domingo, 23 de novembro de 2008

"HANNAH ARENDT" - DIREITOS HUMANOS E TOTALITARISMO


Os Direitos Humanos na perspectiva de Hannah Arendt*
Renata Romolo Brito**

Resumo: Este artigo objetiva analisar a fundamentação dos direitos humanos de acordo com a filosofia de Hannah Arendt, tomando como referência a perspectiva histórica da filósofa em As Origens do Totalitarismo. Buscamos, porém, iluminar essa perspectiva com base em uma de suas obras mais filosóficas, A Condição Humana, para aprofundarmos a compreensão dos conceitos de condição humana, ação, liberdade e igualdade e sua relação com a idéia de dignidade – fonte dos direitos humanos.

Palavras-chave: Direitos Humanos, condição humana, dignidade.

Em sua obra Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt analisa as experiências e as condições que possibilitaram o surgimento de uma forma de opressão política que, em sua essência, difere de todas as outras: o totalitarismo1 .
Para compreender do fenômeno totalitário, segundo Arendt, não podemos mais confiar inteiramente na forma tradicional de conceber o passado, posto que uma ruptura na tradição tornou impossível explicar o conseqüente em razão do antecedente. Essa ruptura, trazida a termo pela experiência inédita de campos de concentração e fábricas de morte2 , faz com que não possamos mais nos aproveitar do passado de forma completa. Ainda assim, pela sua filosofia, é fundamental que nos voltemos para o passado para compreendermos o presente – para o passado e não para a tradição –, em um processo de reapropriação seletiva de fatos que podem esclarecer o presente depois de recuperados do esquecimento e re-iluminados pela nova visão retrospectiva3 . Dentre os fatos analisados por Arendt nessa obra, analisados com uma nova perspectiva afastada da perspectiva tradicional, nos concentraremos primeiramente na questão dos direitos humanos, para melhor desenvolvermos os conceitos de condição humana, ação política, liberdade e igualdade dentro da filosofia arendtiana.
Hannah Arendt aponta que os direitos humanos, conforme declarados no século XVIII, trazem um problema já em sua fundamentação. Segundo Arendt, a Declaração dos Direitos do Homem significou o prenúncio da emancipação do homem, porque foi a partir daquele momento que ele se tornou a fonte de toda a lei. Em outras palavras, o homem não estava mais sujeito a regras provindas de uma entidade divina ou assegurada meramente pelos costumes da história, mas que havia se libertado de qualquer tutela e que era dotado de direitos simplesmente porque era Homem4 . Dessa forma, esses direitos eram tidos ou mesmo definidos como inalienáveis, pois pertenciam ao ser humano onde quer este estivesse.
A definição de direitos humanos como direitos que emanam do Homem ou de uma idéia de homem – isto é, de um ser abstrato e indefinível –, entretanto, opõe-se à condição humana da pluralidade, essencial à ação e a dignidade humana. Nesse sentido, o indivíduo isolado5 continua sendo homem, porém ao separar-se do espaço público e da companhia de outras pessoas, ele não pode mais se revelar e confirmar sua identidade. De fato, na filosofia arendtiana, são as relações estabelecidas no espaço público com os diversos homens que representam a atividade dignificadora do ser humano. No espaço público, o homem iniciará relações únicas, marcadas por sua existência unívoca e iluminadas por suas particularidades. Nessa esfera, cada ação têm sua importância exatamente porque é fruto da atividade livre de cada indivíduo específico, revelando a identidade única e singular daquele que age. A ação política, advinda da liberdade e da singularidade de cada um, revela o seu agente aos demais, e confirma para si mesmo quem de fato ele é.
Sem essa revelação, o homem não mais faz parte da história, e após a sua morte, nada existe que possa recuperar sua existência ou sua memória. Sem a companhia dos iguais, a relação do eu com o mundo se parte pela falta de ratificação do senso comum. Por isso, é apenas quando o indivíduo está em companhia de outros homens diferentes de si, em um espaço público, é que ele realmente age, confirmando sua singularidade e sua identidade com o advento de relações inéditas que refletem a si mesmo, como agente unívoco na totalidade da comunidade humana. E é somente nesse momento que ele atualiza sua dignidade.
O indivíduo sozinho, excluído da teia de relações humanas, fica despido da própria dignidade humana, justamente porque nada do que ele faça ou deixe de fazer terá importância. Seus atos não atingirão o resto da comunidade humana e passarão como se não tivessem existido.
Essa situação de isolamento e separação da comunidade, em realidade, afeta as características particulares da vida humana consideradas essenciais, segundo Hannah Arendt, desde Aristóteles: o homem fica despido da relevância da fala (e comandar o pensamento e a fala sempre foram marcas de separação do ser humano dos demais animais); e fica despido do relacionamento com outras pessoas (afetando-se a idéia do homem como “animal político”).6
Sob esse ponto de vista, a fundamentação dos direitos humanos em uma idéia de homem, abstrata e universal, que exclui qualquer particularidade e singularidade dos homens que existem no mundo real, vai de encontro à própria atividade dignificadora do ser humano: a ação. A ação é política em sua natureza, pois é a interação peculiar do ser humano concreto e singular com outros homens tão concretos e diversos quanto existem em uma comunidade real. E é precisamente por essa característica que cada indivíduo, concreto e singular, emana dignidade; porque é único, e não uma cópia homogênea e substituível de uma natureza genérica. Na perspectiva arendtiana, os direitos humanos, que deveriam ser reflexo da dignidade do homem, pensados de forma a independerem da pluralidade humana, perdem o próprio sentido de dignidade.
Essa contradição entre os direitos humanos conforme pensados desde o século XVIII e a condição humana da pluralidade – e conseqüentemente, contradição com a dignidade humana –, fica aparente no caso de pessoas excluídas de comunidades, como é o caso dos apátridas e das minorias étnicas vivendo sob um Estado-nação de uma etnia diferente. Os Direitos do Homem, que deveriam iluminar a dignidade do indivíduo e afirmar seu valor onde quer que estivesse, não chegavam a esses grupos. Eles sofreram uma privação total de direitos porque foram excluídos da teia de relações humanas que afirma e deveria assegurar tais direitos. Justamente por estarem sozinhos, isolados, os direitos humanos não lhes atingia. Eram homens – mas apenas homens; e essa generalidade de se pertencer a uma espécie (a espécie humana) não lhes foi suficiente para garantir que mantivessem seus direitos.
Por perderem a possibilidade de agir, esses grupos encontravam-se à mercê da sorte ou do infortúnio. Eles não podiam ser responsabilizados pelo que lhes acontecia, porque não haviam sido eles que haviam posto em movimento o que estava acontecendo, nem havia nada que pudessem fazer para evitá-lo. Essa irresponsabilidade marca precisamente a falta de dignidade dessa situação. Por serem impedidos de agir, eles se tornaram meros objetos, vítimas de acontecimentos dos quais não conseguiam fazer parte como sujeitos, como agentes. Ao lhes ser tirado o papel de sujeito, também foi tirado o papel de homem. Assim, eles deixaram de ter relevância. Suas ações ou suas opiniões, embora eles ainda as tivessem, não importavam mais, e era como se não existissem. A ação, a atividade dignificadora do homem, traz consigo responsabilidade daquele que age, responsabilidade pela ação particular. Sem essa responsabilidade, a ação é inexistente, porque perde seu significado de revelação.
Essa situação era também complicada pelo fato de que, juntamente aos demais Direitos do Homem, havia a exigência de soberania nacional, que se colocava do mesmo modo como um direito supremo. Essa exigência causou um paradoxo no próprio fundamento não só dos direitos humanos como também no do Estado-nação. Segundo Hannah Arendt:

De uma só vez, os mesmos direitos essenciais eram reivindicados como herança inalienável de todos os seres humanos e como herança específica de nações específicas; a mesma nação era declarada, de uma só vez, sujeita a leis que emanariam supostamente dos Direitos do Homem, e soberana, isto é, independente de qualquer lei universal, nada reconhecendo como superior a si própria.7


