




CIBER-PICHE.............. CIBER- PICHE...................... Escritos gestuais de uma aprendiz da palavra.Reflexões internas e externas... os textos são como danças de palavras............................
A lição de ‘los perros’
Margareth Rago salienta um dos aspectos da personalidade de Luce Fabri que mais a impressionou: “Em tudo que ela pensava, pensava em como é possível a expe-riência da liberdade. Não é para menos que o livro traz ‘entre a história e a liberdade’ no título. Luce era anarquista não só na dimensão do social, mas também nas suas relações com o cotidiano”. E ilustra com um fato que presenciou na casa da velha combatente: “Eu a estava entrevistando quando os muitos cachorros que ela tinha irromperam sala adentro. Meu primeiro impulso foi sugerir que os espantasse da forma convencional, com umas boas vassouradas. Mas, reconduzindo os bichos só na base da conversa mansa, ela respondeu: ‘No, tendremos que ser libertários también com los perros’”.
Esse “anarquismo visceral” reforça, para a escritora, o quanto é frágil o argumento de que o anarquismo seria a “infância utópica do socialismo científico”. Ela ressalta: “À medida que o marxismo predominou como o grande pensamento crítico do século 20, a leitura que ele promoveu do anarquismo também predominou e casou com a leitura feita pelo liberalismo. Um taxa o anarquismo de ‘romântico’, o outro de ‘caótico’. É a eterna, histórica aliança da esquerda autoritária com o capitalismo. O marxismo se afirma como ‘científico’, mas não podemos perder de vista que ele está falando dele próprio e a gente acaba por comprar o seu discurso”.
Para a biógrafa de Luce, a falência dos estados operários burocratizados é um sinal para se revisar esse conceito. “O anarquismo nunca se colocou como ciência; a revolução depende muito mais do desejo das pessoas e um dos desejos principais é a liberdade”.
http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/jun2001/unihoje_ju163pag17.html
"As crianças, em todos os lugares do mundo, são obrigadas, pela força, a freqüentar a escola. Na verdade, os pais são obrigados a enviar seus filhos à escola, seja pela severidade da lei, seja porque se lhes prometem vantagens, seja por uma retórica que os ludibria. Fora da escola, as pessoas, em geral, em todos os lugares do mundo, aprendem e estudam por vontade e iniciativa própria e consideram a educação como algo bom. Como é que isso se dá? A necessidade da educação é sentida por todos os homens. As pessoas adoram aprender, amam a educação e a buscam, da mesma forma que amam e buscam o ar que respiram. O governo e a sociedade têm enorme desejo de educar o povo. E, todavia, a despeito do uso da força, da persistência do governo e da sociedade, e de todas tentativas de ludibriar o povo a aceitar a importância da escola, as pessoas do povo constantemente manifestam insatisfação com a educação que lhes é fornecida na escola e só se submetem a ela pela força, quando a escolarização é tornada obrigatória. É possível provar a justeza do método atual de escolaridade compulsória? É difícil descobrir se há métodos melhores, porque até aqui as escolas nunca foram realmente livres. É verdade que no nível mais alto do processo de escolarização – a universidade – se tenta implantar um regime mais livre. Será que, talvez, nos níveis inferiores a escolarização deva ser realmente obrigatória? Será que, talvez, a experiência um dia ainda nos vá provar que escolas de freqüência compulsória são boas? Vamos examinar essas escolas, não pela consulta às tabelas estatísticas que nos são fornecidas, mas tentando descobrir o que elas realmente são e fazem e qual o seu real impacto sobre as crianças do povo. Quando voltamos nosso olhar para as escolas de freqüência obrigatória, é isto que a realidade nos mostra: as escolas se apresentam às crianças como uma instituição destinada a torturá-las – uma instituição em que elas são privadas de seu principal prazer e necessidade: a movimentação livre; em que obediência e silêncio são exigidos como condição de permanência; em que elas precisam de autorização especial para ‘sair um minutinho’ da sala de aula; em que qualquer ação errada é de pronto punida. Quanto aos resultados da ação da escola sobre as crianças do povo, se atentarmos para a realidade e não para as tabelas estatísticas, somos forçados a concluir: nove décimos da população escolar retiram da escola apenas um conhecimento mecânico da leitura e da escrita; por outro lado, saem da escola com uma aversão tão grande para com os caminhos do conhecimento que foram obrigados a trilhar que nunca mais na vida botam as mãos em um livro. A escola não apenas consegue inculcar nos alunos a aversão para com a educação, ela também os induz a praticar a hipocrisia e a trapaça, em decorrência da posição não-natural em que os coloca. A educação deve ser apenas uma busca de resposta às questões que a vida nos coloca. Mas a escola não só não permite que os alunos ali levantem questões que lhes interessam como se nega a tentar ajudar os alunos a responder as questões que a vida fora da escola os força a confrontar. Ela fica eternamente respondendo às mesmas questões – mas essas são questões que não são levantadas pela mente das crianças. Basta olhar para uma mesma criança, de um lado, em casa e na rua, e, de outro lado, na escola. Em casa e na rua você observa uma criança vivaz, curiosa, com um sorriso nos lábios, explorando e tentando aprender tudo, da mesma forma que explora e busca prazeres, expressando seus pensamentos em suas próprias palavras, com clareza e, freqüentemente, com força e eloqüência. Na escola, você observa um ser como que aposentado da vida, cansado e com uma expressão de fatiga, tédio, enfado e por vezes terror, repetindo palavras estranhas em uma língua estranha – um ser cuja alma, como num caracol, se esconde dentro da própria casa. Basta comparar essas duas condições em que podemos observar a criança para constatar, sem sombre de dúvida, qual delas é mais vantajosa para o seu desenvolvimento. A natureza compulsória da freqüência à escola impede que a criança ali se eduque."
[Leon Tolstoi, "Sobre Educação Popular", em Artigos Pedagógicos, 1862, traduzido do Russo para o Inglês por Leo Wiener (Dana Estes & Co., Boston, 1904), passagens retiradas das pp. 7-18 (ênfases acrescentadas). Citado apud Daniel Greenberg, Announcing a New School: A Personal Account of the Beginnings of the Sudbury Valley School (The Sudbury Valley School Press, Framingham, MA, 1973, p. 175)]



