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sábado, 6 de junho de 2009

TÚNEL DO TEMPO: TROPAS OCUPAM A USP, COMO NA DITADURA


Celso Lungaretti (*)

Termine como terminar a nova ocupação policial da Universidade de São Paulo, o grande perdedor, claro, é o governador José Serra, que começou sua trajetória política como presidente da União Nacional dos Estudantes e agora repete as práticas autoritárias do ministro da Educação da ditadura, Jarbas Passarinho.

Faz lembrar a propaganda contra armas que eu via nos ônibus quando criança: “hoje mocinho, amanhã bandido”.

Depois que o estado de direito foi restabelecido no Brasil, a atitude de tratar movimentos reivindicatórios e sociais como casos de polícia parecia estar destinada à lata de lixo da História, como parte da herança maldita do regime militar.

Foi estarrecedora a postura de Serra, ao permitir que as tropas ocupassem várias unidades de uma instituição universitária, como resposta a uma simples greve de funcionários!

Quanto à reitora, é a pessoal errada no lugar errado. Clama aos céus que não tem a mínima idéia do que seja um templo do saber e da decisão nefasta que tomou ao, com o aval de Serra, chamar a polícia para o campus.

Veio-me à lembrança a frase imortal de D. Paulo Evaristo Arns, diante da invasão da Pontifícia Universidade Católica pela PM: "'Na PUC só se entra prestando exame vestibular".

O resultado não se fez por esperar: agora os professores e os alunos também estão em greve, reagindo à truculência e à intimidação.

Serra é mais uma personalidade empenhada em incinerar seu currículo, talvez até como forma de se tornar palatável para os inimigos de ontem. Quer mostrar serviço para a direita, convencendo-a de que é capaz de servi-la fielmente, aplicando força desnecessária e criminalizando os movimentos dos quais outrora participou.

Vendeu a alma na esperança de chegar à Presidência da República. Tomara que nem essa contrapartida obtenha!

Talvez Serra até venha a seguir a exortação atribuída ao jornalista José Nêumanne Pinto, de que a polícia deveria mesmo é mandar bala nos baderneiros.

Se foi isso mesmo o que Nêumanne disse num telejornal matutino do SBT, é melhor ele abandonar de vez a profissão de jornalista, pois terá se tornado um estranho no ninho. Aliás, quem fala algo assim apartou-se da própria civilização.

Registro, finalmente, minha total e irrestrita solidariedade aos bravos professores, estudantes e funcionários da USP, que neste momento estão na linha de frente da resistência da sociedade brasileira às forças obscurantistas empenhadas em, pouco a pouco, irem reintroduzindo o autoritarismo em nosso cotidiano.

* Jornalista e escritor, mantém os blogues
http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/
http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

Os Insurgentes - Conversa com Guilherme Correa (Edson Passeti entrevista) - TV PUC-SP - CANAL UNIVERSITÁRIO (4 partes)













Latuff - Outro Olhar - TV Brasil (sobre direitos autorais.ARTE É COMO FILHO,NÃO DÁ PRA TER CONTROLE SOBRE A OBRA DE ARTE - LATUFF)


O quadro "Outro Olhar" do noticiário noturno da TV Brasil, apresentou ontem, dia 19 de março, uma matéria sobre cultura livre, apresentando o trabalho do jornalista Tiago Juca e do cartunista Carlos Latuff. Meus sinceros agradecimentos ao Coletivo Catarse http://coletivocatarse.blogspot.com/ na pessoa de André de Oliveira e Jefferson Pinheiro, bem como o esforço de Janaina Rocha, da Agência Brasil.

O conteúdo deste vídeo é publicado sob uma Licença Creative Commons Atribuição 2.5. Brasil.

Guerreiros Sem Armas parte I



O Instituto Elos reuni 54 jovens de 17 países para arregaçar as mangas e promover transformação humana e urbana nos cortiços no centro de Santos. Veja como foi.


” No caminho do guerreiro, cabe a você discernir o que foi tecido pelos fios divinos e o que foi tecido pelos fios humanos. Quando você principia a discernir, você se torna um Txucarramãe – um guerreiro sem armas. Porque os fios tecidos pela mão do humano formam pedaços vivificados pelo seu espírito. Essa mão gera todos os tipos de criação. Muitas coisas fazem parte de você para se defender do mundo externo, geradas pela sua própria mão e pelo seu pensamento. Quando você descobre o que tem feito da sua vida e como é sua dança no mundo, desapega-se aos poucos das armas, que são criações feitas para matar criações. De repente, descobre-se que, quando paramos de criar o inimigo, extingue-se a necessidade das armas.”

(Kaká Werá Jecupé)


LEIA MAIS EM :
FONTE : http://guerreirossemarmas.wordpress.com/guerreiros-sem-armas-jovens-empreendedores-sociais/

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Moeda social substitui dinheiro e estimula desenvolvimento local


12 de novembro de 2008

Fonte: Fernanda Barreto (fernanda.ascom@brasilocal.org.br)

O mundo financeiro mudou. As bolsas encolheram, moedas esvaziaram-se e grandes bancos desapareceram do mapa.
No Brasil, existem, porém, 33 comunidades que dão as costas para o que acontece no resto do planeta. Se
consultadas, seriam capazes de dar lições de economia aos poderosos. Elas imprimem o seu próprio dinheiro, só compram
com desconto e emprestam a menos de 1% ao mês. Não é pouca coisa. A chamada economia solidária já conta com
35 bancos e cinco moedas próprias em circulação. No lugar do real, entram papéis alternativos, como a palmas, o bem, a
terra ou a oração, que chegam a valer mais do que a moeda oficial do país.
Dentro do sistema de economia solidária, não existe crise financeira. Nem internacional, nem local. O funcionamento é
simples: em vez de pagar em reais, o consumidor usa a moeda social em circulação no seu bairro ou cidade. No
comércio local, ele ganha desconto ao pagar com esse dinheiro. Já o comerciante pode desfazer a troca no banco
social, se tiver necessidade de fazer compras fora da comunidade. “Com isso, a riqueza fica dentro do bairro, pois o
pagamento em palmas ou orações não tem valor fora dali”, observa. É o oposto da economia globalizada, onde o investidor
só aplica no Brasil se ele for o país mais rentável no momento. “Durante uma crise, os investimentos evaporam, porque
não há nenhum vínculo com o país ou com a comunidade. A riqueza muda muito rapidamente de lugar”, compara
Peterson Gandolfi, professor de administração da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
A primeira experiência com moeda social de Minas Gerais está instalada em Uberlândia, na rica região do Triângulo
Mineiro. Quem colabora na organização não-governamental (ONG) Ação Moradia recebe o pagamento pelas horas
trabalhadas em hora-ação, o nome oficial da moeda. Em mineirês, foi encurtado para oração. Na prática, cada hora de
colaboração na cozinha, na limpeza ou na costura corresponde a uma oração. Com o tempo, Enilda passou a achar mais
bonito receber o salário em moeda solidária. “Aqui dentro, a oração vale do mesmo jeito que o real”, completa.
Com as cédulas na mão, devidamente numeradas e plastificadas, é possível trocar por mercadorias usadas no bazar,
que recebe doações de eletrodomésticos, móveis e computadores das empresas da região. Na tabela de preços, um par de
meias vale duas orações, um fogão sobe para 50 orações e o computador atinge o teto de 70 orações. “Nenhuma comunidade
é tão pobre que não consiga gerar sua própria riqueza. O problema é que o trabalhador gasta o seu salário mínimo no
supermercado das grandes redes, em vez de dar preferência para o mercadinho do bairro. Com a moeda alternativa, o
dinheiro forçosamente vai ficar dentro da comunidade e circular lá dentro. Quem quiser comprar fora terá de trocar por
reais”, explica o empresário Oswaldo Cetti, que fundou a entidade com a mulher, Eliana Maria Carrijo Setti. No caso
dele, a moeda social também minimizou o dilema na hora de distribuir as doações de bens de maior valor e ajudou a
captar mais horas de trabalho “voluntário” entre as pessoas da comunidade.
Bom, seguro e sempre solidário Cadastros de clientes são baseados na confiança e praticamente não há inadimplência
no setor. Mas também existem regras legais para os bancos sociais
O 15 de setembro de 2008 já entrou para a história como o marco do maior crash internacional depois de 1929. Nesse
dia, o mundo percebeu o alcance da quebradeira quando o Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos
americano, pediu concordata. Não há risco de nada parecido ocorrer com nenhum dos 35 bancos comunitários
brasileiros que, do dia para a noite, se tornaram as únicas instituições realmente sólidas no mercado. Só por um motivo: a
garantia é de outra ordem, não-financeira. “Aqui não há como ocorrer o subprime americano (traduzido como distribuir
empréstimos imobiliários a quem não tem condições de pagar). Antes de emprestar, o banco vai lá na casa dele e
pergunta para o vizinho e para a sogra se o fulano é bom pagador, se ele costuma atrasar as contas. Com isso,
consegue fazer uma avaliação de cadastro mais profunda do que o sistema internacional de crédito”, diz Peter Gandolf,
da UFU. Para Oswaldo Cetti, fundador da ONG Ação Moradia, nenhuma comunidade é tão pobre que não possa gerar
sua própria riqueza.
Nos bancos sociais, a inadimplência acima de 60 dias é perto de zero. Em média, o atraso nas prestações não passa de
10 dias. “Quem ficou devendo dá um jeito de arranjar dinheiro, pega emprestado com parentes para não ficar
inadimplente com o banco e nem sujar o nome. Ele sabe que atrasar no banco é coisa séria, pois o dinheiro é da
Fórum Brasileiro de Economia Solidária
http://www.fbes.org.br
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comunidade, é dele”, explica o professor da UFU. Também o critério de cessão dos créditos é outro, proporcional à
necessidade do tomador. “Os critérios são definidos por agentes de crédito escolhidos pela comunidade. Não é porque
o mundo está caindo que o banco vai negar o financiamento de R$ 500 para o pipoqueiro que precisa comprar um
novo carrinho para trabalhar. Se o dinheiro está mais curto e falta liquidez no mercado, ele terá preferência”, completa.
As comunidades também sofrem com as oscilações do real, porque as moedas sociais têm paridade com a moeda
oficial. Para cada oração ou palma, o banco social tem um real guardado em caixa. Isso garante que as moedas sejam
lastreadas em reais e mantém os bancos dentro da lei – que restringe a emissão de dinheiro ao Banco Central (BC).
Mas as regras comuns das notas de real caem por terra diante da realidade. “Se o tráfico matou três filhos de um
correntista, caso verdadeiro que ocorreu em nosso banco, foi feita uma renegociação da dívida em mais prestações. No
banco tradicional, ele passaria a ser um inadimplente. A decisão passou pelo crivo das pessoas da comunidade, que
assumem o compromisso de manter o banco funcionando, de acordo com a disponibilidade de caixa”, informa Leonora
Laiboissière Mol, presidente do Banco Bem, de Vitória, no Espírito Santo, o primeiro da Região Sudeste.
Valores Em três anos, o modelo do Banco Bem já foi replicado no Banco Terra e Banco Verde Vida, em Vila Velha, e
no Banco Sol, em Cariacica. A proposta de abrir um banco social chegou a ser apresentada em Uberlândia, mas não foi
para frente. A entidade recusou também o projeto de instalar uma filial do Banco Popular do Brasil, subsidiária do
Banco do Brasil voltado para o microcrédito. “O BB estava mais interessado em dar empréstimos aos moradores, a
juros que variam de 1,5% a 3,5% ao mês. Não havia uma contrapartida”, reclama Oswaldo Cetti. Segundo ele, algumas
vezes não adianta explicar a proposta da entidade. “Nessa altura da vida, o dinheiro além do necessário perde o
sentido. De herança, quero deixar outros valores”, conclui.
Moedas já circulam em 33 cidades As moedas sociais circulam hoje em 33 comunidades, sendo 24 delas no Ceará.
Em municípios menores, a moeda circula por toda a cidade, caso do acaraú, em Tamboril. Na capital Fortaleza, a mais
forte é a palmas, do Conjunto Palmeiras. Pelo Banco Palmas, circulam atualmente cerca de 25 mil palmas, aceitas em
250 pontos de comércio cadastrados.
“Na nossa comunidade não tem inflação, porque não há excesso de dinheiro na praça. Nós mapeamos a produção e a
necessidade de consumo local. Se os moradores precisam de 800 sabonetes por mês, damos um incentivo para abrir a
fábrica da Palmalimp, que vai produzir sob encomenda”, explica João Joaquim de Melo Segundo, coordenador da Rede
Brasileira de Bancos Comunitários e do Instituto Banco Palmas.
Oferta e procura Segundo Joaquim, ao fazer isso, a economia solidária não subverte a lei da oferta e da procura (a lei
máxima do mercado), mas equilibra os pratos da balança. “É a lei da justa medida. O capitalismo trabalha com o princípio
da escassez, onde uns ganham e outros perdem. A nossa é a teoria da abundância, onde tem espaço para todo mundo.”
A teoria é muito bonita. Mas funciona, na prática? “Estamos provando que sim. Basta reorganizar a economia para
gerar trabalho e emprego”, defende João Joaquim.
Um desafio é o livre-arbítrio dos moradores nas decisões de compra. Surge a dúvida: e se a dona-de-casa do Conjunto
Palmeiras quiser continuar usando o detergente da Bombril? “É preciso conscientizar a comunidade, mostrar que existe
uma diferença profunda entre levar o produto da Palmalimp e o da Bombril, uma grande marca americana que já está
rica. Ela terá de fazer a opção entre ter o bico dosador ou apostar na fábrica local, que no futuro vai contratar um jovem
do bairro. A maneira como a gente consome define o tipo de sociedade que queremos construir”, afirma. Para substituir o
bico dosador, Joaquim sugere bater um prego na ponta da embalagem plástica, que, segundo ele, faz o mesmo efeito.