Ao idealizarmos os direitos humanos como fundamentados no homem, ainda que em sua forma geral e abstrata, temos de pensar no homem como superior ao Estado-nação. Contudo, com a afirmação de que as nações devem ser soberanas, idealizamos, ao mesmo tempo, um Estado-nação superior ao homem, cujos direitos passam a ser apenas os direitos assegurados pelo governo aos seus nacionais.
Essa contradição reforça os embaraços já apontadas por Arendt de se fundamentar os direitos humanos no homem isoladamente. As organizações políticas ficam obscurecidas em segundo plano, ignorando-se a pluralidade essencial da condição humana. Essa ignorância acaba trazendo, na prática, a inaplicabilidade dos direitos. Os direitos tornam-se formais e impossíveis de serem exercidos, porque não passam de uma teoria vazia. A condição de um ser humano isolado é igual à situação de alguém sozinho em um ilha, em que suas palavras só podem ser proferidas ao vento e depois esquecidas. Seus direitos são, portanto, apenas teóricos. Um ser humano isolado continua vivo, livre, com opiniões e com atos, mas não há nenhuma garantia para isso ou alguma importância nisso, já que não se atinge nenhuma organização política.
Por outro lado, a contradição entre soberania e direitos humanos também traz implicações para o Estado. A nação, tornando-se uma entidade capaz de herdar, juntamente com seus nacionais, os direitos humanos, transforma o Estado em instrumento para a execução de seus interesses, retirando-o do âmbito estritamente legal. De instituição máxima da lei e de protetor de todos os habitantes de seu território, o Estado se torna instrumento da nação8 e tem de priorizar o interesse nacional acima da legalidade, visto que o Direito passa a ser o que é bom para a nação9 . Os Estados-nações, no entanto, sempre haviam sido concebidos dentro da lei, e a ilegalidade a que a tomada pela nação lhes atira acaba por destruir-lhes as instituições e o próprio sentido de soberania. Suas instituições deixam de funcionar para todos os seus habitantes, deixando na marginalidade os não-nacionais; e a soberania deixa de significar liberdade para representar arbitrariedade e hostilidade contra outras nações.
Na prática, o resultado da identificação dos direitos humanos com a nação foi que os direitos humanos passaram a existir apenas como direitos nacionais, e só podiam ser exercidos quando o indivíduo se imbuía da qualidade de nacional de um Estado, isto é, de cidadão. Assim, tais direitos ficavam circunscritos à esfera de poder de um determinado governo, e sob a tutela deste. Essa situação esvazia o caráter universal dos Direitos do Homem, atingindo frontalmente sua suposta inalienabilidade e tornando-os contingentes. Numa época em que os direitos deixaram de ser assegurados pelos valores sociais, espirituais e religiosos, apenas as ordens políticas poderiam e precisavam, de fato, afirmá-los. Entretanto, alguém – como os apátridas e das minorias étnicas – que se encontrasse fora dessa ordem política ficava, em realidade, à margem de qualquer lei ou direito.
Observamos, dessa forma, que a expulsão de uma comunidade política importava realmente a perda de todos direitos humanos, porque “não restava nenhuma autoridade para protegê-los e nenhuma instituição disposta a garanti-los”10 . Nessa situação, a perda da comunidade equivale à própria perda da dignidade. Nesse contexto, Hannah Arendt enfatiza que o direito fundamental de cada indivíduo, antes de qualquer dos direitos enumerados em declarações, é o direito a ter direitos, isto é, o direito de pertencer a um comunidade disposta e capaz de garantir-lhe qualquer direito11 .
De fato, os direitos antes tidos como imanentes ao homem e, justamente por isso, inalienáveis, tornam-se inaplicáveis (porque fora de um contexto político), ou alienáveis e contingentes (porque dependentes da comunidade). Em outras palavras, perdem o sentido de direitos humanos.
Essas reflexões demonstram a necessidade de buscarmos uma idéia reguladora que embase os Direitos do Homem de forma diferente da fundamentação tradicional. Em realidade, Hannah Arendt argumenta que, não podendo mais confiar na história (costumes de cada comunidade como fonte de direitos) ou na natureza (natureza humana como fonte de direitos), o homem tem de voltar-se para a própria idéia de humanidade como garantidora de seus direitos. Por pertencer à humanidade, o ser humano tem direitos. E é a humanidade composta por cada homem singular que tem o papel de fonte e garantidora dos Direitos do Homem12 .
No entanto, a utilização da idéia de humanidade para o fim prático de fundamentar os direitos humanos encontra alguns óbices. Em primeiro lugar, o conceito de humanidade como conjunto que engloba todos as pessoas é, tradicionalmente, tão abstrato quanto o de Homem, e assim, a inaplicabilidade com que nos defrontamos quando pensamos os direitos humanos como emanados da natureza humana continua. Em segundo lugar, entrelaçando-se com a questão anterior, temos que, desde Hobbes, a filosofia política deixou de conceber a humanidade de forma a abranger uma convivência supranacional solidária entre as diversas comunidades humanas, e estabeleceu-se em seu lugar um estado de guerra entre os países13 .
Desse modo, a humanidade, como conjunto de seres humanos, deixa de existir de forma prática; em seu lugar, fica a desassociação de nações soberanas e hostis, sem nenhum vínculo ou direito que as una.
Essa desassociação, inclusive, é a causa da expulsão de uma comunidade implicar a perda de todos os direitos humanos. Ao sair de uma comunidade específica, uma nação, o indivíduo não pertencia a mais nenhum grupo, e assim ficava excluído de qualquer relação com os demais seres humanos. A comunidade era sua última ligação com os demais seres humanos, e estar fora de uma comunidade significava, então, estar fora da própria humanidade.
Devido a essas questões, a idéia de humanidade na filosofia arendtiana – que tem a possibilidade de embasar os Direitos dos Homens – se constitui como um objetivo de construção coletiva entre os homens14 . Nesse sentido, ela é a finalidade concreta de estabelecimento de uma humanidade comum, que deve englobar todos os seres humanos e se caracterizar precisamente por ser um conjunto de elementos diversos.
Tal forma de conceber a humanidade é um caminho para superar os problemas levantados pela forma tradicional de se lidar com os direitos humanos. Esses deixam de se embasar em uma idéia abstrata e contrária à condição do ser humano, adquirindo uma abrangência que visa envolver cada homem particularmente. Esse envolvimento, por sua vez, impõe o compromisso de se fazer parte dessa comunidade abrangente. Cada homem é responsável por pertencer à humanidade, pois todas as suas ações atingirão à totalidade de pessoas de que faz parte, e serão reflexos de si mesmo. Cada homem é, por isso, solidário na responsabilidade comum e recíproca. A dignidade de se pertencer a comunidade traz consigo, categoricamente, responsabilidade, porque dignidade e responsabilidade são correlatas15 , conforme apontado acima.
A responsabilidade de construir tal humanidade, de agir junto a homens dessa comunidade, de se revelar homem – em outras palavras, de ser digno –, remete à primeira idéia da ação como atividade dignificadora do homem. A ação não pode se desassociar de uma comunidade política, assim como o agente não pode se desassociar de sua responsabilidade.
Dessa forma, a dignidade humana, do mesmo modo que os direitos humanos, torna-se uma questão de política prática; isto é, torna-se a construção de uma comunidade que engloba a totalidade dos seres humanos e permite, com isso, a possibilidade de ação de cada um de seus componentes.
Porém, resta ainda uma questão a respeito da construção de um conjunto cujos elementos são bastante díspares. A construção de uma comunidade baseia-se sempre em alguma espécie de ligação entre os seus componentes. Os seres humanos, entretanto, encontram-se divididos em grupos diferentes, e não podemos negar-lhes suas desigualdades de origem natural, de organização e de destino na história se quisermos respeitar sua singularidade.
A ligação dos homens que compõe a humanidade proposta por Arendt não pode significar um nivelamento, por qualquer critério que seja. Por isso, não pode se basear em uma suposta igualdade inata que pode ser comprovada e testada diariamente. A busca de tal igualdade apenas impede de aprendermos a lidar com as diferenças, o que resulta na tentativa de eliminar a pluralidade e estabelecer um padrão – objetivo impossível16 .
A ligação que podemos estabelecer entre todos os seres humanos, além da conexão vã de pertencerem todos a mesma espécie, também tem de ser construída. É uma igualdade política, e não uma igualdade natural. É a igualdade de objetivo humano, que só pode ser atingida com uma igual distribuição de direitos17 .
Apenas com esse objetivo comum de estabelecer uma igualdade política é que se pode construir de fato uma humanidade em que o homem não é posto como um ser atomizado, em cujo isolamento jaz a sua indignidade; nem, ao mesmo tempo, posto como sujeito às regras históricas e contingentes de sua sociedade. Trata-se de uma humanidade de homens iguais, solidários e dignos.



Notas

* Esta comunicação está vinculada ao nosso projeto de mestrado (Unicamp/IFCH), cuja pesquisa vem sendo financiada pela CAPES.

** Mestranda em Filosofia pelo IFCH/Unicamp.

1- Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 3, Cap 4, p. 512

2- Hannah ARENDT. The origins of totalitarianism. Parte 2, Cap 5, P 123. (Na tradução, Parte 2, Cap 1)

3- Maurizio P. D' ENTRÈVES. The political philosophy of Hannah Arendt. Cap 1, Seção 1, P. 31

4- Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 2, Cap 5, Seção 2, p. 324.

5- Sobre a diferença entre isolamento e solidão, ver Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo: “O que chamamos de isolamento na esfera política é chamado de solidão na esfera dos contatos sociais. Isolamento e solidão não são a mesma coisa. Posso estar isolado – isto é, numa situação em que não posso agir porque não há ninguém para agir comigo – sem que esteja solitário – isto é, numa situação em que, como pessoa, me sinto completamente abandonado por toda companhia humana – sem estar isolado.” Parte 3, Cap 4, p. 527

6- Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 2, Cap 5, Seção 2, p. 330.

7- Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 2, Cap 4, Seção 1, P. 262

8- A tomada do Estado pela nação inicia-se, em parte, com a crescente consciência nacional causada pela ampliação geográfica que as nações européias experimentaram com o imperialismo. Essa ampliação fez com que os europeus se defrontassem com homens de culturas radicalmente diferentes, que, de certa forma, não cabiam em seu conceito de humanidade. Quanto ao tribalismo e os Estados-nações, ver Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo, segunda parte. Especificamente: “A tragédia do Estado-nação surgiu quando a crescente consciência nacional do povo interferiu com essas funções [de proteção de todos os habitantes de seu território e de instituição legal suprema]. Em nome da vontade do povo, o Estado foi forçado a reconhecer como cidadãos somente os “nacionais”, a conceder completos direitos civis e políticos somente àqueles que pertenciam à comunidade nacional por direito de origem e fato de nascimento. Isso significa que o Estado foi parcialmente transformado de instrumento da lei em instrumento da nação.” Parte 2, Cap 4, Seção 1, P. 261.

9- Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 2, Cap 5, Seção 1, p. 308-9.

10- Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 2, Cap 5, Seção 2, p. 325.

11- Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 2, Cap 5, Seção 2, p. 331.

12- Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 2, Cap 5, Seção 2, p. 332.

13- Hannah ARENDT. The origins of totalitarianism. Parte 2, Cap 5, Seção 3, P 157. (Na tradução, Parte 2, Cap 1).

14- Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 2, Cap 4, Seção 1, P. 266.

15- Sobre humanidade, dignidade e responsabilidade, ver Hannah ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 2, Cap 4, Seção 1, P. 266-7

16- A esse respeito, ver Hannah ARENDT. The origins of totalitarianism.: “Equality of condition, though it is certainly a basic requirement for justice, is nevertheless among the greatest and most uncertain ventures of modern mankind. The more equal conditions are, the less explanations there is for differences that actually exists between people; and thus all the more unequal do individuals and groups become. Parte 1, Cap 3, P 54.

