EUA que os novos anarquistas se lançaram à criação de comunidades urbanas e rurais para praticarem um novo estilo de vida, solidário e livre. Substituíam os antigos laços familiares pela comunhão grupal – ou, como diziam, tribal – e dividiam fraternalmente as tarefas relativas à sua sobrevivência, tal como sucedia nas colônias cecílias de outrora.
A idéia era a de irem expandindo a rede de territórios livres até que engolfassem toda a sociedade. Então, em vez de colocarem a tomada do poder como ponto-de-partida para as transformações sociais, deflagradas de cima para baixo, eles pretendiam expandir horizontalmente seu modelo, pelo exemplo e adesão voluntária (nunca pela coerção!), até que se tornasse dominante.
Acreditavam que, descaracterizando seus ideais para conquistarem os podres poderes, os revolucionários acabavam sendo mudados pelo mundo antes de conseguirem mudar o mundo. Então, era preciso que ambos os processos ocorressem simultaneamente: deveriam construir-se como homens novos à medida que fossem construindo a sociedade nova.
Esse anarquismo renascido das cinzas e atualizado foi o último grande referencial revolucionário do nosso tempo, daí despertar até hoje a simpatia dos jovens que buscam a saída do inferno pamonha do capitalismo (uma definição antológica do Paulo Francis!) e a ojeriza daquela esquerda que ainda se restringe aos projetos de conquista do poder político.
A questão é se, como em outras circunstâncias históricas, a maré revolucionária será novamente retomada a partir do último ápice atingido (mesmo que com intervalo de décadas entre os dois ascensos).
Os artistas, antenas da raça, crêem que sim. Desde o genial cineasta suíço Alain Tanner (Jonas, Que Terá 25 Anos no Ano 2000), para quem as vertentes e tendências de 1968 voltarão a confluir, reatando-se os fios da História, até nosso saudoso Raul Seuxas, que nos aconselhava a tentarmos outra vez e tantas vezes quantas fossem necessárias, não dando ouvidos às pregações tendenciosas da mídia contra a geração das flores e das barricadas.
Esta digressão, que começou citando uma pungente canção de Vandré, merece ser encerrada com um desabafo, que talvez venha a se revelar profético, do bravo guerreiro Raulzito (em “Cachorro Urubu”): “Todo jornal que eu leio/ Me diz que a gente já era/ Que já não é mais primavera/ Oh baby, oh baby,/ A gente ainda nem começou”.
Celso Lungaretti, 57 anos, é jornalista e escritor.
Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/