http://www.fbes.org.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=3918.

Reunião da Rede Paulista de Trocas Solidárias é amanhã dia 28/02 (Economia Solidária RS/Post 305)


Posted by: Economia Solidária/RS on: 27/02/2009

* In: Clube de Trocas| Economia Solidária| Feira de Trocas| Moeda Social| SP
* Comment!

Reunião da Rede Paulista de Trocas Solidárias, amanhã dia 28/02/2009, as 10:00 horas, na Rua Padre Jose Maria, 555 – Santo Amaro – SP (Cecco Santo Amaro), solicitamos a todos e todas uma ajuda solidária, se possível chegar as 09:00 horas, para ajudar na montagem das barracas da feira de trocas que funciona neste mesmo local as 11:00 horas.

Pré pauta da reunião:
1- Encontro entre formadores e organizadores de Bancos Comunitários na Região Sul de São Paulo.
2 – Visita de Margrit Kennedy a São Paulo.

Calendário de Feiras de Trocas em São Paulo no mês de Março / 2009.

28/02/2009 – CECCO Santo Amaro, Clube de Trocas moeda social Talento - Local: Rua Pe Jose Maria, 555 – Santo Amaro – São Paulo – SP. Referencia: do lado do Terminal Santo Amaro. Feira de trocas das 11:00 as 14:00.

01/03/2009 – Clube de trocas no GOTI - Endereço: Rua Delfin do Prata, 15 A – Santa Terezinha – Pedreira – Santo Amaro - SP. Feira de trocas das 14:00 as 17:00h. (Obs: Estamos necessitando de livros infantis para a creche que funciona neste espaço, o pagamento dos livros será em moeda social, quem puder ajudar, agradecemos toda ajuda).

08/03/2009 - Clube de Trocas do Jd. Ângela e Capão Redondo - Horário: 13h as 17h - Local: Associação Sonia Ingá. Endereço: R. Felipe Manara, 13 - Jd Sonia Ingá - Neste próximo Clube haverá a comercialização de alimentos doados pelo ENEDS.

Atenção, para esta próxima feira de trocas com mudança de endereço.
14/03/2009 – Feira de Trocas Solidárias – AME JABAQUARA - Local: Rua Godofredo Braga, 215 – Jabaquara (Próximo ao Metro Jabaquara) - Das 11:00 as 14:00 horas. Telefone de contato 3294-1021 / 5588-0599.

21/03/2009 - Feira de trocas das 10 as 17 horas na Rua Dr. Lund, 361 – ponto de referencia de baixo do Viaduto Gricério – Centro São Paulo. Teremos nesta feira de trocas 7 Empreendimentos solidários, oferecendo valor estimado a R$ 1.000,00 em produtos a base de trocas, entre os produtos, doces, salgados, bijuterias, bolsas, cachecóis, mudas e plantas, outros participantes desta feira, também estarão oferecendo outros produtos. Neste dia ainda teremos a visita de Margrit Kennedy que propõe a implantação da moeda ecológica e a liberação dos juros bancários como a solução dos males do capitalismo.

29/03/2009 – CECCO Santo Amaro, Clube de Trocas moeda social Talento - Local: Rua Pe Jose Maria, 555 – Santo Amaro – São Paulo – SP. Referencia: do lado do Terminal Santo Amaro. Feira de trocas das 11:00 as 14:00.

Fonte: clube de trocas em São Paulo

http://outraeconomiacontece.wordpress.com/2009/02/27/reuniao-da-rede-paulista-de-trocas-solidarias-e-amanha-dia-2802-economia-solidaria-rspost-305/

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O QUE É NATURISMO? DA WIKIPÉDIA

O naturismo (não confundir com naturalismo) é um conjunto de princípios éticos e comportamentais que preconizam um modo de vida baseado no retorno à natureza como a melhor maneira de viver e defendendo a vida ao ar livre, o consumo de alimentos naturais e a prática do nudismo, entre outras atitudes.

Etimologia da palavra

A palavra naturismo provêm do francês naturisme, que é a doutrina filosófica que se baseia num modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática do nudismo em grupo, que tem por intenção favorecer o auto-respeito, o respeito pelo outro e o cuidado com o meio ambiente.

História

Difundido a partir do período de entreguerras em alguns países da Europa, especialmente Alemanha e Países Baixos, o naturismo chegou ao Brasil e se notabilizou pela sua prática mais marcante: o nudismo. Em Portugal foram oficializadas algumas praias para a prática do nudismo no entanto, esta prática acontece de forma livre em muitas outras praias do país de forma mais ou menos generalizada e aceite, em particular em zonas mais afastadas dos restantes banhistas.

No paraíso

Segundo o relato do Gênesis, “tanto o homem como a mulher estavam nus e não se envergonhavam.” (Gên 2, 25). Mas, logo a seguir, não resistiram à tentação e pecaram. “Abriram-se então os olhos de ambos e reconheceram que estavam nus; coseram folhas de figueira e fizeram cinturões para si.” (Gên 3,7). A iconografia ocidental encarregou-se de ilustrar o contraste entre antes e depois da queda. Antes, Adão e Eva, no esplendor da beleza, viviam nus no paraíso. Depois, constrangidos, procuram ocultar os órgãos genitais. Na interpretação da exegese, oficializada pela Igreja, isso ocorreu devido ao despertar da concupiscência, primeira manifestação da desordem que o pecado introduziu na harmonia da criação.[carece de fontes?]

Idade Antiga

Do século II até o final do IV, os romanos, sem excluir os cristãos[carece de fontes?], banhavam-se comunalmente nus em banhos públicos, com homens e mulheres banhando-se juntos. Na Grécia antiga era comum a prática de esportes ocorrer sem nenhuma peça de roupa. Algum do sentido de pudor que hoje vemos disseminado na sociedade moderna foi essencialmente legado que as religiões nos deixaram ao longo dos tempos.

Tempos modernos

O naturismo moderno surgiu no início do século 20, na Alemanha e França. Na França (especificamente na Ilha do Levante) foi criada pelos irmãos Duvalier uma "Clínica Helioterapêutica" onde se pregava que a nudez ao ar livre com alimentação natural (sem nenhum produto animal, drogas, cigarros e bebidas) e contato com outras pessoas ajudava na cura de todos os males físicos. Na Alemanha, que é tida como verdadeiramente a iniciadora do naturismo, um professor de educação física (Adolf Koch) propôs aos seus alunos que estes deveriam fazer os exercícios ao ar livre e sem roupas. Depois de algum tempo, os jovens deste professor passaram a serem mais corados, ter mais saúde e alegria, as famílias dos mesmos vendo as mudanças inclusive comportamentais dos mesmos resolveram aderir aos exercícios e criaram o que a princípio foi chamado de nudismo[carece de fontes?]. (a alteração de nome só foi feita na década de 50). No ano de 1906, surge nesse mesmo país o primeiro campo oficial para a prática do naturismo. Nessa época, alem dos exercícios ao ar livre em completa nudez, havia também uma grande preocupação com a alimentação, que deveria ser saudável, geralmente baseada no vegetarianismo.