17- ARENDT. Origens do Totalitarismo. Parte 2, Cap 4, Seção 1, P. 266.


FONTE: http://www.eticaefilosofia.ufjf.br/9_2_renata.html
Revista Ética & Filosofia Política (Volume 9, Número 1, junho/2006)

"Os indiferentes" - um importante pensamento de Antonio Gramsci

30 de Agosto de 2007

Quem foi Antonio Gramsci ?

Antonio Gramsci nasceu no mês de janeiro de 1891 e faleceu no dia 27 de abril de 1936, na Itália. É um conhecido escritor, político e teórico político italiano. Foi membro fundador e líder do Partido Comunista Italiano e foi encarcerado pelo regime fascista de Mussolini.Seus escritos estão totalmente voltados para a análise da cultura e da liderança política e seu trabalho é notável pela sua originalidade, enquanto pensandor marxista. É bastante conhecido o seu conceito de "hegemonia cultural" enquanto forma de manutenção do estado, em uma sociedade capitalista.O texto que apresentamos, a seguir, pode servir para os educadores repensarem o momento atual e a sua prática educativa....

"Os indiferentes"

Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.

A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.

Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.

Primeira Edição: La Città Futura, 11-2-1917 (???)
Origem da presente Transcrição: Texto retirado do livro Convite à Leitura de Gramsci" (???)
Tradução: Pedro Celso Uchôa Cavalcanti.
Transcrição de: Alexandre Linares para o Marxists Internet Archive
HTML de: Fernando Antônio de Souza Araújo
Direitos de Reprodução: Marxists Internet Archive (marxists.org), 2005. A cópia ou distribuição deste documento é livre e indefinidamente garantida nos termos da GNU Free Documentation License
http://e-educador.com/index.php/artigos-mainmenu-100/146-qos-indiferentesq-um-importante-pensamento-de-antonio-gramsci

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A MÃO DE OBRA DE AFRICANOS NO BRASIL -SÉC.XIX - VÍDEO DE NADIA STABILE - MÚSICA DE BEETHOVEN - OBRAS DE DEBRET E RUGENDAS

A Temática Africana em Sala de Aula - PROF.DR.MAURÍCIO WALDMAN

Prezados amigos e amigas:

O próximo dia 20 de Novembro é o DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA.

Que tal tomar conhecimento desta temática? Tenho alguns materiais de minha lavra a sugerir para quem quer que deseje fazer leitura sobre o tema.

São os que seguem:


LIVROS

1. Memória D'África - A Temática Africana em Sala de Aula
Obra em co-autoria com Carlos Serrano , Editora Cortez, 2007, atualmente na segunda edição. Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_memoria_d_africa&c=a


MATERIAIS ACADÊMICOS

1. Africanidade, Espaço e Tradição
Paper - Revista África, nº 20-21. Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo, 2000. Texto considerado de relevância internacional pelo Centre National de la Recherche Scientifique, o maior e mais influente organismo de pesquisa científica da França. Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_africanidade_espaco_e_tradicao&c=a

2. Imaginário, Espaço e Discriminação Racial
Paper - Revista GeoUSP, nº 14, pp. 45-64, Serviço de Pós-Graduação do Depto de Geografia USP, 2004. Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_imaginario_espaco_e_discriminacao_racial&c=a


MATERIAIS PARA CAPACITAÇÃO

1. A África Tradicional
1997, Projeto Sigma, Editora Didática Suplegraf, São Paulo (SP).
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_africa_tradicional&c=a

2. Guerras de Libertação na África
1998, Projeto Sigma, Editora Didática Suplegraf, São Paulo (SP).
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=hist_guerras_de_libertacao_na_africa&c=h

3. O Fabuloso Reino dos Mansas do Mali
2002, Prof- Assessoria em Educação e disponibilizado em 2004 para o site da Casa de Cultura da Mulher Negra (Santos, SP).
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_fabuloso_reino_dos_mansas_do_mali&c=a

4. Mundo Afro-Brasileiro
2003, publicado pelo Boletim da Associação dos Geógrafos Brasileiros, Seção Local São Paulo (SP).
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_mundo_afro-brasileiro&c=a


ENTREVISTAS

1. Entrevista concedida para a Rádio Voz da América
Transmissão mundial a partir de Washington em Outubro de 2007 centrada na Temática Africana em Sala de Aula e na questão da política de ações afirmativas.
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_radio_voz_da_america&c=a

2. Entrevista concedida para o Sindicato dos Professores - SINPRO
2003, Arquivo virtual e transcrição da entrevista estão disponíveis na Internet.
Informações pelo link: http://www.mw.pro.br/mw/mw.php?p=antrop_sinpro&c=a



Aproveito esta mensagem para informar que estarei palestrando no próximo dia 21 de Novembro na cidade de Poços de Caldas, por conta de minha participação no IIº SEMINÁRIO DAS RELAÇÕES INTERÉTNICAS E IGUALDADE RACIAL, promovido pela Secretaria de Educação do município.

Estarei proferindo palestra com base no tema "Geopolítica das Ações Afirmativas", tema que pretendo ampliar para um artigo em futuro próximo.

Por ora é só.

Até a próxima e um forte abraço!


Prof. Dr. Maurício Waldman
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Por que a economia colonial e imperial baseou-se no trabalho escravo? E A HISTÓRIA E A CULTURA AFRO-BRASILEIRA NA ESCOLA

O latifúndio monocultor no brasil exigia uma mão-de-obra permanente.
era inviável a utilização de portugueses assalariados, já que a intenção não era vir para trabalhar, e sim para se enriquecer no brasil.

o sistema capitalista nascente não tinha como pagar salários para milhares de trabalhadores, além do que, a população portuguesa que não chegava aos 3 milhões, era considerada reduzida para oferecer assalariados em grande quantidade.

quem foi utilizado como escravo nos períodos colonial e imperial?

embora o índio tenha sido um elemento importante para formação da colônia, o negro logo o suplantou, sendo sua mão-de-obra considerada a principal base, sobre a qual se desenvolveu a sociedade colonial brasileira.

na fase inicial da lavoura canavieira ainda predominava o trabalho escravo indígena. parece-nos então que argumentos tão amplamente utilizados, como inaptidão do índio brasileiro ao trabalho agrícola e sua indolência caem por terra.

a história verdadeira mostra que a reação do nativo foi tão marcante, que tornou-se uma ameaça perigosa para certas capitanias como espírito santo e maranhão. além da luta armada, os indígenas reagiram de outras maneiras, ocorrendo fugas, alcoolismo e homicídios como forma de reação à violência estabelecida pelo escravismo colonial. todas essas formas de reação dificultavam a organização da economia colonial, podendo assim, comprometer os interesses mercantilistas da metrópole, voltados para acumulação de capital. destaca-se também, a posição dos jesuítas, que voltados para catequese do índio, opunham-se à sua escravidão.

apesar de todos esses obstáculos, o indígena é amplamente escravizado, permanecendo como mão-de-obra básica na economia extrativista do norte do brasil, mesmo após o término do período colonial.

por que então que o índio cede lugar para o negro como escravo no brasil?

a maior utilização do negro como mão-de-obra escrava básica na economia colonial, deve-se principalmente ao tráfico negreiro, atividade altamente rentável, tornando-se uma das principais fontes de acumulação de capitais para metrópole.

exatamente o contrário ocorria com a escravidão indígena, já que os lucros com o comércio dos nativos não chegava até a metrópole.

torna-se claro assim, o ponto de vista defendido pelo historiador fernando novais, de que "o tráfico explica a escravidão", e não o contrário.

para os portugueses, o tráfico negreiro não era novidade, pois desde meados do século xv , o comércio de escravos era regular em portugal, sendo que durante o reinado de d. joão ii o tráfico negreiro foi institucionalizado com a ação direta do estado português, que cobrava taxas e limitava a participação de particulares.

quanto à procedência étnica do negro, destacaram-se dois grupos importantes: os bantos, capturados na África equatorial e tropical provenientes do congo, guiné e angola, e os sudaneses, vindos da África ocidental, sudão e norte da guiné.

interessante observarmos que entre os elementos deste segundo grupo, destacavam-se muitos negros islamizados, responsáveis posteriormente por uma rebelião de escravos ocorrida na bahia em 1835, conhecida como a revolta dos malês.

a resistência

do negro: os quilombos.


desde fugas isoladas, passando pelo suicídio, pelo banzo (nostalgia que fazia o negro cair em profunda depressão o levando à morte) e pelos quilombos, várias foram as formas de resistência do negro à escravidão, sendo a formação dos quilombos a mais conseqüente.

os quilombos eram aldeamentos de negros que fugiam dos latifúndios, passando a viver comunitariamente. o maior e mais duradouro foi o quilombo dos palmares, surgido em 1630 em alagoas, estendendo-se numa área de 27 mil quilômetros quadrados até pernambuco. desenvolveu-se através do artesanato e do cultivo do milho, feijão, mandioca, banana e cana-de-açúcar, além do comércio com aldeias vizinhas.

seu primeiro líder foi ganga zumba, substituído depois de morto por seu sobrinho zumbi, que tornou-se a principal liderança da história de palmares. zumbi foi covardemente assassinado em 1695 pelo bandeirante domingos jorge velho, contratado por latifundiários da região.

apesar dos muitos negros mortos em palmaras, a quantidade de escravos crescia muito e em 1681 atingia a cifra de 1 milhão de negros trazidos somente de angola.

o grande número de negros utilizado como escravos, deixa clara a alta lucratividade do tráfico negreiro, responsável inicialmente pelo abastecimento da lavoura canavieira em expansão nos séculos xvi e xvii e posteriormente nas áreas de mineração e da lavoura cafeeira nos séculos xviii e xix respectivamente.