Após a segunda guerra mundial, o naturismo começou a se difundir, não só na Europa, mas também nos Estados Unidos. Hoje são poucos os países que ainda não possuem adeptos do movimento.

Em 1974 a Federação Internacional de Naturismo (INF) definiu os princípios naturistas, que é a definição atual de Naturismo adotada por todas as entidades naturistas do mundo:

“Um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática do nudismo em grupo, que tem por intenção favorecer o auto-respeito, o respeito pelo outro e o cuidado com o meio ambiente.”

"Qual a relação entre nudez coletiva e desenvolvimento do indivíduo?".

A resposta dos naturistas está no conceito de "aceitação do corpo", ou seja, na descoberta de que o corpo humano é um todo não havendo partes honrosas e partes indecorosas. Os naturistas, ao conviverem com a nudez do próximo não são chocados nem agredidos pelo corpo e sentem que o respeito é possível mesmo sem artifícios. Entrando em contato com a própria essência e deixando para trás o que é acessório. Para os naturistas somos todos iguais, apesar das diferenças.

Ética naturista

Embora os princípios da ética naturista sejam praticamente universais existem diferenças, a nível de cada país, nas regras definidas pelas Federações nacionais.(...)

LEIA MAIS EM :

FONTE: http://pt.wikipedia.org/wiki/Naturismo

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

TÁ COM PRESSA!!?? VAI DE BIKE!! WORLD NAKED BIKE RIDE EM SÃO PAULO - CICLOATIVISTAS QUEREM ESPAÇO NESTA MEGALÓPOLE DOIDA!!




A CORAGEM DOS CICLOATIVISTAS PELADOS DE SÃO PAULO!!JUNHO DE 2008

World Naked Bike Ride em São Paulo, Brasil. Cobertura de Renata Falzoni e Tomaz Cavalieri para o Aventuras, da ESPN/Brasil.

Declaração dos participantes da I Pedalada Pelada de São Paulo - A I Pedalada Pelada de São Paulo, ou World Naked Bike Ride (WNBR)14/06/08

(...)**Celebração da nudez não sexualizada e não comercializada.
Liberdade de expressão e manifestação.

Iniciada a pedalada na Avenida Paulista, à medida que os ciclistas se distanciavam da praça foram tomando coragem de expor mais seus corpos. Seguindo o lema naturista, puderam celebrar sua nudez não sexualizada e não comercializada, muito diferente da exposição sexual dos corpos padronizados tão comum nas emissoras de TV e revistas.

Centenas de pessoas puderam expor por alguns instantes seus corpos “imperfeitos”, gorduras a mais ou a menos, celulites e estrias livres da ditadura estética vigente que causa distúrbios alimentares, complexos e depressões.

A alegria desse momento foi tão contagiante que provocou aplausos da “platéia”. Pessoas que caminhavam pelas ruas, passavam dentro de ônibus ou automóveis, riam, assobiavam, apontavam a massa de pelados que pedalava. Câmeras e mais câmeras de celulares foram apontadas para a avenida.

E a prova máxima de civilidade foi dada pelos próprios ciclistas nus (ou seminus), que abriram mão de assédios e piadas de mau gosto para compartilhar respeitosamente um momento de pura liberdade de expressão e manifestação.

**Criminalização da nudez, neutralização da massa e violência policial

Infelizmente, aprendemos com nossa ação que a nudez que se manifesta livremente a favor da vida é criminalizada, enquanto a nudez explorada, sexualizada e comercializada nos carnavais, novelas e revistas é permitida.

Durante o trajeto, um comandante da polícia militar deixou claro a quem ele pensou ser o organizador da ação, que o nu frontal não seria tolerado, somente corpos pintados como no carnaval. Apesar das dezenas de ciclistas completamente nus, André Pasqualini acabou sendo escolhido como o “bode expiatório” e foi levado nu para a delegacia, como forma de neutralizar nossa ação.

Alguns ciclistas tentaram se manifestar contra a prisão e foram agredidos com pontapés e gás de pimenta, como mostra diversas fotos e vídeos publicados pela grande mídia (matéria no Estadão) e pela mídia independente. Como sempre é feito em manifestações ciclo ativistas, os ciclistas ergueram suas bicicletas no ar. Foram absurdamente acusados de usá-las como arma.

O comandante da operação declarou diante das câmeras que fez o que estava planejado, prendeu o “líder” da ação para acabar com a manifestação. A lógica estava errada, já que não existem líderes ou organizadores da Pedalada dos Pelados, mas a tática deu certo, porque seja lá quem tivesse sido detido, nós não deixaríamos de apoiá-lo.

Com a prisão de um dos seus participantes, a massa perdeu um pouco em alegria e parte dela seguiu escoltada pela CET rumo ao 78º DP na Rua Estados Unidos. A festa continuou ali, aos gritos de “Ô seu delegado, libera o pelado!”.(...)

LEIA MAIS EM : http://apocalipsemotorizado.net/2008/06/19/eram-muitos-os-pelados/


WNBR Brasil - São Paulo -Aventuras com Renata Falzoni Parte 2

NATURISMO




































































Quando se fala em nudismo ou locais nudistas vem de imediato à ideia "praias nudistas" o certo é que o nudismo não deve estar confinado somente às praias mas também a outros locais naturais como florestas (pinhais, matas, lagos, rios, ribeiros...). Alem de ser uma variante é também uma alternativa à praia (areal, sol...) E existem locais agradáveis(matas, pinhais) onde pode ser praticada a nudez. Isto no que se refere ao espaço físico.

Porque no espaço temporal sucede também a limitação de que o nudismo é só no Verão. É verdade que é durante esta estação que a nudez é mais propícia mas também há dias e momentos de Inverno que são bastante razoáveis para a prática da nudez. Passa também pela maneira como se encara o usufruto/utilização no aspecto lúdico do local, isto é se a pessoa utiliza o espaço para descansar(deitar-se/sentar-se) ou se utiliza o espaço de maneira lúdica com jogos e alguma actividade física.

FONTE : http://br.geocities.com/vista_bela/pag5.html

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

REVISTA VERVE - Edson Passetti, Acácio Augusto e etc...

Guilherme Corrêa, Edson Passetti, Acácio Augusto, Alexandre Berkman, Judith Malina, Julian Beck, Rogério Nascimento, João da Mata, José Maria Carvalho Ferreira, Saul Newman, Rolf S. de Folter, Edson Lopes, Emma Goldman, Roberto Freire, Antonio Martinez, Jaime Cubero, Eliane Knorr, Gustavo Ramus, Natalia Montebello.

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v e r v e 14

Verve 14, traz a segunda parte do dossiê 68 com palavras-falas do nu-sol para inesperado jogo de amarelinha. um jovem artista, aloisio licht, revira vestígios disciplinares com a delicadeza do traço compondo uma figuração mordaz. uma jovem anarquista, américa scarfó, conversa com um experimentado anarquista sobre o amor livre. verve amplia suas proximidades com o teatro publicando a aula-teatro 3 do nu-sol, FOUCAULT (assim mesmo em maiúsculas: o que somos e não somos), uma brevíssima peça de alexandre berkman e trechos do muito comentado, e pouco conhecido, paradise now de the living theatre, também de sessenta e oito. indisciplina, prazer e rebeldia rondam e transpõem as misérias do esporte. uma discussão pertinente sobre anarquismo e ressentimento situa a relevância das reviravoltas anarquistas contemporâneas e mete uma rasteira em nietzsche. o abolicionismo penal presente em um texto referência, nas escarificações de políticas de segurança e com uma anarquista no tribunal: diante da prisão é preciso ser tupinambá. uma antropofagia anarquista deglute a presença de três anarquista ausentes (jaime cubero, antonio martinez e roberto freire) e os muitos anônimos guerreiros. dos livros lidos comentamos mulheres, religião, 68, teatro livre... verve 14

SUMÁRIO

Dossiê 68
Nu-Sol

A etologia das disfunções, de Aloisio Licht
Guilherme Corrêa

América Scarfó, Uma experiência

FOUCAULT
Edson Passetti e Acácio Augusto

O grande jogo
Alexander Berkman

Paradise Now
Judith Malina e Julian Beck

Escolas de indisciplina: notas sobre sociabilidades
anarquistas no Brasil em inícios do século XX
Rogério Nascimento

Prazer e rebeldia
João da Mata

O esporte como miséria e espetáculo na era da globalização
José Maria Carvalho Ferreira

Anarquismo e a política do ressentimento
Saul Newman

Sobre a fundamentação metodológica do enfoque
abolicionista do sistema de justiça penal -
uma comparação das idéias de Hulsman, Mathiesen e Foucault
Rolf S. de Folter

Política, segurança e criminalização de deslocados
Edson Lopes

Emma Goldman diante do tribunal
Emma Goldman

Antropofagia anarquista:
Roberto Freire, Antonio Martinez, Jaime Cubero

resenhas

Convulsões espanholas: invenções na Revolução
Eliane Knorr

Mergulho e liberdades
Natalia Montebello

Sobre o uso político da religião
Gustavo Ramus

Teatro, anarquia e um alerta aos pluralistas
Edson Passetti



Guilherme Corrêa, Edson Passetti, Acácio Augusto, Alexandre Berkman, Judith Malina, Julian Beck, Rogério Nascimento, João da Mata, José Maria Carvalho Ferreira, Saul Newman, Rolf S. de Folter, Edson Lopes, Emma Goldman, Roberto Freire, Antonio Martinez, Jaime Cubero, Eliane Knorr, Gustavo Ramus, Natalia Montebello.


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Núcleo de Sociabilidade Libertária - Nu-Sol
Contate-nos em nu-sol@nu-sol.org

FONTE: http://www.nu-sol.org/verve/verveview1.php?id=14

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

"MULTIMANIFESTO: ANTES QUE O MUNDO ACABE!"