A história e cultura

afro-brasileira na escola



A lei nº 10.639, de 2003, ou a ldb e passou a exigir que as escolas brasileiras de ensino fundamental e médio incluíssem no currículo o ensino da história e cultura afro-brasileira. o fato foi considerado pelos movimentos de luta dos negros em todo o país como um importante passo.
sua aplicação prática, no entanto, ainda é desafio para toda a comunidade escolar, especialmente para os professores: como sair da teoria? como e onde buscar material, isto é um grande desafio a ser cumprido.

História x Autalidades


Infelizmente, ainda a população “negra” no brasil, ocupa na área empregatícia, ocupa a posição de peão ou chão de fábrica, por não ter as mesmas oportunidades de crescimento que a grande parte da população “branca” tem. isto tudo é um reflexo de mais de 500 anos de história, onde o preconceito ainda está presente em piadinhas sem graça e que só desmoralizam um ser humano igual a tantos outros.


A exclusão existente no mundo do trabalho também se dá no sistema educacional. dos 28.234.039 estudantes do ensino fundamental, 52,0% são brancos, 43,1% são pardos e 4,5%, pretos. no ensino médio, que tem 3.760.935 alunos, as proporções correspondentes são 65,3%, 30,1% e 3,3%, para brancos, pardos e pretos, respectivamente, e, cursando o ensino superior, existem 1.665.982 estudantes, sendo 78,6% deles brancos, 17,4% de pardos e 1,4% de pretos (fonte: anuário estatístico do brasil 1992, rio de janeiro: ibge, v. 52, 1992. disponível em www.ibge.gov.br em "estatísticas do século xx", tema "educação")

http://www.hploco.com/ims/Historia_e_Atualidades_da_Cultura_Afro-Brasileira.html.

FONTE: INSTITUTO AFRO-BRASILEIRO DE DESENVOLVIMENTO REGIONAL MILTON SANTOS

EDUCAFRO - EDUCAÇÃO E CIDADANIA DE AFRO-DESCENDENTES E CARENTES

Aulas de “Cultura e Cidadania” nos núcleos

O que diferencia a Educafro dos outros cursinhos são as aulas de “Cultura e Cidadania” desenvolvidas regularmente em cada núcleo de pré-vestibular comunitário, com carga horária igual ou superior às disciplinas acadêmicas como física, português ou biologia. As aulas de cidadania se caracterizam em uma marca do projeto e abordam 10 temas anuais, especialmente selecionados e preparados para a realidade dos alunos provenientes das escolas públicas e do povo negro. O foco didático-pedagógico desta disciplina, baseado na abordagem transversal de conteúdos sociais e étnico-raciais, busca trabalhar os temas com diversidade, através de palestras, dinâmicas, filmes, teatro e seminários em grupo, passando pelas vertentes teóricas e práticas do que é cidadania na Educafro.

Temas e textos de cidadania

Além do encontro mensal para professores e equipes de cidadania, que ocorrem aos primeiros sábados às 14:00 horas, na Sede da Educafro, são elaborados textos-base referentes aos temas de cidadania de cada semestre. O objetivo destes textos é dar início ao trabalho, que deverá ser complementado com outras abordagens.

Definidos os Temas de Cultura e Cidadania de 2008:
Clique aqui para fazer o download da apostila de cidadania 2008.
http://www.educafro.org.br/Sbolsas/sbl_002_tfc.asp#aTEMAS%20DE..

TEMAS DE "CULTURA E CIDADANIA" DA EDUCAFRO 2008.

1- VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E DE GÊNERO: UM OLHAR PARA A MULHER AFRO-BRASILEIRA

Objetivo: trazer à tona inovações sociais da Lei Maria da Penha e luta para sua efetivação e preocupações com a inserção da mulher negra, que nos indicadores sociais permanece como maior vítima de agressões.

2- JUVENTUDE NEGRA: ELEVANDO A AUTO-ESTIMA E SUPERANDO OS ESTIGMAS!

Objetivo: demonstrar o quanto a juventude da periferia é capacitada e está pronta para aceitar os desafios colocados para transformar a sociedade. Abordar propostas de intervenção social e políticas públicas para a Juventude e partilhar os inúmeros casos de vitórias em nosso meio..

3- QUAIS SÃO OS DESAFIOS PARA A POPULAÇÃO IDOSA E PARA O AFRO-DESCENDENTE NO BRASIL?

Objetivo: participar e contribuir com o debate atual na sociedade sobre envelhecimento da população e qualidade de vida, associando com a superação da discriminação dos idosos negros.

4- O NEGRO E A MÍDIA: REFLEXÕES SOBRE COMUNICAÇÃO DE MASSA E A POP. AFRO-BRASILEIRA

Objetivo: abordar as temáticas em torno do poder da mídia, propostas para sua democratização e participação da população negra nos conteúdos culturais, jornalísticos, etc. e Ações Afirmativas neste contexto.

5- POLÍTICAS PÚBLICAS E INCLUSÃO ÉTNICA: QUAL É A AGENDA POLÍTICA SOBRE DIVERSIDADE PARA AS ELEIÇÕES MUNICIPAIS?

Objetivo: construir coletivamente uma pauta prevendo a inclusão de políticas com recorte étnico nas plataformas/programas de candidatos, partidos políticos e lideranças para as municipais/2008 e levar para comunidade a importância deste debate.

6- AS 20 RAZÕES HISTÓRICAS E ATUAIS PARA DEFENDERMOS COTAS NAS UNIVERSIDADES

Objetivo: elencar os fundamentos históricos, sociais, legais, filosóficos e estatísticos que comprovam o quanto as ações afirmativas e cotas para negros são fundamentais para garantir igualdade de acesso ao ensino superior. È importante citar que o ano de 2008 marca os 120 anos da Abolição Inconclusa..

7- QUAL É A RESPONSABILIDADE DAS UNIVERSIDADES COM A INCLUSÃO SOCIAL E ÉTNICA?

Objetivo: questionar a omissão das universidades públicas que se negam a adotar programas de inclusão de negros e estudantes da rede pública e, em paralelo, apontar resultados alcançados por 51 IES - Instituições de Ensino Superior Públicas que adotam reserva de vagas (cotas) e outros tipos de ações afirmativas

8- QUAIS SÃO OS MEIOS DISPONÍVEIS PARA A APLICAÇÃO DA LEI 10.639 E TORNA-LA EFETIVADA EM TODOS OS NÍVEIS DE ENSINO?

Objetivo: socializar ferramentas didáticas e conteúdos referentes ao ensino da História da África e cultura afro-brasileira. Estudar o Parecer 003, que trata da Lei e de diretrizes e práticas positivas a seu respeito.

9- O QUE TEMOS A APRENDER COM A RESISTÊNCIA, PROPOSITURA E DENÚNCIAS DO MOVIMENTO NEGRO?

Objetivo: conhecer, estudar e aprofundar as histórias e proposituras de alguns grupos sociais negros organizados no Brasil ao longo dos últimos anos.

10- REPRESSÃO CONTRA MOVIMENTOS SOCIAIS: UM RELATO SOBRE AÇÕES ARBITRÁRIAS DO ESTADO CONTRA O MOVIMENTO NEGRO E ORGANIZAÇÕES POPULARES

Objetivo: t denunciar as ações arbitrárias promovidas por órgãos do Estado contra os movimentos sociais e o movimento negro e buscar soluções para superação de tais posturas que ao longo da história visa criminalizar a ação de grupos reivindicatórios


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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Documentário mostra o olhar clarividente de Milton Santos sobre "o sequestro da globalização"


Entre cenas de protestos de cocaleiros bolivianos, passeatas do Fórum Social Mundial e jovens artistas do hip-hop nas periferias brasileiras, o filme se sustenta na crítica do geógrafo aos rumos do processo de globalização. Milton dizia que nunca houve condições tecnológicas tão boas para o desenvolvimento da humanidade. Só que essas condições foram seqüestradas por um grupo de empresas.

Uma perspectiva periférica da globalização, a partir do olhar clarividente de um dos maiores intelectuais brasileiros. De acordo com o cineasta Silvio Tendler, esse é o foco do documentário "Encontro com Milton Santos ou O mundo global visto do lado de cá', que estreou na sexta-feira (17/08) em salas de São Paulo, Rio de Janeiro, Santos e Campinas. O filme, que em 2006 venceu o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro na categoria júri popular, tem como eixo condutor um registro precioso: a última entrevista do geógrafo Milton Santos, realizada em janeiro de 2001, cinco meses antes de sua morte.

“O filme não pretende ser uma síntese do pensamento de Milton Santos. É um diálogo comigo, no qual ele conduz seu brilhante raciocínio sobre a globalização, enquanto eu procuro ilustrar esse pensamento com exemplos na vida real”, disse Tendler à Agência FAPESP.

Entre cenas de protestos de cocaleiros bolivianos, passeatas do Fórum Social Mundial e jovens artistas do hip-hop nas periferias brasileiras, o filme se sustenta na crítica do geógrafo aos rumos do processo de globalização. “Ele dizia que nunca houve no mundo condições tecnológicas tão boas para o desenvolvimento da humanidade. Só que essas condições foram seqüestradas por um grupo de empresas. Cabe, portanto, à humanidade redirecionar a globalização para que ela seja conveniente para todos”, disse Tendler.

O documentário começou a nascer em 1995, quando o cineasta filmava o média-metragem Josué de Castro – Cidadão do mundo. “Fui a Paris colher um depoimento de Milton Santos, que tinha uma relação próxima com Josué. Não o conhecia ainda. Foi a entrevista mais difícil da minha vida para cortar, porque tudo o que ele dizia era brilhante”, contou.