ANTES QUE O MUNDO ACABE!!!
SAIA DA FRENTE DA TELA DE TV!
VÁ ATÉ A ESQUINA E VEJA!!!
VEJA QUE HOJE FAVELADOS DA ZONA LESTE
DE SÃO PAULO PERDERAM SEUS TETOS NUM INCÊNDIO!
VEJA QUE CRIANÇAS ESTÃO MORRENDO EM GAZA!!
PARE DE ASSISTIR NOVELAS DA REDE GLOBO OU DE OUTRA REDE!
TELESPECTADORES ESTÃO ENREDADOS NAS FALSAS TEIAS DAS REDES TELEVISIVAS!
QUE FALSEIAM TUDO, OMITEM FATOS VITAIS!!

PARE DE DESPERDIÇAR ÁGUA!
PARE DE ENGANAR-SE!
PARE DE IMITAR OS ABUTRES!
PARE DE CONSUMIR TANTO!
O CONSUMISMO ESTÁ CONSUMINDO O PLANETA!
PARE DE DAR OUVIDOS A MEXERICOS SOBRE ARTISTAS!
TENTE COMPREENDER SUA CIDADE!!
TENTE AMAR TODAS AS CRIANÇAS COMO SE FOSSEM SEUS FILHOS!
E VEJA!! CRIANÇAS ESTÃO MORRENDO NESTA GUERRA INÚTIL!
ANTES QUE O MUNDO ACABE EXPERIMENTE SER SER HUMANO!!

NADIA STABILE - 12/01/09

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Tese: MAURÍCIO TRAGTENBERG E A PEDAGOGIA LIBERTÁRIA - ANTONIO OZAÍ DA SILVA























Autor: Antonio Ozaí da Silva
Tese: MAURÍCIO TRAGTENBERG E A PEDAGOGIA LIBERTÁRIA
Orientador: Nelson Piletti
Instituição: Universidade de São Paulo (USP)
Ano: 2004

Resumo: Este trabalho analisa a contribuição de Maurício Tragtenberg, enquanto intelectual engajado, à Pedagogia Libertária. No capítulo primeiro apresentamos um esboço biográfico. No seguinte, analisamos o autodidatismo e a sua práxis no espaço da informalidade (entendido aqui como o espaço externo às instituições e ao ensino formal), em especial sua militância enquanto escritor envolvido com o mundo do trabalho e as lutas sociais. No terceiro capítulo, estudamos a sua obra intelectual, produzida e orientada para e no espaço formal da instituição acadêmica; os aspectos libertários e a sua contribuição enquanto produção intelectual vinculada ao movimento social. Não se teve a pretensão de fazer uma análise definitiva, mas apenas apreender em que medida sua obra se vincula ao projeto pedagógico libertário. No último capítulo, analisou-se o que ele escreveu sobre a universidade e a educação, sua crítica e proposta pedagógica e, também a sua práxis como docente e intelectual, partícipe do campo acadêmico. Examinou-se os seus escritos sobre educação, a sua prática como educador e os vínculos com a Pedagogia Libertária e a Pedagogia Crítica.



FONTE : http://mauricio-tragtenberg.blogspot.com/

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

IVAN ILLICH - "ANTES QUE O MUNDO OU A HUMANIDADE ACABE" CONHEÇA ILLICH (MULTIMANIFESTO)








janeiro 2003

A resistência

segundo Ivan Illich


O famoso teórico Ivan Illich acaba de falecer, aos 76 anos de idade, em Bremen, onde lecionava na universidade. Publicava regularmente e fazia conferências no mundo inteiro. Sua obra, ardente, não podia ser resumida a slogans espetaculares


Thierry Paquot
b ten
A obra de Illich é abundante, perturbadora, difícil de ser classificada, à imagem de seu auto, que raramente estava onde se esperava que estivesse

Na segunda-feira, 2 de dezembro, Ivan Illich esticou sua sesta a ponto de partir para a eternidade. Agora está morto. Escrevo “agora” porque, já há muitos anos, quando mencionava seu nome, invariavelmente meus interlocutores me perguntavam sobre a data de seu falecimento. Ele morreu e, proximamente, sua obra completa será reeditada1, permitindo que alguns a descubram e que outros a revisitem. Uma obra exigente, abundante, perturbadora, difícil de ser classificada, à imagem de seu autor que raramente está onde se espera que esteja.

Bastante alto, magro, com um olhar envolvente, um sorriso caloroso e um perfil fino, exceto do lado da protuberância impressionante que o desfigurava, Ivan Illich sabia deixar as pessoas à vontade. Depois, feitas as primeiras trocas de palavras sobre as coisas banais de cada dia, seu pensamento se acelerava, se engrenava com sua elocução e nos encantava com sua inteligência. Falava dos “humores” de um médico alemão do século XVIII, recuava até Aristóteles, fazia um desvio passando por Diderot e Lavoisier, evocava Claude Bernard, se detinha em Balint, voltava ao médico alemão e se perguntava, em voz alta, sobre o diagnóstico, a consulta, a espoliação de si por um outro - o médico -, a recusa da dor e descrevia, com precisão, a máquina hospitalar atual, atropelando de passagem algumas de suas próprias análises já antigas e que se encontram em Némèsis médicale.
Vice-reitor aos 30 anos
Ivan Illisch era dono de um incrível enciclopedismo, apoiado na grande facilidade em manejar muitas línguas (mais de dez!) e numa curiosidade sem fim

Num outro dia, a palavra errante tomava outro rumo, demonstrava que o silêncio pode ser uma arma de contestação como a não-violência, expunha a reflexão filosófica de Max Picard, comparando-a com a de Emmanuel Lévinas, aproveitava a oportunidade para contar uma discussão com Michel de Certeau sobre o “uso da palavra” e o silêncio, falava dos padres da Igreja e da vida eremita, lembrava vários happenings silenciosos de que participara, recolocava a palavra numa sociedade da escrita, depois na sociedade da imagem e se entusiasmava com o século XII, seu século predileto. Essas duas histórias, de que sou a modesta testemunha, estão bem de acordo com os relatos com que outros comensais - impacientes ou maravilhados - enriquecem a respeito desse incrível enciclopedismo que se apóia numa grande facilidade em manejar muitas línguas (mais de dez!) e, ao mesmo tempo, numa curiosidade sem fim.

Realmente, o jovem Ivan, nascido em Viena, filho de pai dálmata e católico e de mãe alemã e judia, não tem só uma língua materna e, sim, várias - o francês, o italiano e o alemão - antes de aprender, a partir dos oito anos, o serbo-croata, língua de seus avós. Na seqüência, estudaria grego e latim - o que lhe facilitaria a abordagem etimológica das palavras e dos conceitos -, o espanhol, o português, o hindi etc. Matriculou-se em Cristalografia em Florença, em Filosofia e Teologia em Roma, em História Medieval em Salzburgo, foi ordenado padre, partiu para Nova York em 1951, reivindicou uma paróquia porto-riquenha, tornou-se vice-reitor da Universidade Católica de Porto Rico em 1956 - aos trinta anos! -, contestou cada vez mais o sistema escolar e as posições reacionárias do clero, criou seminários paralelos e diversos grupos de trabalho.
As preocupações do Vaticano
Aos 30 anos, vice-reitor da Universidade Católica de Porto Rico, contestou cada vez mais o sistema escolar e as posições reacionárias do clero

Três anos mais tarde, atravessou de ônibus e a pé toda a América Latina, opôs-se à concepção norte-americana de desenvolvimento, instalou-se em Cuernavaca, no México, e abriu o Centro Internacional de Documentação Cultural (Cidoc). Freqüentado inicialmente por “voluntários” norte-americanos - do programa “Aliança para o Progresso”, lançado por Kennedy - que para lá se dirigiram para aprender o espanhol e a civilização do país para onde iriam, o Cidoc tornou-se conhecido principalmente pelo trabalho crítico sobre a sociedade capitalista que numerosos intelectuais, de todas as nacionalidades, ali iriam desenvolver sob a orientação de seu fundador.

O Centro funcionaria de 1966 a 1976 e, a partir de 1967, Ivan Illich rompeu com Roma, que o convocou devido a um relatório da CIA – mas que se preocupava, sobretudo, com a audiência de alguns textos publicados em Libérer l’avenir (ed. Seuil, 1971), como “Disparition de l’ecclésiastique” (1959). Ele mencionou pressões sobre o Cidoc e até violência física que teria sofrido, sem, contudo, insistir... A passagem por Cuernavaca tornou-se, para uma certa esquerda radical e terceiro-mundista, um desvio obrigatório. A seriedade dos estudos convivia de perto com encontros festivos - duas atividades marcadas pelo cristianismo. Além do mais, mesmo assumindo o estado leigo, Ivan Illich continuou convencido de que “a maioria das idéias-chave, que fazem do mundo contemporâneo esta realidade particular, é de origem cristã2”.
A libertação da singularidade individual
Atravessou de ônibus e a pé toda a América Latina, instalou-se em Cuernavaca, no México, e criou o Centro Internacional de Documentação Cultural (Cidoc)

É com Une société sans école e La convivialité que se firma a fama de Ivan Illich: ainda não havia chegado aos cinqüenta anos e suas idéias já eram discutidas no mundo inteiro3. Seus primeiros livros visam a demonstrar que os “instrumentos” (entenda-se: as “instituições” e as grandes “máquinas” sociais, como a Igreja, a Escola, o Hospital, os Transportes etc.), depois de um certo patamar, tornam-se contraproducentes - de uma “contraprodutividade paradoxal”, esclarece ele, porque não desejada por seus idealizadores. Quanto mais avança um sistema técnico, mais aumenta a parte de heteronomia do indivíduo médio e mais diminui sua parte de autonomia, deixando-o cada vez mais dependente daquilo que não pode dominar: a energia nuclear, a rodovia, a quimioterapia, as manipulações genéticas etc.