Cineasta e geógrafo se encontraram em diversas ocasiões, quando Tendler propôs a Santos uma entrevista sobre globalização. O professor o recebeu em sua sala na Universidade de São Paulo, no dia 4 de janeiro de 2001. “Ele já estava gravemente doente, mas me recebeu e deu uma longuíssima entrevista. Foi um depoimento muito forte, que marcou a minha vida para sempre. Quando terminei, vi que aquilo era um filme por si só”, destacou o cineasta.

Estudo e intuição
Tendler conta que fez o filme com poucos recursos. Foi de ônibus do Rio de Janeiro, onde mora, a São Paulo, para fazer a entrevista. Levou um único assistente e uma câmera digital de tecnologia defasada. “Em um determinado momento, comecei a ficar preocupado com o contraste entre a genialidade de tudo o que ele me dizia e a indigência da minha estrutura”, afirmou.

Na própria entrevista, no entanto, o geógrafo fez uma afirmação otimista: “coisas fundamentais podem ser feitas com parcos recursos”. “Ilustrei isso mostrando meninos de uma área pobre do Rio de Janeiro que fizeram um lindo filme com uma câmera barata, improvisando travellings em uma cadeira velha de escritório e usando um cabo de vassoura como tripé”, contou.

Partidos políticos que perdem a ideologia, crises da democracia, desestruturação das esquerdas: tudo o que Santos dizia em 2001 foi emergindo na realidade brasileira e mundial ao longo dos anos, de acordo com Tendler. Para ele, o geógrafo era um clarividente, alguém que associa o estudo e a intuição para mergulhar na complexidade da realidade e fazer emergir uma visão cristalina. “O pensamento dele é muito complexo e ele não tenta simplificar as coisas. Propositalmente, como se fosse um mágico, vai nos conduzindo às suas idéias. O filme é um diálogo, mas não usei esse termo no título. Preferi ‘encontro’, porque não tenho estatura científica para me colocar no patamar dele”, declarou.

Uma vez pronta a entrevista, o restante do processo de filmagem e edição durou cinco anos. “Como quase todos os meus filmes, é um quebra-cabeça. Não tento simplificar o processo de produção, nem tenho pretensão de inovar na linguagem cinematográfica. O objetivo é me comunicar com os espectadores”, declarou. Tendler é autor de longa-metragens como Os Anos JK – Uma trajetória política (1980), Jango (1984), Castro Alves – Retrato falado do poeta (1998) e Glauber – Labirinto do Brasil(2002).

http://www.terramar.org.br/oktiva.net/1320/nota/57093

MILTON SANTOS: POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO (LIVRO)

·:·MILTON SANTOS: POR UMA OUTRA GLOBALIZAÇÃO - A DE TODOS ·:·

Délio Mendes


Para o mundo intelectual brasileiro entrou em encantamento um dos seus principais pensadores. E se encantou em plena produção, no seu momento mais fértil. Produzia uma crítica à globalização considerando que a mesma tem sido levada a efeito do ponto de vista do capital financeiro. Propunha uma outra globalização. Intelectual estudioso do espaço e do tempo, compreendeu, em seu tempo, o espaço como produção do homem na relação com a totalidade da natureza e a intermediação da técnica. Técnica que corresponde a um tempo determinado pela produção dos homens. Homem do seu tempo, Milton Santos se fez presente em todos os grandes embates intelectuais da última metade do século passado. O seu tempo e o seu espaço foram o tempo e o espaço da globalização. Que ele queria que fosse outra. Ou melhor, a outra, a globalização de todos os excluídos, resgatados em uma sinfonia de humanização. Milton se fez maestro da paz e da felicidade. Felicidade de todos. Buscou uma globalização que unisse todas as mulheres e todos os homens, sob égide do encontro.

Conheci Milton, no Recife, em 1978, quando estava às voltas com Pobreza urbana. Inovava ao compreender o mundo formal e informal, como duas faces de um circuito comandado desde a acumulação ampliada do capital.[1] Inovava e agitava. Milton era, sobretudo, um agitador. Agitador de idéias, no melhor sentido de um intelectual da sua estatura. Avesso aos partidarismos, falava da isenção do intelectual para exercitar a crítica. Por isso, sempre esteve radicalmente ao lado do seu povo. Em Pobreza urbana se faz crítico de um debate sobre a desigualdade que se presta, mais e muito mais, à louvação mesquinha de intelectuais vazios entre si, do que a colocação correta e crítica dos grandes problemas da exclusão. “Indubitavelmente, o tom de certos trabalhos, nos quais o jogo conhecido das referências recíprocas entre autores "freqüentemente substitui uma análise dos fatos, tem contribuído para a perpetuação do debate, que, embora pretenda atacar o problema em profundidade, perde-se numa guerrilha semântica confusa.”[2] Esta crítica direta acompanha uma análise da produção intelectual da pobreza que, segundo Milton, pouco tinha contribuído para a resolução dos problemas da pobreza. Para este jogo de vaidades não se contava com a sua participação.

A história do homem, compreendida como a história da superação, faz do autor de Pobreza urbana, um profeta da evolução. “A história do homem sobre a terra é a história de uma ruptura progressiva entre o homem e o entorno. Esse processo se acelera quando, praticamente ao mesmo tempo, o homem se descobre como indivíduo e inicia a mecanização do Planeta, armando-se de novos instrumentos para poder dominá-lo. A natureza artificializada marca uma grande mudança na história da natureza humana. Hoje, com a tecnociência, alcançamos o estágio supremo dessa evolução.”[3] A visão da técnica, do espaço e do tempo, assume, nesta compreensão, um caráter inovador, na medida em que passa a apreender a dimensão da história, da história de temporalidades técnicas que permite produzir uma sociedade determinada, empregando, de acordo com a técnica predominante, uma certa quantidade de trabalho humano. Milton abre o conceito de território, mostrando-o como o lugar do drama social “Bom, há nessa desordem a oportunidade intelectual de nos deixar ver como o território revela o drama da nação, porque ele é, eu creio, muito mais visível através do território do que por intermédio de qualquer outra instância da sociedade. A minha impressão é que o território, revela as contradições muito mais fortemente.”[4] Da relação técnica, espaço e tempo, revela-se a história, ou melhor, uma outra história, no palco iluminado expresso no território. Esta outra história aponta para as desigualdades. Faz emergir a exclusão da maioria da população concentrada em um território degradado, onde pobres de todas as naturezas lutam contra todos os carecimentos.

Milton se mostra mais crítico no livro recente Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal[5], onde nos aponta para um mundo de difícil percepção por conta da confusão reinante que nos tem levado à perplexidade. Portanto, toma para análise a realidade relacional do ser humano, e a esta realidade relacional perversa atribui os males revelados pelo território. Não aceita explicações mecanicistas pelo seu caráter insuficiente. Atribuindo ao desenrolar da história, capitaneada por determinados segmentos da sociedade, os males que tornam difícil a vida da maioria das mulheres e dos homens. Coloca na base deste processo confuso a tirania do dinheiro e da informação, transcende a Marx, e o dinheiro passa a produzir dinheiro, dominando o mundo da produção de mercadorias. Especulação, financeirização. A globalização é feita menor, sob a égide dos bancos e dos banqueiros, criando uma fábrica de perversidades. “O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e o desabrigo se generalizam em todos os continentes.”[6]

Caminhando no terreno da mais valia global, Por uma outra globalização apreende o papel dos intelectuais. Todos trabalhando a ampliação desta mais valia. Trabalhando para ampliar a produtividade como se este fosse um trabalho abstrato, e não a produção de urna vantagem para o capital.[7] É preciso reconhecer este momento e a sua peculiaridade. A de ser um momento para o capital. E todas as ações movem-se na direção do reproduzir para os ricos. Entretanto, se esta é uma constatação, não é, felizmente, uma fatalidade. Milton nos aponta para um outro conhecimento. Para a possibilidade de conhecer, para a liberdade do ser humano. Para modificar o mundo. Para que o conhecimento se produza no interior da crítica, sem abstrações alienantes, sem reconhecimentos incompletos que produzem falsas compreensões e encobrem os verdadeiros dramas sociais. E assim, pode-se evitar a espera para que cresça o bolo, evitando a indigência de uma quantidade grande de seres humanos.

É o início de uma outra cognoscibilidade do planeta. Um planeta que conta com todas as possibilidades de ser desvendado. Mas, nem sempre o conhecer é possível. A informação nem sempre se propõe a informar, e sim a convencer acerca das possibilidades e das vantagens das mercadorias. "O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde.”[8] A contradição se faz e se refaz na impossibilidade de se produzir, de imediato, uma informação libertadora. A alienação é a face que brota aguda da globalização financeira, da globalização do dinheiro. Encanta-se o mundo. O princípio e o fim são o discurso e a retórica. Então o que fica para o ser comum é a farsa do consumo. Não há referência à transformação do espaço e do tempo. O homem consumidor caminha no espaço do desconhecimento do mundo relacional e do falso e alardeado conhecimento do mundo das mercadorias. O fetiche, como e desde sempre, se realiza no ocultamento do valor de troca e no falso evidenciamento do valor de uso. É a utilidade que aparece, e que é proclamada em todo o universo informacional. Fala-se ao peito sangrando das mulheres e homens que não são consumidores. Para a competitividade, tem-se de chamar os consumidores, tem-se que oferecer o melhor, o mais barato, produzido desde a produtividade aumentada pelo trabalho dos intelectuais. Tudo para melhorar a competitividade.

Para Milton, a competitividade é ausência de compaixão. Tem a guerra como norma, e privilegia sempre os mais fortes em detrimento dos mais fracos. Busca fôlego na economia e despreza os que pensam mais para além. "Para tudo isso, também contribuiu a perda da influência da filosofia na formulação das ciências sociais, cuja interdisciplinaridade acaba por buscar inspiração na economia.”[9] Esta é uma das mais importantes reflexões levadas a efeito no interior de Por uma outra, na medida em que coloca um ponto focal que não é localizado costumeiramente no campo da ideologia. Cientistas sociais dos mais diferentes matizes sucumbem aos encantos da facilidade dos números e do falso realismo de uma formulação econômica ideologizada, que esquece os seres humanos e os substitui pelas equações e as tabelas estatísticas que ilusionam os dirigentes e metem medo a todos os que não querem padecer no inferno apontado pelos proclamadores da nova única. Se não aceitas as premissas e as evidências das projeções estatísticas da nova única, serás responsável pelo caos que há de vir.