Por trás de constatações demasiado simplificadas pelos seus seguidores - como, por exemplo, a “escola desescoloriza”, o “hospital torna doente”, o “carro emperra o tráfego” - encontra-se uma crítica extraordinária do “progresso” e daquilo que o legitima: a satisfação das supostas “necessidades4”. Ivan Illich recusa o ponto de vista do ataque dos membros do Clube de Roma que, em 1972, convidaram os líderes políticos a deterem o crescimento para se postergar a escassez de matérias-primas e para se reduzir o desperdício das reservas energéticas. Ele não acreditava de modo algum numa medíocre “proteção da natureza” e denunciava o desenvolvimento inconseqüente das técnicas, bem como a economia política do desenvolvimento, que alguns autores como René Passet e Serge Latouche retomariam e aprofundariam. Esses livros devem ser lidos juntos, de tal modo pertencem ao mesmo projeto: a libertação total da singularidade de cada indivíduo - quaisquer que sejam sua cultura, sua renda, sua posição no sistema produtivo etc.
Irritando o “esquerdismo” e o feminismo
A partir de 1967, Illich rompeu com Roma, que o convocou devido a um relatório da CIA, mas, na verdade, se preocupava com a audiência de seus textos

Esta libertação do sujeito - palavras que não pertencem a seu vocabulário - baseia-se no domínio de seu próprio corpo e de suas próprias necessidades, independentemente das técnicas disponíveis. Ivan Illich conta a história de uma estudante a quem ele oferece um copo de sidra e que lhe responde: “Não, obrigada, minhas necessidades de açúcar já foram satisfeitas para o dia todo.” Suas necessidades foram confiscadas pelos calculadores de calorias e pelos normatizadores... Partilhar uma bebida durante uma reunião não cabe nesse tipo de medida, e se situa na esfera de um ritual que, justamente, faz com que uma necessidade seja sempre cultural e histórica. O estudo da invenção das necessidades padronizadas e válidas para todos ocuparia Ivan Illich durante vários anos, obrigando-o, durante a trajetória, a estabelecer outras genealogias, como a de “ser humano”, “vida”, “pessoa”, “gênero”, “saúde” 5 etc., donde uma retomada da história do Ocidente.

Em que momento, em que circunstâncias e para quê, por exemplo, o trabalho se torna o principal tempo da existência individual e coletiva? Le Travail fantôme e Le Genre vernaculaire completam os primeiros ensaios e os elucidam, insistindo na linguagem como principal enraizamento existencial de cada um, a sexualização da sociedade como discriminação entre os gêneros e a crença errônea no homo œconomicus como modelo de comportamento etc. Essas obras, lidas depressa demais, irritam os terceiro-mundistas, para os quais o “trabalho fantasma” não valoriza os “pobres” tributários do “setor informal”, e as feministas, que recusam a diferença de gêneros de Illich e militam por uma igualdade jurídica e econômica homem/mulher. Quanto a suas últimas pesquisas sobre o oral, o escrito e a imagem, elas passarão despercebidas.
Originalidade vs. perplexidade
Por trás de constatações “simplistas” encontra-se uma crítica extraordinária do “progresso” e do que o legitima: a satisfação das supostas “necessidades”

Bajulado pelos adeptos da “segunda esquerda” francesa ao longo da década de 70, Ivan Illich pareceu-lhes demasiado pessimista quando eles assumiram responsabilidades políticas com a eleição de François Mitterrand, em 1981. Os terceiro-mundistas procuravam reagir ao fim da guerra fria e à globalização das economias e das telecomunicações: não encontram mais em Illich motivos para reagir a seus questionamentos. Os ambientalistas não gostam de sua crítica ao princípio da responsabilidade, iniciado por Hans Jonas, e não aderem à sua crítica da técnica, inspirada por Jacques Ellul, Lewis Mumford e alguns outros.

Em resumo, havia uma interrupção no circuito entre um pensador de uma originalidade desconcertante e uma intelligentsia desnorteada. Fora da França, as redes implantadas por Illich seguiram divulgando suas pesquisas e se engajaram nos caminhos abertos por ele, e sua influência - difícil de ser apreendida - é certa, como demonstram a popularidade de seus conceitos e sua presença nas citações bibliográficas. De Vancouver (“Habitat I”, em 1976) ao Rio (“Cúpula da Terra”, 1992), dos comitês de bairros por um orçamento participativo às associações por uma alternativa à globalização neoliberal, as idéias de Ivan Illich não parecem esquecidas, ao contrário.

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Pela editora Fayard, em 2003.
2 - Cf. David Cayley, Entretiens avec Ivan Illich, tradução francesa, Bellarmin, Saint-Laurent, Québec, 1996, p. 146.
3 - Cf. Jean-Marie Domenach põe a revista Esprit, que ele dirige, a serviço do pensamento de Illich, publicando vários de seus artigos em 1970 e 1971 e dedicando-lhe dois números: “Illich en débat”, n°3, de março de 1972, e “Avancer avec Illich”, n°7-8, de julho-agosto de 1973. Nos fragmentos escolhidos de seu Journal 1944-1977 e Beaucoup de gueule et peu d’or, ed. Seuil, 2001, Domenach dedica-lhe apenas algumas linhas, p. 291, ao passo que, em nossas conversas, me confirmou a importância, para ele, de sua leitura de Illich (ler sua crônica em L’Express de 21 de setembro de 1990). Illich está no índice da revista Les Temps Modernes em 1969 e 1970, e Herbert Gintis redige uma “Critique de l’illichisme” no n° 314-315, setembro-outubro de 1972. Ler n° 109, de dezembro de 1972, da revista Les Cahiers Pédagogiques e o n° 62 da revista L’ARC, em 1975, ambos inteiramente dedicados a Illich. Em Le Nouvel Observateur, Michel Bosquet (pseudônimo de André Gorz) vulgariza, discute e populariza as teses de Illich, construindo sua obra original.
4 - Cf. “Needs”, de Ivan Illich, The Development Dictionary, publicado por Wolfgang Sachs, ed. Zed Books, Londres, 1992, p. 88 e s.
5 - Cf. “L’obsession de la pensée parfaite”, Le Monde Diplomatqiue, março de 1999, p. 28.

FONTE : http://diplo.uol.com.br/2003-01,a531.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Os Mistérios do Corpo Feminino, ou as Muitas Descobertas do Clitóris


Margareth Rago

No ano de 1997, o jornal Folha de São Paulo noticiou com alarde a publicação de um romance, O Anatomista, por uma das mais famosas editoras brasileiras. De autoria do psicanalista argentino Federico Andahazy, trata-se de uma ficção real, ou de uma história romanceada a respeito da descoberta do clitóris, em 1559, por Readolus Colombus, ou Mateo Renaldo Colón. Risadas, brincadeiras, comentários jocosos, a verdade é que o livro vendeu bem e o autor se tornou famoso nos meios culturais e sociais também em nosso país. E com ele, o clitóris entra novamente em cena.

Digo novamente, é claro, porque o feminismo, liberal ou socialista, já havia feito esta mesma descoberta décadas antes. Logo no final dos anos 60, ou inícios dos anos 70, feministas radicais, lésbicas assumidas e mulheres emancipadas proclamavam sua independência sexual em relação ao império do falo, acusando os homens de desconhecerem o corpo e a sexualidade femininos, negando-lhes na prática o direito ao prazer. A revista Nova, publicada pela Editora Abril a partir de 1972, destinada a mulheres da classe média urbana, divulgava a nova e importante descoberta: as mulheres tinham sim orgasmo e este era sobretudo clitoriano, não apenas vaginal. O clitóris, órgão pouco falado e conhecido entre as mulheres principalmente, fazia sua portentosa aparição, de certo modo, assustadora para os homens: os holofotes punham em cena o pequeno órgão que havia passado tão despercebido e desconsiderado por homens e mulheres por muito tempo.

Na verdade, também não sabemos exatamente por quanto tempo, já que, em seguida, as pesquisas históricas e antropológicas sobre o corpo e a sexualidade do "sexo frágil" passaram a indicar, ao menos nos textos médicos do século 19 e das primeiras décadas do 20, na Europa e no Brasil, um conhecimento bastante aprofundado sobre o corpo feminino pela medicina moderna. Antes mesmo da descoberta de Freud, em 1905, vários médicos, ao explicarem as razões da anafrodisia ou da prostituição, demonstravam um conhecimento científico bastante aprofundado sobre o corpo e os órgãos prazerosos da mulher, desde meados do século 19. Vale lembrar, aliás, que nos séculos anteriores, esta era pensada biologicamente a partir do modelo masculino, sendo o clitóris interpretado como um pequeno pênis.

Gostaria de pensar, neste texto, as razões que levam a um esquecimento da existência do clitóris, a um apagamento do pequeno órgão em cada época histórica e a seu posterior e abrupto renascimento. Será possível detectar algum fenômeno maior associado a este movimento? Será possível dizer que o clitóris é redescoberto em momentos de modernização econômica e de maior liberação das mulheres e, do mesmo modo, esquecido e silenciado em momentos de retração, de maior repressão moral e conservadorismo político? Seria o controle dessa informação sobre o corpo da mulher uma forma de contenção do desejo e normatização das relações de gênero, garantindo o lugar privilegiado ao sexo forte? Minha hipótese é a de que o clitóris é silenciado física e discursivamente nos momentos de maior controle sobre a mulher, sobretudo naqueles em que é associada à figura da mãe e, portanto, totalmente dessexualizada. Exemplo disso são os regimes totalitários, o fascismo italiano e o nazismo alemão que promoveram a figura dócil da mulher camponesa, aconchegante e aninhada entre os filhos, abnegada e bondosa, porém, totalmente assexuada.


A releitura médica do corpo feminino no século 18

Alguns estudos, como o de Thomas W. Laqueur, Ivonne Knibiehler/Catherine Fouquet e Jean-Louis Flandrin trazem inquietantes informações a respeito das interpretações médicas do corpo feminino. O primeiro autor, por exemplo, explica que, a partir do final do século 18, os doutores mudaram radicalmente os parâmetros para pensar o corpo e a sexualidade feminina, o que levou a uma profunda dessexualização da mulher, ou para recorrer a Foucault, a uma patologização de seu corpo. Segundo ele, a partir do final do século 18, emerge uma nova conceitualização do orgasmo feminino, o qual deixa de ser relevante para a geração, como fora anteriormente a ciência médica das Luzes. Os textos renascentistas, em que o clitóris é concebido como um órgão que faz o prazer das mulheres e sem o qual elas "não teriam desejo, nem prazer e nem nunca poderiam conceber" se tornam superados.