Empobrece a ciência social em geral, nada para além da numerologia estatística. Investir nos setores sociais acarreta um custo que o capital não se propõe a pagar, e a ciência se curva, entra em letargia, deixa o mundo nas mãos dos economistas que vão levá-lo adiante de mãos com a lógica da relação produto capital e da competitividade. A ciência humana se faz pobre para interpretar um mundo confuso e conturbado e, desde logo, tudo a ciência econômica. Este enfoque modernoso atinge por caminhos nunca dantes navegados a maioria das falas e dos discursos. Grandes farsas são inventadas e reinventadas. O privilégio continua privilegiando o privilegiado. "Os atores mais poderosos se reservam os melhores pedaços do território.”[10] Inclusive do território do pensar para impedir o pensar. Apoderam-se das mentes e dos corações e, por conseqüência, das vidas no pleno movimento da vivência. Tudo isto no mundo da competitividade. A competitividade revela a essência do território, os lugares apontam para as lutas sociais, trazendo a tona virtudes e fraquezas dos atores da vida política e da sociedade.

A cidadania se torna menor do que sua percepção. O cidadão pretende transcender o seu espaço primitivo. Todavia, o mundo, expresso desigualmente, não tem como regular os lugares em suas diversidades e, por conseqüência, a cidadania se faz menor. A desigualdade aponta a impossibilidade da generalização da cidadania. O espaço é esquizofrênico na expressão da exclusão social. Uns homens sentem-se mais cidadãos do que outros. Mas estes homens são apenas consumidores, pois a cidadania depende de sua generalização. Não existem cidadãos num mundo apartado. Não se é cidadão em um espaço onde todos não o são. São consumidores os que expressam direitos e deveres no âmbito do mercado e não no âmbito do espaço público, onde a política é realizada e o poder distribuído. Portanto, este é um mundo de alguns consumidores e poucos, pouquíssimos cidadãos. É preciso construir a cidadania.

A transição (conclusão)

O novo nasce sem que se perceba. Quase na sombra, o mundo muda de maneira imperceptível, todavia constante. Neste início de século, temos a consciência de que estamos vivendo uma nova realidade. As transformações atuais colocam os homens em permanente estado de perplexidade. A poluição e a desertificação se alastram, a super população e as tecno-epidemias etc., tornam o mundo diverso negativamente. A pobreza e a desigualdade, são produtos desta forma da produção do modo civilizatório capitalista. Este novo apresenta diferentes faces. Tudo isto como conseqüência da desestruturação da ordem industrial. O atual período histórico não é apenas a continuação do capitalismo ocidental, é mais. Melhor, é muito mais, é a transição para uma nova civilização. Esta transição que está em curso é preocupante para determinadas sociedades, desprotegidas na guerra das nações pela primazia na história

Milton chama atenção para esta realidade. "No caso do mundo atual, temos a consciência de viver um novo período, mas o novo que mais facilmente apreende-se diz respeito à utilização de formidáveis recursos da técnica e da ciência pelas novas formas do grande capital, apoiado por formas institucionais igualmente novas. Não se pode dizer que a globalização seja, semelhante às ondas anteriores, nem mesmo uma continuação do que havia antes, exatamente porque as condições de sua realização mudaram radicalmente. É somente agora que a humanidade está podendo contar com essa nova realidade técnica, providenciada pelo que se está chamando de técnica informacional. Chegamos a um outro século e o homem, por meio dos avanços da ciência, produz um sistema de técnicas da informação. Estas passam a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando a presença planetária desse novo sistema técnico."[11]

É necessário, para compreender esse novo, o conhecimento de dois elementos fundamentais na formação social das nações: a formação técnica e a formação política. Uma permite a compreensão dos elementos tecnológicos que formam as composições necessárias à produção, e a outra indica que setores serão privilegiados com a organização possível da produção. “Na prática social, sistemas técnicos e sistemas políticos se confundem e é por meio das combinações então possíveis e da escolha dos momentos e lugares de seu uso que a história e a geografia se fazem e refazem continuamente.”[12] Desde esta compreensão, esta nova sociedade pode, inclusive, abrir uma nova época com a colocação de um novo paradigma social. Este paradigma pode ser posto como: a superação da nação ativa pela nação passiva.

Ou melhor, voltando ao velho Marx: a nação em si é superada pela nação para si. Para isto, é necessário que o velho/novo mundo periférico retome um projeto político de independência, fora dos moldes de projetos como o Mercosul, que nada mais representam do que a dependência em bloco, na medida em que este tipo de associação só serve à subserviência coletiva, levando grupos de países periféricos a deixar de submeterem-se isoladamente, para cair em bloco nos ardis do capital financeiro.

Finalmente, utilizando a dialética como referência, Milton mostra a batalha travada entre a nação passiva e a nação ativa, em uma transição política que envolve todos os espaços do viver, desde o espaço da vida cotidiana. A nação ativa, ligada aos interesses da globalização perversa, nada cria, nada contribui para a formação do mundo da felicidade, ao contrário da outra nação dita passiva que, a cada momento, cria e recria, em condições adversas, o novo jeito de produzir o espaço social, mostrando que a atual forma de globalização não é irreversível e a utopia é pertinente. ” É somente a partir dessa constatação, fundada na história real do nosso tempo, que se torna possível retomar, de maneira concreta, a idéia de utopia e de projeto.”[13] Desde esta compreensão, a globalização é um projeto irreversível da humanidade. Entretanto, não é esta a globalização desejada, e sim uma outra, a de todos.

Sobre o livro: SANTOS, Milton. Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal. São Pauto: Record, 2000. [1]SANTOS, Milton (1978) Pobreza urbana, Hucitec/UFPE/CNPU, São Paulo, Recife.
[2]SANTOS, Milton, Pobreza urbana, op. cit. p.29.
[3]SANTOS, Milton (1994), Técnica espaço tempo, Hucitec, São Paulo, p. 17.
[4]SANTOS, Milton (2000) Entrevista com SEABRA, Odete, CARVALHO, Mônica e LEITE, José Corrêa, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, p. 21.
[5]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - do pensamento único à consciência universal, Record, São Paulo.
[6]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 19
[7]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 31
[8]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 39
[9]SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 47
[10] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 79.
[11] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 142.
[12] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 142
[13] SANTOS, Milton (2000) Por uma outra globalização - op. cit. p. 160


http://www.fundaj.gov.br/observanordeste/obex02.html

SER NEGRO NO BRASIL POR MILTON SANTOS

Ser negro no Brasil hoje

Ética enviesada da sociedade branca desvia enfrentamento do problema negro

Milton Santos

http://www.ige.unicamp.br/~lmelgaco/santos.htm

Há uma frequente indagação sobre como é ser negro em outros lugares, forma de perguntar, também, se isso é diferente de ser negro no Brasil. As peripécias da vida levaram-nos a viver em quatro continentes, Europa, Américas, África e Ásia, seja como quase transeunte, isto é, conferencista, seja como orador, na qualidade de professor e pesquisador. Desse modo, tivemos a experiência de ser negro em diversos países e de constatar algumas das manifestações dos choques culturais correspondentes. Cada uma dessas vivências foi diferente de qualquer outra, e todas elas diversas da própria experiência brasileira. As realidades não são as mesmas. Aqui, o fato de que o trabalho do negro tenha sido, desde os inícios da história econômica, essencial à manutenção do bem-estar das classes dominantes deu-lhe um papel central na gestação e perpetuação de uma ética conservadora e desigualitária. Os interesses cristalizados produziram convicções escravocratas arraigadas e mantêm estereótipos que ultrapassam os limites do simbólico e têm incidência sobre os demais aspectos das relações sociais. Por isso, talvez ironicamente, a ascensão, por menor que seja, dos negros na escala social sempre deu lugar a expressões veladas ou ostensivas de ressentimentos (paradoxalmente contra as vítimas). Ao mesmo tempo, a opinião pública foi, por cinco séculos, treinada para desdenhar e, mesmo, não tolerar manifestações de inconformidade, vistas como um injustificável complexo de inferioridade, já que o Brasil, segundo a doutrina oficial, jamais acolhera nenhuma forma de discriminação ou preconceito.

500 anos de culpa

Agora, chega o ano 2000 e a necessidade de celebrar conjuntamente a construção unitária da nação. Então é ao menos preciso renovar o discurso nacional racialista. Moral da história: 500 anos de culpa, 1 ano de desculpa. Mas as desculpas vêm apenas de um ator histórico do jogo do poder, a Igreja Católica! O próprio presidente da República considera-se quitado porque nomeou um bravo general negro para a sua Casa Militar e uma notável mulher negra para a sua Casa Cultural. Ele se esqueceu de que falta nomear todos os negros para a grande Casa Brasileira. Por enquanto, para o ministro da Educação, basta que continuem a frequentar as piores escolas e, para o ministro da Justiça, é suficiente manter reservas negras como se criam reservas indígenas. A questão não é tratada eticamente. Faltam muitas coisas para ultrapassar o palavrório retórico e os gestos cerimoniais e alcançar uma ação política consequente. Ou os negros deverão esperar mais outro século para obter o direito a uma participação plena na vida nacional? Que outras reflexões podem ser feitas, quando se aproxima o aniversário da Abolição da Escravatura, uma dessas datas nas quais os negros brasileiros são autorizados a fazer, de forma pública, mas quase solitária, sua catarse anual?