O deslocamento do orgasmo sexual feminino se inscreve num quadro mais amplo de reinterpretação radical do corpo feminino, em relação ao masculino, no século 18. Por milhares de anos, embora a mulher fosse socialmente percebida como inferior ao homem, acreditava-se que tinha os mesmos órgãos genitais que ele, com a diferença de estarem dentro e não fora. Galeno, que desenvolve o modelo mais importante sobre a natureza homóloga entre os órgãos reprodutivos do macho e da fêmea, no século 2 d.C., afirmava que a mulher tem testículos acompanhados de canais seminais iguais aos do homem, um de cada lado do útero, com a única diferença de que os do macho estão contidos no escroto e os da fêmea não. Por dois milênios, o órgão que, no início do século 19, definirá a essência da mulher ainda não tinha um nome próprio. Galeno refere-se a ele usando o mesmo nome que utiliza para os testes masculinos, orchis. No século 17, Regnier de Graaf chama os ovários pelo nome latino, testiculi. No século 18, Pierre Roussel, autor do Système Plysique et Moral de la Femme, um dos autores mais influentes do período, denomina os dois corpos ovais em cada lado do útero de ovários ou testículos

"dependendo do sistema que cada um adota".

Por volta de 1800, a concepção que associava o orgasmo à geração se torna alvo de profundos ataques. Os autores passam a defender a tese da profunda diferença da sexualidade masculina e feminina, apoiando-se nas descobertas de suas diferenças biológicas. Em 1803, o médico Jacques Moreau de la Sarthe, autor da Histoire Naturelle de la Femme, em 3 volumes, afirmava, contra Aristóteles e Galeno, que não apenas os sexos são diferentes, mas são diferentes em todos os domínios do corpo e da alma, em cada aspecto moral e físico. Entre homem e mulher, haveria muito mais contrastes e oposições. Segundo Julien Joseph Virey, autor de inúmeras obras sobre a mulher:

"As diferenças sexuais não se limitam aos órgãos da geração simplesmente, no homem e na mulher, mas todas as partes de seus corpos, mesmo as que parecem indiferentes aos sexos revelam alguma influência destes."

O saber médico esforça-se por definir a especificidade do corpo feminino em relação ao masculino, acentuando seus principais traços: fraqueza e predestinação à maternidade. Para Roussel,

"os ossos são menores e menos duros, a caixa toráxica é mais estreita; a bacia mais larga impõe aos femures uma obliquidade que atrapalha o andar, pois os joelhos se tocam, as ancas balançam para encontrar o centro de gravidade, o andar é vacilante e inseguro, a corrida rápida é impossível às mulheres",

explica Knibiehler. (p.90)

Ao mesmo tempo, o útero é definido como o principal órgão feminino, responsável pelo funcionamento de todos os outros: cérebro, estômago, seios, lábios etc. (p.94) Portanto, o antigo modelo de interpretação do corpo, em que homens e mulheres eram definidos segundo o grau de perfeição metafísica, por seu calor vital, segundo um eixo cujo telos era masculino, foi substituído pelo modelo da diferença biológica, no século 18. Assim como Knibiehler, Laqueur nega que estas conclusões e especialmente o ataque ao orgasmo feminino tenham advindo de avanços científicos concretos, registrando um profundo desconhecimento da ovulação humana até recentemente. A mudança na interpretação dos corpos feminino e masculino, antes vistos como hierárquica e verticalmente dispostos e agora percebidos como horizontalmente disposto, como opostos, como "incomensuráveis" resulta de outros fatores. Até 1797, ninguém se preocupara em reproduzir um esqueleto feminino num livro de anatomia para ilustrar as diferenças do homem. Até então só existira uma estrutura básica do corpo humano, a do macho. Portanto, longe de refletir um avanço científico,

"novos modos de interpretar o corpo resultavam de novos modos de representar e de fato de constituir realidades sociais". (p.4)

Knbiehler refere-se à medicina das Luzes como aquela que promove a domesticação do corpo feminino, como aquela que

"invalida o ser feminino como nunca havia sido antes"

pois a mulher deverá ser afastada da vida pública e profissional por sua constituição fraca e por sua sensibilidade à flor da pele. (p.113) Ter prazer sexual significava, na lógica do século 16, como mostra Flandrin, ter tido uma relação sexual perfeita, portanto, gerado o ser perfeito, tese que era aceita pelos teólogos. Segundo estes, os membros inferiores e as costas da viúva solitária doeriam por causa da contenção do sêmen, até que ela descarregasse e sentisse um prazer semelhante ao que obteria na cópula: Segundo Ambroise Paré:

"Nenhuma concepção ocorre se as duas sementes não concorrerem junto no mesmo instante." (p. 133)

Ao mesmo tempo, vários autores viam a menstruação como um sangramento, entre outros. Para o médico Boerhaave por exemplo, os homens sangravam regularmente através das artérias hemorroidiais, do nariz, dedos, etc.

O clitóris, descoberto em 1559 por Readolus Colombus como "a sede do deleite das mulheres", era chamado nos textos do século 16 de mentula muliébris (female penis), nympha (termo de Galeno), columnella (coluna), crista (de galo), dulcedo amoris ou oestrum veneris; era visto como o pênis feminino, como, aliás, aparece no guia de parteira de Jane Sharp, de 1671. ainda não passaria pela cabeça de ninguém a idéia de que clitóris grande significasse lesbianismo

Laqueur chama a atenção para o fato de que a construção cultural da fêmea em relação ao macho, enquanto expressa em termos de realidades concretas do corpo estava mais profundamente en~aizada em assunções sobre a natureza da folitica e da sociedade. O abandono destas crenças no Iluminismo tornou inapropriado o sistema de homologias hierarquicamente ordenado. A nova biologia, com sua busca por diferenças fundamentais entre os sexos e entre seus desejos emergiu neste momento preciso, quando as bases da sociedade estavam profundamente abaladas. O século 19, lembra Havelock Ellis, afirmará a tese da anestesia sexual da mulher. Mas, o que aconteceu com a velha biologia?

Para Flandrin, a seqüência é a seguitie: Aristóteles, com a teoria de que a mulher é um vaso receptáculo apenas do sêmen masculino e de que não necessita de orgasmo para a geração é seguido por São Jerônimo e Santo Agostinho, e ainda no século 13, na obra de Alberto, o Grande. Os médicos dos séculos 16 e 17 foram partidários de Galeno e a maioria dos teólogos também retomaram os argumentos galenistas. Contudo, ninguém seguiu à risca as diferentes teorias, mesclando-as muitas vezes. (p.132) Flandrin constrói seu texto no sentido de mostrar que não há um avanço com os séculos, mas um crescente irracionalismo com a modernidade.

Aí entra a reviravolta: por que muda o modelo de leitura do corpo? Por que há uma dramática reavaliação do orgasmo feminino e de interpretação do corpo feminino em relação ao masculino, no final do século 18? Os escritores do século 18 buscam na biologia uma justificação para as diferenças culturais e políticas entre os sexos, que foram cruciais para as articulações de argumentos feministas e antifeministas. Para Hobbes, não havia na natureza nenhuma base para justificar qualquer tipo de autoridade - de um rei sobre seu povo, do homem sobre a mulher. E a revolução, o argumento de que a humanidade em todas as suas relações sociais e culturais poderia ser refeita engendrou tanto um novo feminismo quanto um novo medo da mulher. Mas o próprio feminismo e sua luta pela entrada da mulher na esfera pública foi feita com base nesta diferença.

Sua tese segue a de Ivonne Knibiehler: com a emergência da sociedade burguesa houve, no final do século 18, uma redefinição do lugar social da mulher, para a qual a ideologia burguesa teve que fornecer novas justificações científicas. A ciência médica propõe, então, uma releitura do corpo feminino, tendo em vista responder a uma série de problemas colocados pela nova ordem sócioeconômica emergente: a concepção de indivíduo, já que as mulheres passam a se pensar como iguais aos homens; a separação entre as esferas públicas e a privada, a primeira associada aos negócios masculinos e a segunda à natureza feminina; uma re-significação da função social da mulher, agora destinada a constituir a família higiênica.

Segundo ele, deve-se considerar as mudanças políticas em curso: a emergência do discurso da igualdade se faz acompanhar do nascimento de uma nova biologia - "a biologia da incomensurabilidade" - segundo a qual a mulher é por natureza diferente do homem, inferior e incapaz de vida pública. A resistência das mulheres, o nascimento do feminismo acirram este discurso, levando a buscarem-se outros modos de restabelecimento das hierarquias de gênero, num momento em que as bases metafísicas estavam sendo solapadas. No Brasil, várias pesquisas tornaram conhecidas as teorias médicas sobre o corpo e a sexualidade feminina, seja da "mulher honesta", seja de seu avesso, "a prostituta", que fundamentaram as interpretações e os sentidos atribuídos à feminilidade e definiram o lugar da mulher na sociedade, e que referenciaram as práticas de controle social, incluindo-se as policiais. Fortemente marcados pelos pensadores e cientistas europeus, os médicos explicaram a inferioridade física, moral e intelectual da mulher em relação ao homem, como uma realidade inscrita em seu próprio corpo, na configuração diferenciada de sua estrutura óssea, concluindo por sua incompetência para participar da esfera pública em condições de igualdade com os homens. Avisaram que, por natureza, as mulheres haviam sido destinadas às tarefas da reprodução e as que se recusavam a essa função deveriam ser percebidas como "desviantes" ou "associais". Era o caso das feministas, consideradas mulheres que recusavam sua condição e seu espaço natural - a maternidade e o lar e desejavam ser homens, ou quase como homens. Era o caso também das prostitutas e lésbicas, mulheres dos excessos instintivos, degeneradas natas por hereditariedade.

Os médicos e a relações conjugais no Brasil

A partir do último quarto do século 19, os enunciados do discurso médico sobre a sexualidade feminina, no Brasil, reproduzem as concepções, dominantes da medicina vitoriana, ampliada, mais para o final do século, pelas teorias lombrosianas da Antropologia Criminal. Em 1872, o dr. Ferraz de Macedo, em sua já conhecida tese sobre A Prostituição na Cidade do Rio de Janeiro, classificava, as prostitutas, como mulheres excêntricas, gulosas, preguiçosas, irracionais, irrecuperáveis para a sociedade, signos da involução das espécies: sub-raça. Alguns anos depois, o criminologista italiano Cesare Lombroso classificava as cientificamente como "degeneradas natas", sendo então largamente difundido entre os médicos de todo o mundo. Aqui os doutores insistiam na ausência de instinto sexual nas "mulheres castas", a não ser para fins reprodutivos. Como ensinava o doutor J.B. de Moraes Leme, em 1926:

"Na mulher domina, sobre o instinto sexual, o instinto materno, ou melhor, o apetite sexual decorre do instinto materno, enquanto que no homem o instinto paterno tem parte muito pequena no coito, em que aquilo que ele procura é o prazer".