Hipocrisia permanente

No caso do Brasil, a marca predominante é a ambivalência com que a sociedade branca dominante reage, quando o tema é a existência, no país, de um problema negro. Essa equivocação é, também, duplicidade e pode ser resumida no pensamento de autores como Florestan Fernandes e Octavio Ianni, para quem, entre nós, feio não é ter preconceito de cor, mas manifestá-lo. Desse modo, toda discussão ou enfrentamento do problema torna-se uma situação escorregadia, sobretudo quando o problema social e moral é substituído por referências ao dicionário. Veja-se o tempo politicamente jogado fora nas discussões semânticas sobre o que é preconceito, discriminação, racismo e quejandos, com os inevitáveis apelos à comparação com os norte-americanos e europeus. Às vezes, até parece que o essencial é fugir à questão verdadeira: ser negro no Brasil o que é? Talvez seja esse um dos traços marcantes dessa problemática: a hipocrisia permanente, resultado de uma ordem racial cuja definição é, desde a base, viciada. Ser negro no Brasil é frequentemente ser objeto de um olhar vesgo e ambíguo. Essa ambiguidade marca a convivência cotidiana, influi sobre o debate acadêmico e o discurso individualmente repetido é, também, utilizado por governos, partidos e instituições. Tais refrões cansativos tornam-se irritantes, sobretudo para os que nele se encontram como parte ativa, não apenas como testemunha. Há, sempre, o risco de cair na armadilha da emoção desbragada e não tratar do assunto de maneira adequada e sistêmica.

Marcas visíveis

Que fazer? Cremos que a discussão desse problema poderia partir de três dados de base: a corporeidade, a individualidade e a cidadania. A corporeidade implica dados objetivos, ainda que sua interpretação possa ser subjetiva; a individualidade inclui dados subjetivos, ainda que possa ser discutida objetivamente. Com a verdadeira cidadania, cada qual é o igual de todos os outros e a força do indivíduo, seja ele quem for, iguala-se à força do Estado ou de outra qualquer forma de poder: a cidadania define-se teoricamente por franquias políticas, de que se pode efetivamente dispor, acima e além da corporeidade e da individualidade, mas, na prática brasileira, ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social.
Costuma-se dizer que uma diferença entre os Estados Unidos e o Brasil é que lá existe uma linha de cor e aqui não. Em si mesma, essa distinção é pouco mais do que alegórica, pois não podemos aqui inventar essa famosa linha de cor. Mas a verdade é que, no caso brasileiro, o corpo da pessoa também se impõe como uma marca visível e é frequente privilegiar a aparência como condição primeira de objetivação e de julgamento, criando uma linha demarcatória, que identifica e separa, a despeito das pretensões de individualidade e de cidadania do outro. Então, a própria subjetividade e a dos demais esbarram no dado ostensivo da corporeidade cuja avaliação, no entanto, é preconceituosa.
A individualidade é uma conquista demorada e sofrida, formada de heranças e aquisições culturais, de atitudes aprendidas e inventadas e de formas de agir e de reagir, uma construção que, ao mesmo tempo, é social, emocional e intelectual, mas constitui um patrimônio privado, cujo valor intrínseco não muda a avaliação extrínseca, nem a valoração objetiva da pessoa, diante de outro olhar. No Brasil, onde a cidadania é, geralmente, mutilada, o caso dos negros é emblemático. Os interesses cristalizados, que produziram convicções escravocratas arraigadas, mantêm os estereótipos, que não ficam no limite do simbólico, incidindo sobre os demais aspectos das relações sociais. Na esfera pública, o corpo acaba por ter um peso maior do que o espírito na formação da socialidade e da sociabilidade.
Peço desculpas pela deriva autobiográfica. Mas quantas vezes tive, sobretudo neste ano de comemorações, de vigorosamente recusar a participação em atos públicos e programas de mídia ao sentir que o objetivo do produtor de eventos era a utilização do meu corpo como negro -imagem fácil- e não as minhas aquisições intelectuais, após uma vida longa e produtiva. Sem dúvida, o homem é o seu corpo, a sua consciência, a sua socialidade, o que inclui sua cidadania. Mas a conquista, por cada um, da consciência não suprime a realidade social de seu corpo nem lhe amplia a efetividade da cidadania. Talvez seja essa uma das razões pelas quais, no Brasil, o debate sobre os negros é prisioneiro de uma ética enviesada. E esta seria mais uma manifestação da ambiguidade a que já nos referimos, cuja primeira consequência é esvaziar o debate de sua gravidade e de seu conteúdo nacional.

Olhar enviesado

Enfrentar a questão seria, então, em primeiro lugar, criar a possibilidade de reequacioná-la diante da opinião, e aqui entra o papel da escola e, também, certamente, muito mais, o papel frequentemente negativo da mídia, conduzida a tudo transformar em "faits-divers", em lugar de aprofundar as análises. A coisa fica pior com a preferência atual pelos chamados temas de comportamento, o que limita, ainda mais, o enfrentamento do tema no seu âmago. E há, também, a displicência deliberada dos governos e partidos, no geral desinteressados do problema, tratado muito mais em termos eleitorais que propriamente em termos políticos. Desse modo, o assunto é empurrado para um amanhã que nunca chega.
Ser negro no Brasil é, pois, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver "subido na vida".
Pode-se dizer, como fazem os que se deliciam com jogos de palavras, que aqui não há racismo (à moda sul-africana ou americana) ou preconceito ou discriminação, mas não se pode esconder que há diferenças sociais e econômicas estruturais e seculares, para as quais não se buscam remédios. A naturalidade com que os responsáveis encaram tais situações é indecente, mas raramente é adjetivada dessa maneira. Trata-se, na realidade, de uma forma do apartheid à brasileira, contra a qual é urgente reagir se realmente desejamos integrar a sociedade brasileira de modo que, num futuro próximo, ser negro no Brasil seja, também, ser plenamente brasileiro no Brasil.



Artigo escrito por Milton Santos, geógrafo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
Fonte: Folha de S.Paulo - Mais - brasil 501 d.c. - 07 de maio de 2000


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terça-feira, 11 de novembro de 2008

O direito de resposta: kafkiano-OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

O direito de resposta: kafkiano

Por Celso Lungaretti em 11/11/2008


Um dos contos mais perturbadores de Kafka é "A Porta da Justiça", sobre o cidadão que chega à dita cuja e é impedido de entrar pelo brutamontes que a guarda. Este adverte que, se o pleiteante conseguir passar por ele, terá pela frente guardiães ainda mais ameaçadores.

O homem que busca justiça se conforma e lá permanece resignadamente, à espera de que lhe seja permitido o acesso. O tempo passa, sua saúde se deteriora. Quando está agonizando, pergunta ao guarda para que servia, afinal, aquela porta, já que ninguém mais tentara passar por ela.

Recebe a resposta de que aquela porta se destinava exclusivamente a ele. Com sua morte, seria fechada para sempre.

Eu enfrento situação similar diante da porta do direito de resposta na Folha de S.Paulo.

Em meados de 1994, fui acusado de delator da área de treinamento guerrilheiro da VPR em Registro, na capa da "Ilustrada", por Marcelo Paiva. A editora me concedeu o direito de resposta, mas o Paiva contra-atacou. Reivindiquei, então, o direito que o Manual de Redação da própria Folha me assegurava, de uma intervenção final.

Gravíssimo erro

A editora tentou esquivar-se, pretextando falta de espaço. A então ombudsman, bizarramente, endossou sua posição. Então, tive de me dirigir diretamente ao diretor de redação, Otavio Frias Filho, para que o jornal honrasse o compromisso publicamente assumido com os alvejados em espaço editorial.

Desde então, sofro uma retaliação mesquinha da Folha, que há 14 anos me nega o direito pleno de resposta e de apresentar o "outro lado" em assuntos que me tocam diretamente. Uma regra não escrita do jornal é a de que as queixas e esclarecimentos de Celso Lungaretti sejam relegadas, em quaisquer circunstâncias, ao "Painel do Leitor".

O exemplo mais gritante de desrespeito às boas práticas jornalísticas ocorreu no final de 2004, quando encontrei num relatório secreto militar a prova cabal de que houvera sido falsamente acusado por Marcelo Paiva dez anos e meio antes. Como, naquela ocasião, não houvesse elementos para elucidação plena da questão – ficara minha palavra contra a de Paiva –, o certo teria sido o jornal reconhecer, com idêntico destaque, o gravíssimo erro cometido.

Só restou o jus esperneandi

A resposta da Folha foi me colocar em contato com o responsável pela sucursal do Rio de Janeiro, que prometeu esclarecer o assunto,mas ficou ganhando tempo até que o jornal recebeu uma carta de Jacob Gorender, admitindo que fora levado a encampar uma versão falsa em seu livro Combate nas Trevas e esclarecendo que nenhuma culpa verdadeiramente me cabia no episódio de que eu era acusado.

A Folha, então, me comunicou que considerava a publicação da carta do Gorender no "Painel do Leitor" como satisfação suficiente a mim, dando o caso por encerrado. Qualquer jornalista sabe, entretanto, que o Gorender, com a dignidade que lhe é inerente, corrigiu a informação que ele próprio dera. A Folha, ao publicar o mea-culpa do historiador, não definiu sua própria posição, não admitiu que errara nem se desculpou comigo.

Como não existisse mais a possibilidade de uma ação por danos morais (já prescrevera) e eu não estivesse em condições de custear advogado apenas para fazer valer meu direito de ver a retificação publicada com o mesmo destaque da desinformação injuriosa, só me restou exercer o jus esperneandi em tribunas não pertencentes à grande imprensa (como este Observatório).

O cesto de lixo como destino

E, em meia-dúzia de ocasiões, a Folha me negou espaço adequado para fazer a defesa da memória da luta armada e dos companheiros que dela participaram, embora eu seja o veterano da resistência mais identificado publicamente com esse papel nos dias de hoje.

Minhas contestações irrefutáveis àquilo que o jornal publicara sobre a reparação à família de Carlos Lamarca e ao uso do entulho autoritário, por parte de Elio Gaspari, como argumento para satanizar personagens históricos, foram arbitrariamente sonegadas dos leitores da Folha.

No entanto, os espaços na página de opinião são sempre generosamente concedidos para os porta-vozes da direita mais reacionária e primária.

No último dia 7, foi a vez de Jarbas Passarinho despejar sua bílis na seção Tendência/Debates, insistindo no conceito que os serviços de guerra psicológica das Forças Armada plantaram na opinião pública, de forma goebbeliana, durante a ditadura, de que atos de legítima resistência à tirania equivaleriam a "terrorismo".

Em meu próprio nome e no dos companheiros vivos e mortos que foram caluniados como terroristas, encaminhei ao ombudsman da Folha e ao diretor de redação um artigo com extensão equivalente, refutando o do ex-ministro de Médici e signatário do AI-5.

Por enquanto, seu destino está sendo o de todos os anteriores: o cesto de lixo.

Ou seja, a porta do direito de resposta está aberta, mas é só para constar, pois há 14 anos o guardião impede minha passagem. E, um dia, a fecharão definitivamente.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=511IMQ003

terça-feira, 4 de novembro de 2008

RESTAURAÇÃO DO FILME:"SINFONIA AMAZÔNICA" - DE ANÉLIO LATINI FILHO - 1951 - LATINI FEZ 500 mil desenhos para este longa de animação!

UM AMIGO ENVIA PARA O BLOG!! ALCOÓLICOS ANÔNIMOS!

A irmandade de Alcoólicos Anônimos nasceu na cidade de Akron, Ohio, E.U.A. ,em 1935, quando um homem de negócios de nova Iorque, sóbrio pela primeira vez em anos, procurou um outro alcoólatra e foi condizido a um médico um médico da localidade. Durante seus poucos meses de recém encontrada sobriedade, o homem de Nova Iorque constatou que seu desejo de beber diminuia quando tentava ajudar outros "bêbados" a alcançar a sobriedade.Trabalhando juntos, estes dois homens,que são os fundadores de A.A., Bill e Dr. Bob, descobriram que sua capacidade de permanecer sóbrio parecia estar bastante ligada ao grau de ajuda e encorajamento que conseguiam dar aos outros alcoólatras.Durante quatro anos, o novo movimento, sem nome e sem nenhuma organização ou material informativo, cresceu lentamente. Formaram-se grupos em Akron, Nova Iorque, Cleveland e outros locais. Em 1939, com a publicação do livro "Alcoólicos Anônimos", do qual foi tirado o nome para a Irmandade, e contando com a ajuda de vários amigos não-alcoólatras, o movimento de AA começou a atrair atenção nacional e internacional. A estimativa,hoje, é de mais de quatro milhões de membros, trezentos grupos, em mais de 150 países.

(01/10/08)

http://www.alcoolicosanonimos.org.br


SARAU!!! COISA DE INTELECTUAIS!?

Outro dia um amigo disse que o "SARAU PARA TODOS": http://sarauxyz.blogspot.com
o havia surpreendido por considerar que Saraus geralmente são feitos e compostos por uma quase elite intelectual! O que pensei sobre isto foi,que não é assim, pode até estar sendo assim na maioria das reuniões que ocorrem para se trocar poesias ou até músicas!...
Aqui na área mais central da cidade de São Paulo, até poderia ser assim como este amigo afirmou!
Mas neste blog...é tão óbvio para mim,que de verdade este SARAU da blogosfera, pode sim ser de todos! e seria extraordinário se resgatássemos aqueles antigos costumes paulistanos, que minha própria mãe,filha de imigrantes italianos, vivenciou em sua quase adolescência!
Seus tios e vizinhos reuniam-se na casa de meu avô e tocavam, cantavam, declamavam poesias!
Quase meio século depois estava eu participando de uma banda de barracão! (não era de garagem, só porque o local ficava no fundo do quintal da casa!)
Nestas reuniões culturais,é onde as pessoas trocam! onde conversam! onde iniciam suas caminhadas para um verdadeira cidadania! Sem nossa cultura local, nos sentimos pessoas sem braços, sem pernas e sem voz! E participando destas reuniões,é que podemos perceber que possuímos cabeça! que temos uma alma! que temos dois pés que pisam o mesmo solo de outras tantas pessoas,que poderão sentir coisas semelhantes ao que sentimos!! esta é a verdadeira identificação de um povo! sem ela...dificilmente descobriremos porque somos seres letrados! que ESCREVEM!! e que LÊEM O QUE OUTROS ESCREVEM!! a palavra nos une! e é nela que nos enxergamos civilizados,HUMANOS!

Por tanto sejam hiper BEM VINDOS AO NOSSO SARAU!!
Convido a quem quiser ser colaborador oficial ou sem oficialidades!!(risos)
A estarem totalmente à vontade!! A CASA É NOSSA!!!

abraços a todos!
NADIA STABILE - 04/11/08

FALANDO EM ÉPICOS!

"Épico, no sentido cinematográfico, é um gênero que retrata contos de grandes heróis, onde todo seu centro se baseia em apenas um personagem principal ou de um povo. Conta tipicamente com grande produção e temas dramáticos."(...)Fonte: Wikipédia
Se formos pensar sobre como seria um épico brasileiro,bem característico!
Eu pensaria em retratar o drama das professoras brasileiras! digo no feminino, porque há muito mais mulheres lecionando do que homens! pelo menos na educação básica, é assim!
Então,fiquei imaginando como seria este filme!Para ser bem realista, pensei em filmar o dia a dia de uma professora, ou de várias! e lógico do povo que frequenta as escolas públicas! O dia destas professoras começaria dentro de um ônibus lotado! ela cheia de material escolar pendurada naqueles canos, como um escravo do período colonial!
E o pior! tendo que viajar assim por no mínimo uma hora até chegar nos confins das escolas da periferia! Chegando lá elas seriam tratadas todos os dias como um extraterrestre que acabou de chegar de Vênus ou Marte! por que? simplesmente porque a comunidade de seus alunos geralmente não é a mesma destas professoras!E o incrível é que quando diretores são contratados sem concurso,geralmente fazem questão que sejam da mesma comunidade da escola!
OOOO!!! sem concurso!? bom, este fenômeno seria o enigma deste épico!
O ideal é que estes concursos assim como as locações do filme, e assim como o enredo todo deste épico fosse bem outro! mas como tudo custa a mudar quando o povo não muda sua mentalidade! ....este seria o maior drama deste épico!! A TEIMOSIA DESTE POVO!

NADIA STABILE - 04/11/08

SE O METRÔ PAULISTANO EXIISTISSE!!...

eu faço de conta que escrevo...
e você faz de conta que lê!
as escolas fazem de conta que ensinam,
e os alunos fazem de conta que aprendem!
os planos médicos fazem de conta que funcionam,
e nós fazemos de conta que teremos tratamento numa doença grave!
o jornalismo da tv, aquele do horário nobre, faz de conta que informa,
e nós fazemos de conta que somos bem informados!
a bolsa!? AAA!!! quanto será que eu perdi hoje!?
o metrô de São Paulo que deveria ter pelo menos 10 vezes mais quilômetros...
este, estamos começando a perceber que não dá mais para fazer de conta que existe!
ele é somente uma amostra....e não grátis! caríssima! pois leva-nos junto com os quilômetros à menos, nossa paz, nossa saúde e muitos cidadãos que morrem por causa da poluição na cidade!
Poluição que seria bem menor se o metrô "EXISTISSE" ,mas não, como já disse,ele é apenas uma amostra. Este mesmo "ator" que está retratado aí na postagem anterior,continuou a fazer muitos outros estragos em São Paulo, tipo um túnel,se não me engano o nome deste túnel é Airton Senna,este túnel acreditem ! não tem altura suficiente para que nele trafeguem ônibus!
mas só automóveis! e pasmem! é o túnel que leva o tal do "ator" bem mais rápido para sua residência! Mas agora já ficou obsoleto! pois o tráfego de helicópteros desta cidade hoje, é um dos maiores do mundo! Afinal, para que usar o túnel!?
Enfim, até quando o Brasil será o país do faz de conta!? o país do "só pra constar",do "para inglês ver"....ou do "limpe onde passa o padre!"!?
Nossas origens culturais,sociais, nos levam a ainda mantermos esta mentalidade nada positiva!
que não tem nada a ver com auto estima! "Deixamos tudo como está para ver como é que fica"!
E ainda, um recente presidente expressou certa vez que se não há resolução, "cruzemos os braços e esperemos que se resolva sozinho!" Que espécie de ser humano são estes que tentam governar nosso país!? é melhor nem responder! cruzemos os braços!! e esperemos que eles acabem com tudo e conosco também!

NADIA STABILE - 04/11/08

SAÍDA PARA DIMINUIR OS EFEITOS DO TRÂNSITO DE SÃO PAULO























Desde 1975 a historinha do metrô começou com este "ator" aí da foto estrelando como protagonista!
O faz de conta do metrô poderia estar lotando muito mais vagões!
Mas como o roteiro também foi feito no mundo do faz de conta!
Hoje temos os maiores congestionamentos da humanidade! que não são do mundo do faz de conta,mas do mundo de fabricar doidos!
Aqui neste enredo percebemos claramente que uma "curta" atitude irresponsável,pode causar estragos "quilométricos" durante décadas! e o pivô da historinha que virou o maior épico paulistano,continua por aí!
A saida é você ter em casa um saco de areia com a foto deste "ator" colada! após ter ficado umas tres horas no trânsito chegue em casa e alegremente esmurre o tal do saco!
Agora além do faz de conta do metrô,está sendo lançada a historinha do Rodoanel!
E assim a velha historinha do metrô continuará estrelando com lotação "ESGOTADA" durante pelo menos meio século!

Imagem KIBELOCO
NADIA STABILE - 04/11/08

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