Ao lado dos médicos, juristas famosos como o dr. Viveiros de Castro, obcecados com a classificação do que consideravam "perversões sexuais", segundo as classificações do psiquiatra vienense Richard von Kraft-Ebing, enxergavam onanistas, pedófilos, homossexuais, tríbades, desviantes e perversos sexuais em quase todos os cantos dá cidade, sobretudo nos bares, restaurantes, cafés-concertos e pensões de artistas. Voyeuristas conscientes ou inconscientes, os homens da ciência seqüestraram a sexualidade desde o século 19, como apontou Foucault, e "perverteram o sexo". Todas as práticas sexuais foram postas sob o signo do discurso científico, analisadas, classificadas e condenadas, enquanto o corpo da mulher foi congelado sob o "império do útero", na expressão de Knibiehler. Dir-se-ia que a ciência domou o sexo, com medo de ser dominada.

É de se notar que o saber médico recolhia importantes informações sobre a anatomia do corpo feminino, não se detendo nas meretrizes, importantes, diga-se de passagem, apenas na medida em que permitiam sinalizar as formas de conduta que as "honestas" deveriam evitar. Por isso mesmo, insistiam no fato de que as mulheres tinham um desejo sexual muito menor do que os homens aliás, quase inexistente, já que sua energia sexual era canalizada para a realização de sua essência: o desejo de ser mãe.

Contudo, já em 1886, o médico A. D'Almeida Camilo, em sua tese O Onanismo na Mulher: explicava a anatomia feminina e destacava a importância do clitóris para o prazer sexual. Segundo ele:

"O clitóris é um órgão eréctil, cuja estrutura se assemelha à dos corpos cavernosos e que apoiado sobre o dorso do pênis, no ato da cópula, recebe a excitação pelo atrito deste, dando em resultado a satisfação do desejo venéreo."

Advertia, portanto, que, em geral, o homem terminava a cópula antes da mulher,

"de mudo que, havendo lentidão e portanto o clitóris não sendo perfeitamente friccionado pelo pênis, permitindo apenas um começo de prazer, este ato que lhe é mais enfadonho que agradável a obriga a masturbar-se para completar o prazer que começara a sentir"

Seria limitado, portanto, enxergar o discurso médico como homogêneo e de ponta a ponta coerente, ao longo dessas décadas. Alguns doutores aproximaram-se de teorias científicas mais abertas, em especial durante os , anos 20, quando as antigas leituras do corpo feminino e de suas necessidades passam a ser questionadas em vários países, como na Inglaterra e nos Estados Unidos. Para muitos historiadores, esta foi a década que presenciou a "primeira revolução sexual" do século 20, precedendo a segunda nos anos 60, e se caracterizaria por uma liberação dos costumes sexuais, mas apenas no que se refere às relações conjugais heterossexuais, e não homossexuais.

Já praticado na experiência anarquista da Colônia Cecília, no Paraná, em fins do século, o "amor livre" passa a ser um tema constantemente debatido nas rodas de intelectuais e de artistas, modernistas e libertários, como observa Maria Lacerda de Moura, enquanto ela própria contesta radicalmente o casamento indissolúvel como prisão e a exigência da virgindade apenas para. as mulheres. Pagu e Oswald de Andrade ficam famosos, nos anos 20 por suas relações amorosas bastante livres e transgressoras, enquanto ela é lembrada como uma mulher que ousa desafiar a moral, que circula audaciosamente vestida nas ruas da cidade, protagonizando a "nova mulher", ou a "mulher emancipada", próxima da figura da "melindrosa" e da vamp sedutora, que aparecem nos romances da época. Nesse contexto, o casamento é contestado enquanto instituição deformada e desmoraliza-la, enquanto vários posicionam-se favoravelmente ao divórcio.

A preocupação com a erotização da mulher casada, na Inglaterra e nos Estados Unidos, é destacada por Jeffreys, como: uma das principais mudanças na ideologia, sexual desta década e, de certo modo podemos observar uma tendência semelhante no Brasil. Ao longo dos anos 20 e 30 cresce, entre nós, toda uma literatura que discute e questiona a moral sexual, por parte de médicos e juristas, tanto quanto de anarquistas e modernistas. A virgindade, o casamento, o adultério, a prostituição, o divórcio compõem um conjunto de temas amplamente discutidos, tanto em sentido conservador e misógino, como em sentido oposto.

Os argumentos desenvolvidos pelos homens cultos em favor da educação sexual dos jovens revelaram que a preservação dos valores morais burgueses se colocava com alguma insistência, e que esta aparecia como uma poderosa arma no combate moral aos perigos, imaginários e reais, que visualizavam. O dr. Ubaldino A. de Oliveira, por exemplo, em discussão sobre a questão da Profilaxia Sexual? ou Social em 1924, afirmava que as causas da "derrocada moral" de nossa sociedade se deviam a que a juventude buscava unicamente "o gozo" nas suas atividades. Pela falta de educação sexual, os jovens ficavam seduzidos pelas orgias e pelos "vícios elegantes", entenda-se, as drogas. Desde cedo, aprendiam a arte de seduzir as "mulheres honestas", e apenas quando "gastos" resolviam casar-se. Para o dr. Orlando Vairo, o vício se alastrava de tal modo na cidade de São Paulo, que até mesmo senhoras casadas da alta sociedade já se entregavam

"à embriaguez do ‘lança perfume’ no salão das danças."

Já as jovem solteiras,

"excitada nos bailes, cinemas, teatros, etc., sem ver a possibilidade de satisfação honesta e natural de seu instinto de mulher sem conhecimento perfeito da missão que lhe compete, e dos perigos a que se acha exposta, um di1ema se lhe antolha - ou fala mais alto o instinto, e ela se prostitui, - ou um resto de pudor e vigilância dos pais a detêm até aparecer um marido – qualquer que ele seja - escolhido muitas vezes por pais inescrupulosos." (p.15)

Ao mesmo tempo, os defensores da educação sexual acreditavam que a ignorância masculina em relação ao corpo e ao funcionamento desejante da mulher resultava em freqüentes desentendimentos entre o casal. Portanto, exclamava A. Debay:

"Srs. homens, rogo-vos que vos deis ao trabalho de estudar a mulher em sua organização física e moral; (...) a maior parte dos homens casados, para não dizer quase todos, ignoram as verdades fisiológicas que acabamos de expor; sua ignorância relativamente a este fato natural leva-os a queixarem-se da indiferença de suas consortes e os torna ridículos, senão injustos;(...)".

A "higiene do amor"

Tendo em vista educar os homens e informá-los sobre as questões sexuais, os médicos elaboraram manuais de higiene sexual, ou de "higiene do amor e das paixões", a exemplo do dr. Olavarrieta, cujo trabalho intitulado Higiene Sexual foi publicado em São Paulo, em 1929.

Bastante liberal em relação aos seus predecessores e na ânsia de salvar o casamento indissolúvel como ele mesmo dizia, o doutor procurava explicar aos homens a fisiologia da mulher, advertindo-os contra a falta de excitação, de prazeres, de cuidados no ato sexual em relação às suas esposas, tida para eles "como mães de seus filhos". Reconhecia as necessidades sexuais das mulheres, diferentemente de seus antecessores, o que em nada alterava a reafirmação de todos os outros mitos referentes à construção de sua identidade como incapaz, menor, desigual em relação ao homem. Modernizava as relações de gênero, inclusive reformulando e liberalizando as práticas sexuais do casal, mas em nada alterava sua concepção de que a mulher deveria permanecer na esfera privada do lar. Examinemos os seus argumentos. Convicto da necessidade da união sexual para mulheres e homens através do casamento, o médico discernia as necessidades sexuais e emocionais de cada um: no caso das mulheres, o matrimônio afigurava-se da maior importância e era, aliás, exigido por sua própria constituição física, sob pena de dela apoderar-se a "clorose lenta e contínua", ou pior, de ela interessar-se pelas práticas detestáveis do onanismo e da prostituição. Função de controle e de autocentramento, portanto.

Já paia os homens, uma das vantagens do matrimônio e, conseqüentemente, da regularidade virtual do prazer sexual obtido "com moderação" seria o prolongamento da vida, pois a satisfação sexual comunicaria ao corpo "maior vigor às funções e uma justa compensação pelos trabalhos desenvolvidos." Função de vitalidade e de energização. Segundo suas pesquisas, prosseguindo a tradição dos naturalistas europeus, a regularidade sexual para ambos os sexos resultaria em muitas vantagens para a vida física, moral e intelectual, ao contrário do que ocorria com os solteiros, expostos com mais facilidade a contrair doenças e vícios que

"esgotam prontamente o organismo"

Entendendo que o casamento respondia a uma exigência natural para ambos os sexos, Olavarrieta era favorável ao divórcio, pois acreditava que a única garantia para a conservação do contrato estabelecido entre eles seria apenas "a satisfação do apetite sexual".

Procurava mostrar, em suas reflexões a importância do prazer sexual nas relações contraídas pelo casal e alertar contra os perigos de ignorar se a questão sexual. De uma certa maneira, seu manual de "higiene sexual" apresentava-se como um guia para a realização dos prazeres entre o casal, tendo em vista a preservação do casamento, como, aliás, encontramos hoje em dia em algumas revistas destinadas ao público feminino.

O manual procurava informar o público-leitor - principalmente constituído por homens - a respeito da fisiologia tanto do homem quanto da mulher, elucidando alguns pontos sobre o prazer sexual para ambos. Fundamentalmente, considerava-se que embora a mulher tivesse necessidades sexuais, estas não eram tão prementes e ameaçadoras quanto as masculinas,

"pois a mulherão conhecendo a tumescência, fenômeno representado no homem, pela repleção e distensão dos órgãos genitais, em particular de suas vesículas seminais, não precisa se socorrer da cópula, para conseguir o fenômeno oposto, isto é, o da detumescência."

Por este mesmo motivo, aceitava-se a existência de um espaço geográfico especialmente destinado ao transbordamento do desejo masculino, mas onde as mulheres presentes seriam muito possivelmente percebidas pela tipologia do dr. Lombroso. Refiro-me, evidentemente, à zona da prostituição.

Dentre as enfermidades que poderiam afetar e mesmo interromper as relações sexuais do casal, Olavarrieta destacava a anafrodisia, ou "a falta de desejos venéreos", raríssima entre os homens, porém, muito freqüente nas esposas, em virtude da experiência sexual diferenciadíssima que ambos traziam para o matrimônio. Segundo o médico, a indiferença pelos prazeres sexuais que se manifestava na mulher resultava tanto de uma educação errônea, que acentuava sua ignorância em relação às necessidades sexuais e aos deveres conjugais, quanto do egoísmo e do "néscio excesso de pureza" dos maridos. Chegando ao casamento "sexualmente gastos, enfastiados e estragados", estes submetiam suas esposas a regimes de relações sexuais extremamente austeros,

"transformando as carícias em obrigação, quem sabe em repugnância ou em dor."

O resultado disso era que as mulheres fugiam do sexo com o marido, ao invés de encontrar no parceiro uma importante fonte de satisfação sexual. Para o médico, os homens haviam sido induzidos erroneamente a acreditar que as práticas sexuais prazerosas só poderiam ser consumadas com amigas, amantes ou prostitutas, respeitando religiosamente as esposas. Para o saber médico, os homens tinham uma posição muito conservadora em termos sexuais, projetando na esposa a figura da mãe, isto é, dessexualizando-a.

Segundo ele:

"Erroneamente, o casado evita com sua mulher toda classe de refinamentos durante o ato sexual, crendo deste modo cumprir mais fielmente as obrigações de marido, já que a alegria, a satisfação, a recreação ficaram nos braços de suas amigas anteriores. Repeti-las com sua própria mulher, com a que vai ser ‘mãe de seus filhos’ seria insensato, eqüivaleria a tanto como insultá-la, ofendê-la, quiçá, prostituí-la."(p.16)

Ao mesmo tempo, o prazer no casamento seria fundamental e saudável também para o homem, evitando o recurso à masturbação e à procura dos prazeres extraconjugais. No primeiro caso, conhecemos o terror suscitado pelas práticas onanistas na medicina dos séculos 19 e 20. A própria impotência, afirmava o dr. Olavarrieta, um dos principais problemas que afetava a relação entre o casal, evidenciando-se com mais freqüência no homem, resultaria do abuso da masturbação, do excesso de relações sexuais ou de prazeres solitários, na grande maioria das vezes, quando não de enfermidades venéreas contraídas no mundo exterior. Em relação ao onanismo, afirmava ele:

"as vítimas desta paixão solitária perdem a memória e a inteligência; tornam-se estúpidas, melancólicas e hipocondríacas; desejam a solidão, são incapazes de estudar, e chegam bem facilmente à degenerescência amplamente declarada."

(p.57)

Vale notar que o saber médico de então tinha uma concepção bastante ampla das práticas onanistas, entre as quais destacava as que caracterizavam o onanismo conjugal, segundo suas informações, muito praticado naqueles tempos: a saber, a sodomia, o coito interrompido, e até mesmo a utilização do condão, atual camisinha,

unicamente tolerável nos coitos mercenários, pois consegue sempre evitar os contágios venéreos."

É interessante notar que, apesar das concepções moralistas e extremamente misóginas destes doutores, muitos reconheciam o "apetite sexual" também nas mulheres, procurando alertar para a importância de ser, ao menos parcialmente, satisfeito. Discutindo O Problema Venéreo, em 1926, outro medico afirmava que o apetite sexual sendo diferente nos dois sexos, no homem era mais intenso justamente porque a ele cabia a parte ativa da relação, o que não significava, porém, que aquela deixasse de conhecer o orgasmo:

"o papel da mulher no coito é em geral meramente passivo; sem deixar de ter o orgasmo venéreo, por vezes tão intenso quanto o do homem e por vezes superior ao deste, a mulher é na regra comum menos sensual; nela o instinto de geração está mais conservado que no homem, embora as restrições que à sociedade lhe impõe sejam muito mais severas que as que se impõem ao outro sexo."

E claro que, apesar dos seus refinados conhecimentos, os médicos estavam menos preocupados com a satisfação das necessidades sexuais femininas do que com a garantia do casamento e com o futuro da prole. Fundamentalmente pregavam a indissolubilidade do matrimônio, embora evidenciando direta ou indiretamente suas angústias e seus temores. De qualquer modo, o nacionalismo crescente entre as décadas de 20 e 30 fundamentava uma forte preocupação eugênica com o fortalecimento da raça, com a formação dos futuros cidadãos da pátria e com a transmissão dos valores éticos, como se pode observar nas afirmações do dr. Renato Kehl, fundador do Instituto Brasileiro de Eugenia.

Mesmo assim, uma série de preceitos eram definidos de modo a orientar os maridos, principalmente, na boa condução da relação sexual: durante o ato sexual, recomendava-se que a relação se restringisse ao "coito vaginal", isto é,

"intromissão do pênis na vagina, estando o corpo em posição horizontal e ficando a mulher em plano inferior em relação ao homem"

dormir ou repousar um pouco após o ato; e, sobretudo, nunca repetir a cópula,

"seja ao se terminar a primeira, seja horas após, no mesmo dia."

O "coito interrompido" era condenado também por não resultar em satisfação para as mulheres, que

"sofrem grandes perturbações nervosas, em conseqüência do estado de insatisfação sexual, que desta prática deflui, devido ao fato da mulher interromper em regra geral a cópula, antes de entrar em orgasmo."

E mesmo no caso em que o homem conseguisse reter a ejaculação, para que a companheira pudesse

"entrar em orgasmo antes da interrupção do coito",

nem assim sua satisfação sexual estaria garantida, pois ela ficaria igualmente

"privada do esperma, [e] não participaria dos benefícios, que de sua absorção defluiriam."

A "revolução clitoriana" nos anos 70

É interessante observar que, a despeito do reconhecimento do clitóris como lugar fundamental do prazer sexual feminino, no final do século 19, a grande maioria dos médicos, quando aceitava a necessidade sexual da mulher indicava como desejável a relação tradicional em que se procurava obter o orgasmo vaginal. E, de certo modo, é possível dizer que a vitória do modelo da família nuclear higienizada, entre os inícios do século 20 e os anos 50, levou a um total abafamento da existência e da importância do pequeno órgão da mulher, cada vez mais associado à anormalidade e ao lesbianismo. Assim, é somente nos inícios dos anos 70 que, no Brasil e em muitos outros países, entra em cena o clitóris, no contexto de toda uma discussão que redefiniu o lugar social e sobretudo sexual da mulher.

Vale notar que, para além das revistas feministas norte-americanas a que tiveram acesso as jovens da classe média universitária desde o final dos anos 60, a discussão foi popularizada através de uma revista comercial destinada ao público feminino, que rapidamente se tornou nacionalmente conhecida: a revista Nova. Já em seus primeiros artigos, ao propor uma nova figura de mulher independente, livre, ágil, ativa, nova cidadã e nova integrante do mercado, explicava a fisiologia do corpo feminino e masculino, atentando para o clitóris como lugar fundamental do prazer sexual, com base nas descobertas de Master e Johnson. Para a "nova" mulher, indicavam-se novos saberes sexuais, que poderiam informar a mudança de hábitos pessoais e com o companheiro. Em artigo intitulado "Orgasmo" (n° 68, maio de 1979), por exemplo, o terapeuta sexual respondia à pergunta "Como você sabe se está tendo um orgasmo?":

"O orgasmo acontece sempre de um mesmo jeito: pela estimulação do clitóris (orgasmos vaginais não existem); e cada clímax é diferente do outro. Seu orgasmo da segunda feira não é igual ao que você sentiu no sábado à noite, e você o experimenta sempre de modo diferente de suas amigas."

E à pergunta de se "Um homem pode ‘dar’ orgasmo a uma mulher?", a resposta era taxativa:

"...NÃO. As mulheres são responsáveis por seus próprios orgasmos. Por outro lado, com um homem hábil e atencioso é bem mais provável que a mulher chegue ao clímax."

Em outro artigo, de fevereiro de 1991, Freud é responsabilizado pelas confusões em torno do clímax feminino:

"Ele acreditava que as mulheres tinham dois tipos de orgasmo: o clitorial (imaturo) e o vaginal, durante a relação. Alcançado por mulheres emocionalmente maduras. Mas isso era só teoria, sem nenhuma pesquisa científica. Hoje em dia os sexólogos dizem que alcançar o orgasmo pela estimulação do clitóris é tão válido, ou maduro, quanto qualquer outro tipo de orgasmo."

Em outras palavras, o clitóris foi discursiva e praticamente fundamental para a redefinição social da figura da mulher, muito embora se tenha dado pouca atenção à associação então estabelecida. Mais do que nunca, clitóris e política se encontram, trazendo muito para se pensar e fazer.

Finalizando:

A questão inicial deste texto continua sem resposta definitiva. Contudo, é possível perceber que, em momentos de desestabilização social, provocada pela modernização econômica e pela transformação social dos hábitos, as discussões sobre a capacidade desejante da mulher, ou sua possível igualdade em relação aos homens também em matéria de sentimentos, instintos e sensações ganham destaque e, com elas, o clitóris adquire visibilidade.

E também possível concluir que as informações médicas sobre a anatomia do corpo feminino e seu funcionamento variam conforme o maior conservadorismo ou progressismo da época. Nos momentos de explosão feminista, como nos inícios do século 20 e nas décadas de 70-80, o clitóris entrou em cena, as mulheres ganhando autonomia em relação aos homens inclusive no campo sexual, biologicamente fundamentadas. Nos períodos de enclausuramento do desejo, como nos anos 30 ou S0, os discursos autorizados promovem a figura da "mãe cívica", logo, sem desejo e sem tesão. O precioso órgão desaparece dos discursos competentes.

É de se notar, portanto, que a maneira pela qual o corpo é lido e explicado, mesmo que cientificamente, varia em cada época, tanto segundo as representações, corporais produzidas, quanto segundo os interesses políticos e ideológicos dominantes. Como diz Laqueur,

"a história do clitóris é parte da história da diferença sexual e da socialização dos prazeres do corpo. Como a da masturbação, trata tanto de questões sociais, como de sexo."

Seguramente uma análise psicanalítica nos levaria um pouco mais longe nessas considerações a respeito do corpo e de suas racionalidades, ou das manipulações culturais do desejo em cada momento e em cada sociedade.

FONTE: http://www.nodo50.org/insurgentes/textos/mulher/16descobertas.htm.

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